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Artur, o jovem medalhado nacional que treina no quintal

Há histórias no desporto açoriano em pleno século XVI que nos remontam ao início dos anos 80. Passamos por uma vertiginosa evolução tecnológica, onde o acesso aos utensílios indispensáveis para o treino individual e colectivo está muito mais facilitado, mas não chegaram a algumas modalidades do desporto açoriano.
Refiro-me às condições de treino dos praticantes de atletismo de pista da ilha do Pico e concretamente ao que o jovem Artur Brasil enfrenta para evoluir.
O atleta de 15 anos de idade tem estado em destaque nas provas regionais e nacionais de pista. O primeiro lugar na categoria de Sub-16 na Corrida de São Silvestre de Ponta Delgada de 2025 chamou-me a atenção. Destacou-se logo na partida, ganhando um avanço que no final dos 1 300 metros cifrou-se em 16 segundos para o segundo classificado. Passei a seguir a carreira de Artur Brasil, que mereceu da Câmara Municipal de São Roque do Pico o reconhecimento pelo percurso desportivo de excelência no ano passado.
O JOVEM PICOENSE, indiferente às precárias e limitadas condições de treino e nas provas na ilha, sem uma pista em condições, vai ganhando títulos açorianos e boas classificações nacionais. Este ano foi campeão regional de Octatlo e primeiro no Torneio Atleta Completo em Angra do Heroísmo, tendo ocupado o sétimo lugar no campeonato nacional de triatlo técnico entre 19 participantes.
Artur Brasil vai-se destacando no octatlo, uma exigente competição que engloba corridas, saltos e lançamentos que avaliam a versatilidade de cada atleta. Uma das disciplinas é o salto com vara. E sabem onde o Artur treina esta vertente? No quintal da sua casa. A vontade e a resiliência são enormes que o fazem inventar os equipamentos necessários para poder obter os pontos necessários naquela prova.
COMO A FOTO ILUSTRA, Artur Brasil colocou duas cadeiras no piso térreo do quintal. Em cima de cada cadeira três baldes de tinta de 20 litros. Em dois troncos colocados horizontalmente assentou uns paus que suportam a fasquia em alturas que vai compondo dia a dia. A caixa de apoio da vara é uma cova no solo. A vara é uma cana de bambu. Os atletas após os saltos caiem sobre um colchão. No quintal do Artur não há este equipamento. Aperfeiçoou-se a ficar de pé após o salto.
Foi com treinos desta natureza que Artur Brasil integrado na selecção dos Açores no Torneio Atleta Completo de Sub-16. Terminou no octatlo com a mesma pontuação (4 331) de Francisco Atafona, de Leiria. Ganhou Miguel Valdez, de Castelo Branco, com 4 698 pontos (um prodígio que vai dar que falar), seguido do Lourenço Carvalho, de Lisboa, com 4 383 pontos.
Na prova de salto com vara foi segundo, com 2,90 metros, sendo primeiro Gonçalo Guimarães, de Braga, com 3,20 metros.
SÓ UM “PODER DA VONTADE”, como escreveu a treinadora Isabel Mendonça, perante condições do século passado, foi possível “vencer o impossível”, deixando extremamente impressionado o presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, Domingos Castro.
Artur Brasil destacou-se no torneio que decorreu na pista das Laranjeiras com o primeiro lugar nos 100 metros barreiras, segundo nos 1 000 metros, terceiro nos 300, quarto nos 80 metros, quinto no disco, sexto no dardo e sexto no salto em altura.
A classificação do jovem residente na Ribeirinha, da ilha do Pico, deu-lhe o apuramento para dois novos apoios do Jovem Talento Regional e a qualificação para o campeonato nacional de Sub-16, de Sub-18 e as provas combinadas.
ARTUR BRASIL, que representa o Clube Desportivo Escolar de São Roque do Pico, é um exemplo de superação, da luta contra as desigualdades de treino, com um apego para ser melhor em cada prova.
Como pode progredir, acompanhar os adversários com outros recursos tendo condições insuficientes e primárias? É impossível. Tem de haver alternativas. A ilha do Pico ou dá-lhe as condições, que serão aproveitadas por outros “Artures”, ou a meta é a estagnação.
O empenho, o conhecimento, a competência dos treinadores esbarram nos equipamentos que não têm ao dispor, perdendo os atletas, ao longo dos anos, para os que nestas idades classificavam-se em posições inferiores, mas que, por terem acesso a melhores conjunturas, certamente evoluirão mais do que Artur. Penso o mesmo em relação a Natacha Candé. A superatleta da ilha de São Miguel, apesar de bem orientada por José Neves e com melhores equipamentos, pode, futuramente, não acompanhar quem treina com ainda melhores condições.

José Silva

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