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Canábis medicinal em Portugal: mercado, qualidade e futuro

Durante anos, a canábis medicinal foi um tema tabu em Portugal. Hoje, é um sector em plena expansão e o País tornou-se, quase em silêncio, num dos maiores exportadores europeus. Rita Costa, Pharma, Cosmetics & Personal Care Coordinator na SGS Portugal, analisa o que está por detrás deste crescimento, os desafios que persistem e o que aí vem.
A prescrição de canábis medicinal como medicamento é ainda relativamente recente em Portugal, e isso explica parte da desconfiança e das limitações que persistem no seu uso. Embora o cultivo esteja legalizado desde 2019, o acesso continua restrito, sobretudo devido às regras rigorosas que determinam a entrada de produtos no mercado. Ainda assim, enquanto o mercado interno cresce devagar, Portugal transformou se num gigante silencioso da produção e exportação: dezenas de empresas estão já licenciadas para cultivar e exportar, tornando o País um dos principais fornecedores de canábis medicinal para mercados como a Alemanha, Polónia ou Malta. Só entre 2024 e 2025, mais de 18 toneladas seguiram para o estrangeiro.
Vários factores explicam porque Portugal se tornou um verdadeiro íman para o investimento no cultivo de canábis medicinal. O clima é ideal e reduz custos de produção; existe mão de obra especializada nas áreas farmacêutica e agrícola, com custos competitivos; e, acima de tudo, há um enquadramento legal claro, que desde 2019 permite cultivar, produzir e exportar canábis medicinal sob regras altamente reguladas.
A reputação também pesa: Portugal ganhou nome pela qualidade dos seus produtos e pela capacidade de fornecer grandes volumes para mercados europeus exigentes. Resultado: muitas empresas internacionais escolheram o País como base de operações. Hoje, somos vistos como um dos centros mais competitivos da Europa para produção de canábis medicinal e isso continua a atrair investimento ano após ano.
Mas o sector enfrenta desafios significativos. Trata se de uma área nova, altamente regulada e baseada numa substância controlada. O cumprimento das Boas Práticas de Fabrico (GMP) é um dos maiores obstáculos: as exigências são elevadas e obrigam a investimentos pesados em infra-estruturas, equipas e formação. A burocracia também pesa: aprovações demoradas, dossiês extensos, pedidos adicionais de documentação e processos de licenciamento que podem arrastar se durante meses. E, claro, o controlo de qualidade, extremamente rigoroso. Cada lote tem de ser analisado ao detalhe: canabinóides, pesticidas, metais pesados, microbiologia, solventes e outras impurezas. Nada chega ao mercado sem passar por este crivo.

O que tem de ser testado antes de um lote chegar ao mercado

No caso da canábis medicinal, o controlo de qualidade não é apenas obrigatório, mas essencial. Estamos a falar de uma substância controlada, usada em contexto terapêutico, pelo que cada lote tem de provar que é seguro e cumpre os limites regulamentares.
Entre as análises obrigatórias estão o doseamento de THC, o principal canabinóide psicoactivo, e de outros canabinóides como o CBD. Seguem se os testes a pesticidas, essenciais porque a planta acumula facilmente resíduos, e a metais pesados como chumbo, cádmio, mercúrio e arsénio. A isto juntam se análises microbiológicas para detectar fungos, leveduras e bactérias, e testes a micotoxinas, especialmente relevantes em produtos vegetais.
Tudo isto tem de ser feito com métodos validados e em ambiente GMP, garantindo rastreabilidade total. No fundo, cada lote tem de demonstrar, ponto por ponto, que é seguro e que cumpre o perfil de qualidade exigido.

O que esperar nos próximos anos

Nos próximos anos, prevê se uma maior aceitação da canábis medicinal como opção terapêutica, o que deverá aumentar a prescrição médica. O sector vai tornar se mais profissional e mais alinhado com o modelo farmacêutico: mais GMP, mais controlo, mais exigência e menos espaço para improviso. A regulamentação vai apertar, exigindo mais qualidade, mais dados e mais evidência clínica.
Também veremos uma diversificação dos produtos derivados da planta: além da flor seca, ganharão espaço os óleos, extractos e outras formas farmacêuticas. E o tema das impurezas (pesticidas, metais pesados, microbiologia) continuará central.
Portugal deverá manter o seu papel como hub de produção e exportação, graças ao clima, ao know how e à infra-estrutura já instalada. Isso atrairá mais investimento, mais inovação e, provavelmente, uma consolidação das empresas presentes no País, acompanhada de um amadurecimento natural do sector.
Noticiassaude.pt

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