Celebra-se hoje o Dia Internacional do Jazz, data que recorda a importância deste género musical e o seu contributo para a união entre os povos. Ao ‘Correio dos Açores’, Rui Melo, membro da direcção da Associação Cultural Angrajazz, destaca a Orquestra Angrajazz como um projecto transformador que funciona como uma autêntica incubadora de talentos. O responsável sublinha que o jazz valoriza a “improvisação e a liberdade criativa, simbolizando a coragem de explorar o desconhecido e de colaborar com outros em harmonia”. Com o olhar posto no futuro, a associação revela que o cartaz do festival para 2026 está fechado e que a orquestra já se encontra a preparar o seu vigésimo quinto aniversário, a celebrar em 2027.
Correio dos Açores – Considera importante assinalar o Dia Internacional do Jazz? Como é que a ANGRAJAZZ encara esta data no contexto da ilha Terceira e dos Açores?
Rui Melo (Membro da Direcção da Associação Cultural Angrajazz) – A importância do Dia Internacional do Jazz é global e ultrapassa a própria dimensão musical do evento, sendo, acima de tudo, um manifesto de humanismo.
Em Novembro de 2011, a UNESCO designou oficialmente 30 de Abril como o Dia Internacional do Jazz, de forma a chamar a atenção para o papel deste estilo musical como embaixador da tolerância, compreensão e partilha entre as pessoas de todos os cantos do globo.
Em Dezembro do ano seguinte a Assembleia Geral das Nações Unidas acolheu a decisão da UNESCO. A partir de então ambas reconhecem a data nos seus calendários oficiais. A ocasião é presidida e liderado pelo Director Geral da UNESCO Khaled El-Enany e pelo lendário pianista e compositor Herbie Hancock, que participa como Embaixador da UNESCO para o Diálogo Intercultural e é Presidente do Herbie Hancock Institute of Jazz.
Entendemos que em 2017, tendo em atenção a extraordinária importância que o Festival Angrajazz tem no nosso país, era chegada a altura de comemorar em Angra do Heroísmo o Dia Internacional do Jazz e por isso, desde esse ano, com excepção de 2020 e 2021 devido à pandemia, temos vindo a celebrar essa ocasião.
Assim, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e a Associação Cultural Angrajazz levam a efeito hoje a sua celebração com a realização de dois concertos a partir das 21h30 no Centro Cultural de Angra do Heroísmo, com o apoio da Direcção Regional da Cultura e do Hot Clube de Portugal. Trata-se, pois de mais um grande momento na vida cultural da cidade, da Ilha Terceira e dos Açores.
De manhã decorrerão na Escola Tomás de Borba, dois pequenos concertos didácticos, exclusivamente dedicados aos seus alunos, pelos grupos que estarão à noite no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo, o Wave Jazz Ensemble e o Quinteto SPAM Collective.
Este tem sido um aspecto muito referido pela UNESCO: levar o jazz às escolas e fazer concertos didácticos.
Poderia falar um pouco da história do grupo? Qual o seu principal objectivo?
A Associação Cultural Angrajazz nasceu em 2000, como organizadora do Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo – Angrajazz, na sequência da realização do primeiro em 1999, e é conhecida, sobretudo, por esta dimensão específica devido à sua notoriedade nacional e internacional.
O evento, assumidamente generalista, tem como principal objectivo a divulgação e o desenvolvimento do gosto pelo jazz nos Açores, ao mesmo tempo que, pela sua qualidade, marca presença nos calendários da especialidade.
Alguns dos concertos realizados ao longo das várias edições, entraram para a lista dos melhores do ano em Portugal, lista esta elaborada pela crítica nacional que aborda este género musical.
Temos ainda levado a efeito, acções de formação destinadas a bandas locais, assim como outras actividades paralelas, conferências, exposições, cinema e outras.
Como resultado de algumas destas acções de formação, nasce em Julho de 2002, apresentando-se pela primeira vez na quarta edição do festival, a Orquestra Angrajazz, dirigida pelos músicos e professores Pedro Moreira e Claus Nymark, uma das nossas dimensões mais relevantes, uma vez que se trata de um projecto que teve um efeito transformador no panorama musical e cultural da Terceira, pela sua componente formativa de grande rigor, assumindo-se como a principal escola da Região.
Qual é a importância de manter vivo o espírito do jazz, um género que vive da improvisação, numa sociedade que procura respostas instantâneas?
O jazz enquanto manifestação artística, é sem dúvida a grande música do século XX, representa o que de melhor se pode transpor para a sociedade.
Diria que toda a sua estrutura, decorrente de um passado de luta e resistência, assenta num conceito de tolerância, liberdade e competência. Contudo, como todas as coisas que procuram a essência, a profundidade de pensamento e a experimentação, nem sempre será de consumo imediato numa sociedade que cada vez mais é direccionada a consumir produtos musicais fabricados em estúdio com finalidades comerciais.
Cabe às instituições e às organizações que cuidam da promoção deste conceito musical, dar a conhecer este mundo que, por vezes, pode deparar-se com resistências que provém, em grande parte, do desconhecimento.
A Associação Cultural Angrajazz encara o esforço de divulgação como um dos seus principais desígnios.
Quais são os principais desafios que este género enfrenta?
Como referi anteriormente, toda a história deste género tem na sua génese os desafios, e a procura constante da qualidade, do entendimento e da complementaridade entre os vários intervenientes, não só no que respeita aos músicos, mas até dos agentes culturais.
A ameaça que paira, prende-se com um retrocesso civilizacional que tem vindo a ser cultivado e que, constituindo uma ameaça aos valores fundamentais do humanismo, tende a menosprezar o papel da arte, da ciência e da intelectualidade em sentido lato. A música e as artes, sempre lhe darão luta.
A Orquestra Angrajazz é uma referência no panorama nacional, sendo muitas vezes citada como uma das bandas amadoras mais antigas e duradouras de Portugal. Qual é o segredo para manter este entusiasmo e consistência ao longo de mais de duas décadas?
Criada em 2002, é um projecto de formação da Associação Cultural Angrajazz. Tem direcção musical dos professores Pedro Moreira e Claus Nymark. Com sessões de trabalho e workshops regulares, assume-se como a principal “escola” de formação de músicos na Região, contribuindo em muito para que se possa considerar o Angrajazz como o mais importante meio de divulgação do estilo nos Açores.
Tocou com grandes músicos portugueses como Paula Oliveira, Mário Laginha, Zé Eduardo, Afonso Pais, Mário Barreiros, Hugo Alves, Luís Cunha, Paulo Gaspar, Ricardo Toscano, Gonçalo Marques, Carlos Azevedo, e Jeffery Davis, mas também com o extraordinário saxofonista espanhol Perico Sambeat. Para além de inúmeros concertos na ilha já tocou nas ilhas em São Jorge, Graciosa, Faial, São Miguel e Pico. Fora do arquipélago já tocou no Funchal e em Lisboa.
Em 2015 participou no programa de animação cultural “Lisboa na Rua”, integrando o ciclo “A Arte da Big Band – Cinco Orquestras de Jazz”. Em 2016, no 18º Angrajazz, interpretou na íntegra, pela primeira vez em Portugal, “The Far East Suite” do grande Duke Ellington, tendo como convidados o clarinetista Paulo Gaspar e o saxofonista Ricardo Toscano.
Conta ainda com dois discos editados – “Orquestra Angrajazz com Paula Oliveira” (2006) e “Angrajazz” (2018).
Efectivamente, o projecto assume-se como um dos mais relevantes da história da música e das artes nos Açores, sendo a orquestra amadora em actividade mais antiga de Portugal, completando um quarto de século de existência em 2027, existindo, sobretudo, devido ao esforço e empenho dos seus maestros, músicos e da Associação Cultural Angrajazz com o apoio da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.
Não é alheia a dinâmica cultural da Terceira e a sua conjugação com as influências originadas pela presença das forças militares americanas na Base das Lajes. Todos estes factores, unidos por uma grande camaradagem entre os seus elementos e a competência irrepreensível dos seus maestros constituem o segredo.
De que forma têm funcionado como uma incubadora de talentos para os músicos locais da Ilha Terceira?
É inquestionável a influência do grupo, enquanto escola, na formação de um número considerável de músicos da ilha, alguns que, entretanto, já não o integram e outros que permanecem desde o seu início, desde logo abrindo significativamente o leque de conhecimento de repertório de referência e, sobretudo, na aprendizagem da linguagem jazzística sob a orientação dos Maestros Claus Nymark e Pedro Moreira, duas referências em Portugal.
Assim sendo, o conjunto constituiu uma oportunidade imperdível para quem se interessa por este género musical, considerando que as competências adquiridas no jazz, pela sua exigência, são por si só facilitadoras da performance noutros contextos musicais.
Recentemente, expandiu a sua actuação com o projeto ‘Jazz nas Ilhas’, levando a música a todo o arquipélago. O que é que esta circulação de artistas e públicos tem ensinado sobre a vivência do estilo nas diferentes ilhas do arquipélago?
O programa “Jazz nas Ilhas” integrou-se nos 25 anos do seu festival no ano de 2024. Uma data de particular relevância para nós.
As sugestões para o alargamento do festival a outras ilhas existiam, e surgiu a oportunidade de uma efectivação dessa ideia no âmbito do 25.º aniversário.
O Jazz nas Ilhas, ou Angrajazz 25 anos, designação dada a esta ideia, transpôs o modelo do Jazz na Rua para todas as ilhas, com a realização de 7 concertos com grupos criados a partir de músicos que actuam ou actuaram no nosso conjunto e nele tiveram formação e onde realizam pelo menos um espectáculo.
Estes oito concertos, somados às restantes actividades, somariam um total de 25, realizados durante o ano em que se celebrou o seu 25º aniversário.
Assim, realizaram-se 7 eventos em todas as ilhas, com excepção da Terceira, Flores e Corvo, tendo-se pretendido que os Açores vivessem o seu festival de uma forma intensa e que mesmo os que não vão ao Centro Cultural experimentassem como é que se faz jazz no território.
Em parte, fruto do trabalho de formação levado a cabo, seria uma forma de divulgar e formar públicos e músicos.
O Festival Angrajazz, Jazz nas Ilhas e o Jazz na Rua complementaram-se de forma perfeita, maximizando o seu impacto conjunto e optimizando custos de produção, promovendo uma envolvência da população no evento.
A organização dos espectáculos em cada uma das ilhas teve a participação de municípios e organizações culturais locais, sobre a forma de cooperação, parcerias e co-produção.
Esta iniciativa foi de grande importância para as bandas envolvidas, pela oportunidade de circularem pelas diversas zonas, promovendo o seu trabalho, sempre com a grata recompensa de que houve público interessado, facto constatado na satisfação manifestada nas interacções informais pós-concertos. Não restam dúvidas de que, neste campo, apesar das dificuldades logísticas arquipelágicas, as metas foram plenamente cumpridas.
Participaram, para além do nosso conjunto, as bandas terceirenses “Sónia Pereira Trio”, “Sofia Dutra Trio” e “Wave Jazz Ensemble”.
Quais são os planos que tem para o futuro?
O conceito chave que preside à nossa actividade é a qualidade do seu festival, factor que tem vindo a ser cumprido e comprovado todos os anos em várias instâncias.
Para tal, contamos com o apoio, desde o primeiro momento, da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e dos seus patrocinadores institucionais e privados, sendo que as condicionantes nos apoios da Direcção Regional da Cultura, têm obrigado a uma avaliação exaustiva da viabilidade financeira para que seja possível produzir, ano após ano, um Festival Internacional de Jazz de excelência, com os critérios artísticos habituais definidos.
No entanto, o cartaz para 2026 já se encontra fechado e será oportunamente divulgado, garantido o melhor que se faz a nível nacional e internacional.
Por sua vez, a Orquestra Angrajazz, no decorrer da sua actividade regular, prepara também um repertório temático para a edição de 2026, começando simultaneamente a delinear as actividades para a histórica comemoração do seu 25.º aniversário que ocorrerá em 2027.
Tratando-se de jazz, apenas cumpre à organização proporcionar as condições para que os músicos possam trabalhar e estes tratarão de tornar cada espectáculo único, surpreendente e inovador.
Que mensagem gostaria de deixar à comunidade nesta data?
O jazz valoriza a improvisação e a liberdade criativa, simbolizando a coragem de explorar o desconhecido e de colaborar com outros em harmonia.
As suas raízes estão profundamente ligadas à luta pela liberdade e à resistência contra a opressão. Celebrar este género, para além de uma intensa experiência de fruição musical, é comemorar essa história de superação e afirmação da dignidade humana.
Diogo Simões Pires
