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A epopeia dos açorianos e dos madeirenses no mundo

“Foi Deus que disse a Abrão:
(…) sai da tua terra, da tua
parentela e da casa do teu pai
e vai para a terra que te mostrarei (…)”
Génesis 12:1-5

Açorianos e madeirenses partiram em tantas manhãs sombrias; partiram já carregados de saudades e deixaram para trás as terras onde tantas vezes pronunciaram as palavras mãe e pai, dois pilares sólidos aos quais ficaram ligados para sempre, na distância no tempo e no espaço;partiram à procura de melhores futuros; saíram cheios de coragem, mas com tantas incertezas, porém com uma vontade indomável de vencer! Nas suas mentes povoadas de tantos sonhos e, simultaneamente, albergadas de receios pelo mundo que iriam enfrentar: o desconhecimento das terras, das pessoas, dos idiomas e um misto de sentimentos que os perseguia.
Muitos venceram com êxito; outros, menos afortunados, não se adaptaram com tanta facilidade, mas permaneceram e regaram, com as lágrimas de uma saudade latente, as dificuldades; sacrificaram-se e, por fim, venceram também.
A vida é um desafio constante e isso os que emigravam sabiam: que os caminhos futuros que iriam percorrer não podiam ser para derrotas, mas sim para vitórias.
Os açorianos e os madeirenses, em todas as gerações, demonstraram coragem e um espírito de sacrifício, o que lhes permitiu que transformassem rochas e pedras em terras habitáveis: não temeram nem as tempestades, nem o isolamento.
Evidentemente que esta grande força os fez senhores de novos mundos e, nesses, em muitas das suas esquinas, estão gravadas as suas mãos calosas, motivo de orgulho para os que ficaram nas ilhas: afinal, os nossos irmãos emigrantes são a continuidade das nossas terras nos países onde se encontram; são os nossos sustentáculos num mundo mais vasto, prestigiam-nos com o seu trabalho notável.
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Passaram-se oitenta anos do dia em que a minha mãe explicou o que significava a palavra emigrar e as razões por que as pessoas, alguns dos nossos amigos, emigraram. Nessa ocasião, o meu imaginário povoou-se de mil e uma coisas: como seria viver numa terra diferente? Como seria estar longe da família?
A maioria das pessoas que emigravam não levava as mulheres e os filhos; só mais tarde estes se juntavam ao chefe de família. Mas não tão poucos se afastavam para sempre: necessitando de afetos, constituíam novas famílias nas terras de acolhimento.
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Durante os anos da ditadura, as comunidades de açorianos e madeirenses eram ignoradas. Isto é: ninguém as visitava; nem queriam saber se estavam bem ou mal, se necessitavam ou não de apoios!
Quando os Açores e a Madeira conquistaram as suas autonomias, logo as nossas comunidades ganharam uma atenção especial por parte dos dois Presidentes de então: Dr. Mota Amaral e Dr. Alberto João Jardim, que passaram a visitar as comunidades de emigrantes espalhadas nos diferentes países, auscultando-as nos seus vários problemas, estimulando-as no desenvolvimento dos seus trabalhos, incentivando os mais jovens a estudarem e a intervirem na política dos países onde viviam.
Os emigrantes começaram a sentir-se admirados e apoiados.
Nos governos dos dois Presidentes foram criados centros especiais de apoio aos emigrantes, esclarecendo-os das diferentes situações e,inclusivamente, na possibilidade de investirem nas suas terras de origem, ajudando-as assim a desenvolverem-se mais economicamente.
Uma contribuição importante no processo das autonomias.
Dirigidas por funcionários escolhidos, competentes, com perfis adequados para o relacionamento ideal, a fim de aproximar os nossos compatriotas das regiões.
Os diretores têm, entre outras coisas, uma missão especial: conquistar os emigrantes, levando-lhes a mensagem de uma realidade diferente das suas regiões: mais desenvolvidas, mais atraentes para investimentos e ainda falar-lhes da admiração dos seus compatriotas.
Quem mais ajudou a aproximar as diásporas açorianas e madeirenses
foram, sem dúvida, os Presidentes Mota Amaral e Alberto João, cada um com o seu carisma e poder da palavra, transmitindo-lhes precisamente o que eles há muito desejavam ouvir: estima e admiração, elevando-os pelos seus contributos ao desenvolvimento dos países onde ficaram; dignificando-os como seres humanos; dando-lhes o orgulho de serem açorianos e madeirenses.
Tive a oportunidade de acompanhar o Presidente Alberto João Jardim em algumas das suas visitas às diásporas do Brasil, da Venezuela e da África do Sul; testemunhei a simpatia, a alegria e o entusiasmo com que era recebido por todos, que lhe transmitiam gratidão e carinho.
Ele ouvia com respeito os seus interlocutores, agradecendo-lhes os seus contributos ao desenvolvimento da Madeira.
Manifestavam-lhe o orgulho que sentiam sempre que as altas autoridades dos países visitados lhe falavam dos emigrantes madeirenses como excelentes trabalhadores, profissionais honestos e cumpridores, que ajudavam a enriquecer os seus países.

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Em 1980, muitos dos direitos dos emigrantes não estavam concretizados, o que deu origem às palavras sábias de Sá Carneiro:
“Só podemos sobreviver, só (…) poderemos acreditar em Portugal e no futuro se nos concebermos como Nação que abrange os residentes e não residentes. Todos tratados em igualdade, mas, se a Nação é isso, então como pode o Estado e a Constituição, que é a Constituição da Nação, espartilhar os direitos dos emigrantes!”
A partir destas palavras houve grandes mudanças. Esta afirmação fez refletir os responsáveis pelos direitos dos emigrantes.
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Os madeirenses emigravam no século XVII para o Brasil; para Trinidad e Tobago, em 1896; para a África do Sul, em 1887; para o Havai, em 1853; para Huíla, em 1885; para Fermente; Guayaquil, Toronto, New Bedford, Venezuela, Ilhas do Canal; para todos os cantos do mundo. Uma movimentação humana extraordinária, movida na esperança de melhores futuros.

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Tinham as ilhas desenhadas nos olhos e eram náufragos num mar de saudades.
Considerando e exaltando os emigrantes, o Presidente Alberto João criou no seu Governo a Secretaria de Turismo, Cultura e Emigração.
Tive o privilégio de ser o primeiro Secretário.
Nessas funções visitei, algumas vezes, as comunidades madeirenses.
Das Ilhas do Canal à Austrália vivi cenas de muita alegria e emoção: a ilha estava sempre presente nos meus compatriotas e as suas vozes denunciavam saudades: dos lugares, dos familiares, dos amigos.
Ao abraçá-los, sentia a força de um povo amigo e lutador; gentes de fibra rija em cujas veias corria o mesmo sangue dos nossos antepassados, heróis de um tempo que, enfrentando os impossíveis, os tornaram possíveis para nos legarem uma natureza enriquecida e transformada pelas mãos suadas e calejadas; gigantes que nos honram, tal como aqueles que hoje, nas comunidades madeirense e açoriana, inventam ilhas onde não existem: constroem clubes de convívio, mantêm as tradições; reúnem-se nos dias festivos, conservando um ambiente próprio.
O curioso é que muitos nativos convidados acabam por se “naturalizarem” madeirenses e açorianos.
Encontrar centenas de conterrâneos meus em países tão distintos, ouvi-los na sua eterna saudade, gozar dos seus ambientes familiares,
contactar com uma segunda geração, bem preparada, licenciada em várias áreas, herdeira de um espírito de luta e sabedoria dos pais e dos avós, foi, para mim, uma experiência de vida enriquecedora.
Compreendi-os nos seus sucessos, nos seus sonhos, nas suas tristezas e alegrias; compreendi-os porque os amei; porque, como eles, experimentei a saudade da ausência.
Admiro-os pela sua persistência, tenacidade e força de vontade em vencer; exemplos de vida.
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Pelo Decreto Legislativo n.º 6/84 foi criado o Conselho Permanente das Comunidades Madeirenses, que entrou em vigor no dia 1 de janeiro de 1985.
Esta iniciativa aproximou ainda mais os emigrantes da região através das ações desenvolvidas pelos conselheiros das diferentes comunidades.
Eles reúnem-se anualmente na Madeira e, nessa ocasião, apresentam as questões que os preocupam às autoridades regionais; estas ouvem-nos atentamente e tentam resolver os problemas, sobretudo os respeitantes aos seus direitos, nem sempre considerados.
Portugal prolonga tudo no tempo, justamente por uma burocracia estrangulante e altamente prejudicial para o desenvolvimento do país; uma burocracia que afugenta investidores, inclusivamente emigrantes.
Nos dias que correm, os governos dos Açores e da Madeira têm levado a efeito várias iniciativas, tendo em vista um contacto autêntico e permanente com as suas comunidades, não só para aproximá-las das regiões, mas também exaltá-las nas imensas geografias humanas que as constituem.
Quanto mais forte for a ligação entre as regiões e as suas comunidades de emigrantes, mais benefícios do ponto de vista humano verificar-se-ão.
Hoje ninguém desconhece o papel que as nossas comunidades desempenham no mundo, de quanto, com os seus contributos, permitiram que os países onde ficaram adquirissem mais riqueza, através de uma mão de obra competente, de grandes empresários visionários que construíram impérios, de uma classe de advogados, de professores, de médicos, de engenheiros e de arquitetos que distribuem as suas sabedorias e ensinamentos por sociedades cosmopolitas.
Esta plêiade de trabalhadores, empresários e profissionais de todas as áreas são os rostos das nossas regiões no mundo.
Os emigrantes madeirenses e açorianos, com as suas significativas presenças nos países de acolhimento, verticalidade, trabalho, simpatia, honestidade e espírito fraterno, admirados e respeitados por todos, constituem uma epopeia que honra e eleva-nos como povo atlântico.
Por: João Carlos Abreu

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