Um estudo com participação de investigadores da Universidade dos Açores e do Instituto do Mar identificou um vórtice de água quente e salgada, conhecido como “meddy”, a norte do arquipélago, numa zona do Atlântico Norte onde estes fenómenos são menos comuns. Através de dados recolhidos, os investigadores reconstruíram a trajectória desta estrutura, sugerindo que poderá ter-se formado ao largo da plataforma continental irlandesa. A descoberta contribui para um melhor entendimento da circulação da água mediterrânica no Atlântico e do seu papel no transporte de calor, sal e propriedades biogeoquímicas.
A cerca de 1000 metros abaixo da superfície, no Atlântico Norte, deslocam-se massas de água quente e salgada conhecidas como “meddies” (Mediterranean Water Eddies). Estas estruturas, de forma aproximadamente circular, transportam água com origem no Mar Mediterrâneo e desempenham um papel relevante na redistribuição de calor e sal no oceano.
Recentemente, foi publicado um estudo, resultante da colaboração de investigadores do Instituto OKEANOS da Universidade dos Açores e do Instituto do Mar, bem como da Universidade do Algarve e da Universidade de São Peterburgo (Rússia). Este estudo identificou um Meddy a norte do arquipélago, numa região onde este tipo de fenómeno é menos frequente.
A investigação teve início no Verão de 2012, durante a expedição internacional “NA-VICE”. O navio de investigação “R/V Knorr” partiu de Ponta Delgada com destino a Reykjavik, na Islândia. Embora o objectivo principal da missão fosse estudar processos ligados ao carbono marinho, os sensores a bordo registaram uma anomalia a cerca de 1000 metros de profundidade, na latitude 41.3°N.
Os perfis de CTD (Condutividade, Temperatura e Profundidade) revelaram um núcleo de água com salinidade de 35,55 e temperatura cerca de 2,4°C acima do valor médio da região. Estes dados permitiram confirmar a presença de um “meddy”. As medições de correntes, feitas com um perfilador acústico (ADCP), mostraram ainda uma rotação típica destas estruturas, com circulação anticiclónica em profundidade.
Mas o que são, afinal, os “meddies”?
Estes vórtices formam-se a partir da água que sai do Mar Mediterrâneo através do Estreito de Gibraltar. Devido à elevada salinidade, essa água é mais densa e afunda-se ao entrar no Atlântico. Ao deslocar-se ao longo da margem continental da Península Ibérica, mistura-se com outras massas de água até atingir um equilíbrio por volta dos 1000 metros de profundidade, passando a designar-se por “Água de Saída do Mediterrâneo” (Mediterraean Outflow Water – MOW) .
Parte desta água organiza-se em redemoinhos isolados, os “meddies”, que podem deslocar-se durante anos pelo Atlântico. Estas estruturas são responsáveis por uma parte significativa do transporte de sal do Mediterrâneo para o oceano aberto, contribuindo para a circulação oceânica e para o equilíbrio das propriedades físicas da água.
Uma origem mais a norte
Até agora, a maioria dos “meddies” era associada a regiões como o Golfo de Cádis ou a costa sul de Portugal, onde a água mediterrânica entra no Atlântico e começa o seu percurso. No entanto, neste estudo, os investigadores reconstruiram a trajectória do vórtice usando dados de satélite e de flutuadores oceânicos.
Os resultados indicam que este “meddy” poderá ter-se formado em Agosto de 2009, ao largo da plataforma continental irlandesa. Esta hipótese sugere que a influência da água mediterrânica se estende mais para norte do que se pensava, acompanhando a circulação ao longo da margem europeia.
O “meddy” foi seguido durante cerca de três anos e três meses, tendo percorrido aproximadamente 3300 quilómetros. Durante esse período, deslocou-se lentamente em direção aos Açores, com uma velocidade média de cerca de 3 centímetros por segundo. Em alguns momentos, verificou-se um desacelaramento ao passar sobre estruturas submarinas, como montes submarinos, o que influenciou a sua trajectória.
A reconstrução do percurso foi possível graças à combinação de dados de satélite com medições de um flutuador denominado “Argo”, que permaneceu dentro do “meddy” durante cerca de um ano e oito meses. Este dispositivo registou continuamente as características da água no interior da estrutura, confirmando as anomalias de temperatura e salinidade.
O estudo identificou também a presença de um vórtice ciclónico à superfície, localizado a norte do “meddy”. A análise indica que estas duas estruturas interagiram.
Durante essa interação, parte da água mediterrânica presente no “meddy” foi deslocada e ficou aprisionada sob o ciclone. Este processo poderá contribuir para a dispersão das propriedades transportadas pelos “meddies”, como o calor e o sal, ajudando a redistribuí-las no oceano.
Os investigadores sugerem que este tipo de interação pode ser um dos mecanismos que contribuem para a evolução e eventual dissipação destas estruturas ao longo do tempo.
Impacto e importância
Com base nos dados recolhidos, os cientistas estimaram que este “meddy” transportou cerca de 2,6× 10¹¹ toneladas de sal, bem como um fluxo significativo de calor. Ao longo do seu percurso, estas estruturas influenciam as propriedades físicas e químicas das águas intermédias do Atlântico.
O estudo indica também que o núcleo do “meddy” estava associado a uma zona de menor concentração de oxigénio, o que mostra que estas estruturas transportam não só características físicas, mas também sinais biogeoquímicos importantes.
A possibilidade de formação de “meddies” em latitudes mais elevadas abre novas questões sobre a circulação da água mediterrânica no Atlântico Nordeste.
Para os investigadores, compreender melhor onde e como estes vórtices se formam é essencial para melhorar os modelos de circulação oceânica e, consequentemente, os modelos climáticos.
Além disso, o estudo reforça a importância da combinação de diferentes métodos de observação, como navios de investigação, flutuadores autónomos e dados de satélite, para estudar processos que ocorrem em profundidade e que não são visíveis à superfície.
José Henrique Andrade
