Assinala-se hoje o Dia Mundial da Asma, data que pretende melhorar a prevenção da doença e o nível de consciencialização da população. Ao ‘Correio dos Açores’, Alexandra Carreiro, Directora do Serviço de Pneumologia do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), revelou que a prevalência da patologia nos Açores é semelhante à média nacional, afectando cerca de 7,1% dos adultos e 8,4% dos jovens na Região. A especialista sublinhou ainda que, apesar dos avanços nos tratamentos personalizados para a inflamação brônquica, a baixa literacia em saúde e o clima húmido do arquipélago continuam a ser os principais desafios para evitar crises e garantir a qualidade de vida dos doentes.
Correio dos Açores – Considera importante assinalar esta data? Que impacto tem na literacia em saúde?
Alexandra Carreiro (Directora do Serviço de Pneumologia do HDES) – Sim. Faz todo o sentido assinalarmos o Dia Mundial da Asma, visto que continua a ser uma das doenças respiratórias crónicas mais prevalentes, afectando milhões de pessoas em todo o mundo.
De acordo com o estudo Epi-asthma, que foi um estudo nacional, 7.1% da população adulta portuguesa tem asma e cerca de 3% apresenta-a de forma grave. Contudo, muitos doentes permanecem sub-diagnosticados ou com um mau controlo da doença, o que se traduz num impacto relevante na qualidade de vida.
Assinalar esta data é uma oportunidade para reforçar a literacia em saúde: esclarecer que a asma pode e deve ser controlada, desmistificar o uso da terapêutica inalatória e alertar para os sinais de alarme. É também uma oportunidade para enfatizar a necessidade de melhorar o acesso aos exames complementares de diagnóstico.
Como tem evoluído o tratamento da doença nos últimos anos, em termos de medicação e abordagem crítica?
Nos últimos anos o tratamento mudou bastante e para melhor. A principal evolução foi deixar de tratar apenas os sintomas, como a falta de ar, e passar a controlar a inflamação que está na base da patologia. Deixamos de tratar crises para prevenir de forma contínua e personalizada.
Durante muitos anos, o tratamento baseava-se em inaladores de alívio rápido, como o salbutamol. Hoje sabemos que isso não é o suficiente e até pode ser arriscado. Todos os doentes devem ser tratados com corticoterapia inalada, mesmo nas formas mais ligeiras. O procedimento não é igual para todos, sendo ajustado à gravidade, ao controlo e ao perfil de cada pessoa. Para os que sofrem com asma mais difícil de controlar surgiram terapêuticas inovadoras, a chamada biológica. Esses medicamentos são escolhidos de forma personalizada e melhoram a qualidade de vida de quem sofre com asma grave.
O tratamento é actualmente mais eficaz, pois actua na causa e não apenas nos sintomas. A maioria dos asmáticos pode ter uma vida praticamente normal, com poucas ou nenhumas crises, desde que seja acompanhado e tratado.
Quais são hoje os principais desafios no controlo da patologia, nomeadamente adesão à terapêutica e ao uso correcto de inaladores?
Apesar da evolução no tratamento, o controlo da doença continua a ser um desafio, não pela falta de medicamentos, mas pela forma como são usados no dia a dia.
Um dos maiores desafios é a manutenção da terapêutica, os doentes sentem-se bem e interrompem a medicação. Mas, é uma doença inflamatória crónica, isto é, contínua. Mesmo sem sintomas, a inflamação está presente e a interrupção da terapêutica aumenta o risco de crises. Por outro lado, muitos não utilizam o inalador correctamente, traduzindo-se numa redução da eficácia do tratamento, pelo que a simplificação e o ensino da técnica inalatória são cruciais.
Por vezes, mesmo com a medicação adequada e o seu cumprimento existem factores que dificultam o seu controlo: o tabagismo, as doenças associadas, como a rinite, a obesidade e a apneia obstrutiva do sono, as infecções respiratórias, a exposição a alergénios, entre outros.
A falta de seguimento regular também contribui para a falta de controlo, a asma não é estática e necessita de ajustes terapêuticos ao longo do tempo.
Que dificuldades específicas enfrentam os asmáticos nos Açores no dia-a-dia?
A acessibilidade a consultas especializadas por vezes é difícil, bem como a realização de exames complementares de diagnóstico como o estudo da função respiratória, que é um exame não comparticipado.
A literacia em saúde, muitas vezes presente na população açoriana, também influencia o dia-a-dia dos doentes. Por um lado, proporciona uma má compreensão da condição, uma baixa adesão ao tratamento e uma técnica inalatória incorrecta. As pessoas também apresentam dificuldades em seguir planos médicos, bem como reconhecem as agudizações da doença muito tardiamente.
Assiste-se ainda à desconfiança e ao medo da terapêutica inalatória, o que prejudica a adesão. Contudo, trata-se de um mito.
Nos Açores, o controlo da asma é especialmente desafiante por razões relacionadas com o clima.
Existem períodos do ano ou condições meteorológicas na Região (humidade, variações térmicas, pólen) que agravem as crises?
O nosso clima é marcado por humidade elevada, favorecendo a presença de ácaros e de bolores, o que pode afectar asmáticos. O clima instável, característica dos Açores, também não é benéfico. Na Região a exposição frequente a gramíneas, árvores e a toda a vegetação, também pode actuar como factor desencadeante.
Quais são os principais factores de risco que podem levar ao seu desenvolvimento? E quais são os principais desencadeantes das crises?
A probabilidade de uma pessoa apresentar asma resulta geralmente da combinação de predisposição genética e de factores ambientais. Apresentar história familiar de asma ou de outras doenças alérgicas como a rinite ou o eczema são factores de risco. Pessoas que têm doença alérgica prévia têm maior probabilidade de desenvolver.
A exposição a alergénios e a irritantes ambientais também desempenha um papel importante, por exemplo tabaco. As infecções respiratórias podem contribuir para o aparecimento. A poluição atmosférica, a exposição profissional a poeiras ou químicos e a obesidade também estão associados a um risco maior.
Os desencadeantes das crises variam de pessoa para pessoa. Os mais comuns são alergénios, como o pó, pólen, pelos de animais, bem como as infecções virais, constipações e gripes. Irritantes ambientais, como o fumo do tabaco, a poluição do ar, os perfumes e os produtos de limpeza com cheiros fortes, podem também provocar agravamento dos sintomas. O exercício físico, sobretudo se realizado em ambiente frio e seco, é outro desencadeante frequente. A exposição ao frio pode também precipitar uma crise, tal como emoções intensas, como a ansiedade ou o riso.
A interrupção terapêutica, quando não indicada, pode também ser um factor desencadeante.
É possível prevenir a doença ou, pelo menos, reduzir a frequência das exacerbações? Como?
A asma não pode ser totalmente prevenida na maioria dos casos, principalmente quando existe predisposição familiar. Mas é possível reduzir o risco de aparecimento de sintomas, a frequência e a gravidade das crises.
O essencial é evitar os factores desencadeantes e manter o tratamento indicado pelo médico assistente. A terapêutica inalada reduz a inflamação brônquica e o broncoespasmo, prevenindo crises, mesmo sem sintomas diários. O uso correcto dos inaladores é essencial para garantir a eficácia.
É fundamental evitar o contacto com alergénios domésticos, como os ácaros do pó. Evitar o fumo do tabaco, incluindo o passivo, é essencial.
O controlo das infecções respiratórias também é relevante, pelo que a vacinação contra é recomendada em doentes asmáticos. Manter um estilo de vida saudável, incluindo alimentação equilibrada, actividade física regular e controlo do peso, contribui para um melhor controlo.
Quais são os sinais de alerta que devem levar um doente a procurar cuidados médicos urgentes?
Um dos principais sinais é a dificuldade respiratória, isto é a sensação de falta de ar, com agravamento progressivo apesar da utilização do inalador de SOS. Quando a pessoa fala com dificuldade, não conseguindo completar frases pela falta de ar é um sinal de alerta. A pieira muito intensa também deverá levar a procurar ajuda. Se os lábios ficarem azulados, cianose, é indicativo de falta de oxigénio, o que deverá levar o indivíduo ao serviço de urgência. Em qualquer uma dessas situações não se deve esperar, é importante ir rapidamente ao serviço de urgência.
Qual é o retrato actual nos Açores, prevalência, gravidade, impacto nos serviços de saúde, como no Hospital do Divino Espírito Santo?
Estima-se que a prevalência desta doença nos Açores seja semelhante à média nacional, cerca de 7,1% da população adulta e 8,4% das crianças e adolescentes. Cerca de 3% a 10% destas pessoas apresentam asma grave.
Quando a asma agrava é necessário recorrer ao serviço de urgência. Algumas destas crises exigem internamento. Para além das urgências, implica acompanhamento regular nos cuidados de saúde primários ou consultas de pneumologia. Assim, compreende-se que o seu impacto nos serviços de saúde depende muito do grau de controlo.
No Hospital do Divino Espírito Santo assistimos a idas ao serviço de urgência por asma agudizada, por vezes com necessidade de internamento. Assiste-se a um aumento das crises nas alturas de mudança de estação e no Inverno, associando-se às infecções respiratórias. A doença é um dos maiores motivos de seguimento em consulta de pneumologia hospitalar, particularmente doentes com asma de difícil controlo e grave.
Que mensagem final gostaria de deixar?
Reforço a importância da prevenção, do diagnóstico atempado e do tratamento adequado.
Não desvalorizem sintomas respiratórios, mesmo que ligeiros. É fundamental que a população esteja atenta aos sinais, como a falta de ar, a pieira e a tosse frequente, e que evite factores desencadeantes, como pó, fumo, infecções respiratórias e poluição.
Sabemos que a asma é uma doença crónica, mas com a manutenção do tratamento correcto, pode e deve ser controlada.
Respirar bem é essencial!
Diogo Simões Pires
