A Associação Largo dos Artistas (ALA) assume-se como muito mais do que um projecto extracurricular da Escola Secundária Antero de Quental (ESAQ), afirmando-se como uma plataforma de produção, mediação e partilha cultural no Jardim Mártires da Pátria. Ao ‘Correio dos Açores’, Alexandra Baptista, presidente da direcção, explica que a iniciativa procura “criar continuidade” no território, unindo a prática artística, o pensamento crítico e a participação cívica através da ocupação do espaço público. A responsável reforça que o objectivo passa por transformar a aprendizagem num processo vivido e situado, onde alunos e comunidade se assumem, em conjunto, como “produtores de cultura”. Associação surgiu com o apoio de alunos, professores e encarregados de educação.
Correio dos Açores – Como surgiu a ideia de criar a Associação Largo dos Artistas e que necessidades específicas do Largo Mártires da Pátria queriam colmatar?
Alexandra Baptista (Presidente da Direcção da ALA) – A Associação Largo dos Artistas (ALA) surge num contexto concreto ligado à Escola Secundária Antero de Quental (ESAQ), mas também de uma inquietação partilhada por todos os que com ela colaboram. A escola pública enfrenta dificuldades persistentes na implementação de práticas culturais continuadas, sustentadas e integradas no processo educativo. Não se trata apenas de uma limitação organizativa, mas de uma lacuna estrutural, com impacto directo na forma como os alunos aprendem, se envolvem e se relacionam com o conhecimento.
A ideia começou a ganhar forma com a intenção de produzir um catálogo pop-up, dando corpo a um roteiro do Palácio da Fonte Bela desenvolvido pelos alunos. No entanto, a realidade da escola, marcada por limitações orçamentais e falta de recursos, impediu a sua concretização. Procurou-se candidatar o projecto a financiamento, mas não foram aceites candidaturas em nome da escola, por se tratar de uma instituição pública. Em simultâneo, verificava-se um decréscimo no número de alunos e um agravamento de problemas no espaço público em frente ao estabelecimento de ensino, nomeadamente na zona do Jardim Mártires da Pátria, junto a um quiosque devoluto.
Perante este cenário, e tendo já em funcionamento um ateliê de artes, projecto extracurricular de criação e intervenção artística, foi proposta à Câmara Municipal de Ponta Delgada a ocupação desse quiosque, assumindo o compromisso de desenvolver a programação cultural para a zona.
A intenção era clara: criar uma extensão informal da escola no espaço público. A ALA, e, por consequência, a Oficina do Largo, nascem assim como uma resposta activa, não de desistência, mas de acção. Trata-se de uma iniciativa que procura ligar a escola ao exterior e afirmá-la como um centro cultural vivo, não como metáfora, mas como prática: um espaço onde alunos, parceiros e comunidade em geral podem ser produtores de cultura e, consequentemente, de aprendizagem. Este processo tem sido uma construção progressiva e uma aprendizagem contínua, no sentido de tornar o projecto consistente e sustentável.
Qual diria que é o principal objectivo da ALA?
O principal objectivo da ALA é afirmar a escola pública como agente cultural activo no território. Não apenas como lugar de ensino, mas como espaço informal de produção, mediação e partilha cultural. Procura-se criar continuidade, algo raro no contexto escolar, ligando a prática artística, o pensamento crítico e a participação cívica. No fundo, transformar a aprendizagem num processo vivido, situado e aberto.
Existe também a intenção de activar o Jardim Mártires da Pátria como espaço de encontro, trazendo pessoas ao jardim e criando motivos para a sua permanência e participação. Paralelamente, aposta-se na participação juvenil, promovendo responsabilidade e autonomia, com o desejo de que sejam os próprios jovens a dar continuidade à ideia. Pretende-se ainda envolver aqueles que permanecem longos períodos no espaço público e que não se encontram integrados em contextos formais de educação ou trabalho, criando oportunidades concretas de participação.
Qual é o principal desafio que a associação enfrenta ao tentar conciliar a criação artística com a dinamização de um espaço público tão icónico?
O principal obstáculo reside na conciliação entre a criação artística e a dinamização de um espaço público com dinâmicas próprias. O Jardim Mártires da Pátria é um espaço aberto, frequentado por diferentes públicos, com características específicas que exigem atenção constante. A ALA intervém, através da Oficina do Largo, com propostas que dialogam com esse contexto, sem impor uma lógica formal.
O desafio central consiste em equilibrar a liberdade artística e a responsabilidade pública. A criação exige tempo, experimentação e continuidade e o espaço público exige abertura, negociação e capacidade de adaptação. Esta conciliação implica um exercício permanente de escuta e ajustamento. Apesar da integração de um artista residente, no âmbito do Plano Nacional das Artes, nem sempre é possível assegurar a continuidade desejada, sobretudo devido à limitação de tempo.
A associação é composta por alunos, professores e encarregados de educação, cujos membros acumulam estas funções com as suas responsabilidades profissionais, o que aumenta a carga de trabalho. Acresce ainda a necessidade de procurar financiamento que permita integrar jovens colaboradores, especialmente nas áreas de comunicação e dinamização do espaço.
Como tem sido a recepção dos moradores e dos comerciantes à vossa presença e actividades?
A recepção por parte dos moradores e comerciantes tem sido progressivamente positiva. Inicialmente, verificava-se alguma reserva, mas, com o tempo e a consistência das actividades, foi-se construindo reconhecimento e proximidade. Actualmente, existe diálogo e, em alguns casos, participação directa.
Têm sido desenvolvidas colaborações com diversas instituições, como o Centro Municipal da Cultura de Ponta Delgada, o Museu Carlos Machado, o Centro de Artesanato e Design dos Açores, a Cáritas Açores, a Kairós — Cooperativa de Incubação de Iniciativas de Economia Solidária —, a ACAPO, a Vaga, bem como projectos como o Teatro do Frio, o Novas Rotas ou o Tremor. Muitas destas entidades procuram a Oficina do Largo como espaço de criação e experimentação, atraídas pela sua vocação de acolhimento e inclusão.
A mudança no espaço foi gradual, tornando-o mais atento, mais habitado culturalmente e mais disponível ao encontro. Ainda assim, mantém-se a intenção de alargar a acção, acolhendo mais pessoas e reforçando a dimensão participativa.
De que forma a arte, neste contexto específico da ALA, serve como uma ferramenta de transformação ou coesão social?
Neste contexto, a arte funciona como uma linguagem comum. Cria pontes entre pessoas distintas, reduz distâncias e abre espaço à expressão e à escuta. Um exemplo concreto é o projecto “O Lugar do Amanhã”, desenvolvido com crianças e jovens com acesso limitado à cultura ou com necessidades específicas. Através da criação conjunta, estes participantes apropriaram-se do espaço e das ferramentas, tornando-se autores.
Mais do que produzir transformações imediatas, a arte introduz deslocamentos de percepção, permitindo ver com outros olhos. Esses momentos, ainda que breves, são fundamentais para o desenvolvimento do pensamento crítico, da empatia e do sentimento de pertença.
Quais são os maiores obstáculos que a associação enfrenta para manter a sua programação activa?
Os principais obstáculos enfrentados são de natureza estrutural. Os recursos financeiros são limitados e dependentes de apoios pontuais, o que dificulta o planeamento sustentado. Existem também limitações ao nível do espaço, equipamentos e recursos humanos. Acresce o desafio de conciliar a flexibilidade da criação artística com os enquadramentos institucionais existentes.
Importa ainda referir que os membros da associação não vivem da actividade cultural, o que condiciona a disponibilidade para uma dedicação contínua ao projecto. Gostaríamos de poder contar com apoios mais estruturais, nomeadamente por parte da Secretaria da Educação e Cultura ou da DGArtes. No caso desta última, subsistem dificuldades na compreensão dos mecanismos de acesso e dos processos de candidatura. Para além disso, a escassez de tempo nem sempre permite responder atempadamente às oportunidades de financiamento. Neste sentido, torna-se evidente a necessidade de apoio, tanto ao nível financeiro como no acompanhamento técnico e institucional.
Quais são os próximos grandes objectivos que a ALA tem?
Relativamente ao futuro, o foco está na consolidação da iniciativa. Aguarda-se a concretização de uma obra de ampliação, resultante de uma proposta apresentada ao Orçamento Participativo, que permitirá melhorar as condições do espaço e resolver algumas fragilidades existentes. Pretende-se reforçar a programação, ampliar parcerias e garantir continuidade.
Existe o objectivo de aceder a financiamentos mais estruturais, que permitam maior estabilidade. Um dos eixos centrais passa pela criação de uma oficina gráfica e artística funcional, onde se desenvolvam práticas como gravura, serigrafia, desenho e produção editorial. Paralelamente, pretende-se aprofundar a relação com a comunidade através de projectos participativos e intergeracionais.
Estão em curso iniciativas como o Erasmus “Cidadania ao Largo”, a integração de um artista residente no âmbito do Plano Nacional das Artes, o desenvolvimento do projecto de upcycling “Recria.az_r9”, bem como colaborações com iniciativas culturais regionais e programas ligados a Ponta Delgada — Capital Portuguesa da Cultura 2026.
Neste contexto, destaca-se também a Open Call – Artes Visuais para uma Residência Artística Orientada, intitulada “Abrindo Caminhos, Criando Lugares”. A Oficina do Largo lança esta convocatória dirigida a jovens artistas, açorianos ou residentes nos Açores, com idades entre os 23 e os 35 anos, com interesse nas artes gráficas tradicionais, nomeadamente impressão calcográfica e serigrafia.
Partindo da natureza do lugar, pretende-se que os artistas desenvolvam propostas ancoradas nas problemáticas existentes no Jardim Mártires da Pátria e na sua periferia, criando soluções visuais que serão apresentadas e exibidas, tendo a Oficina do Largo como epicentro. Para além da utilização da Oficina e do próprio jardim onde esta se integra, os artistas serão acompanhados pela equipa curatorial ao longo de todo o processo de criação.
A candidatura pode ser enviada para: ala@esaq.pt, dentro do período de 5 de Maio a 15 de Junho. As respostas e selecções serão divulgadas até 30 de Junho do presente ano. A primeira residência artística acontecerá em Julho e a apresentação dos trabalhos em Agosto.
Que mensagem gostaria de deixar à comunidade?
A mensagem final dirigida à comunidade é clara: a Oficina do Largo é um espaço aberto, em construção contínua, que ganha sentido com a participação das pessoas. A comunidade não é apenas destinatária, mas parte activa do processo. O convite é à aproximação, à participação e à construção conjunta.
A cultura constrói-se de forma partilhada e exige continuidade. Exige também persistência, elemento fundamental para que qualquer projecto se torne consistente e transformador.
Diogo Simões Pires
