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“A NATO tem vindo a reafirmar a importância das linhas estratégicas de comunicação no Atlântico”

Na sequência da entrevista publicada numa edição anterior, centrada na relevância geoestratégica da Base das Lajes e na centralidade do Atlântico, apresentamos agora a segunda parte da conversa com o Senhor Almirante António Silva Ribeiro, antigo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. Nesta continuação, o foco desloca-se para o enquadramento mais amplo do conflito no Médio Oriente, a natureza híbrida das guerras contemporâneas, os riscos de escalada militar e os desafios que este contexto coloca à diplomacia, à segurança internacional e às opções estratégicas de Portugal.

O actual conflito no Médio Oriente revela uma crescente complexidade estratégica, com acções militares de precisão, forte dimensão política e impacto económico global. Na sua perspectiva, que tipo de guerra estamos hoje a observar e quais são os seus principais riscos da escalada?
Almirante António Silva Ribeiro: Estamos perante uma guerra de natureza híbrida e sistémica, que não é apenas um confronto militar clássico entre Estados ou autores armados. O conflito no Médio Oriente é uma guerra em que se cruzam ataques de precisão, ação indirecta por intermediários, pressão sobre rotas energéticas, disputa de narrativas e tentativas de condicionamento diplomático. No dia 10 de abril de 2026, quando respondo à entrevista, coexistem uma trégua frágil entre os Estados Unidos e o Irão, o alargamento da violência ao Líbano e perturbações graves associadas ao estreito de Ormuz, com reflexos imediatos nos mercados energéticos e na economia global. O maior risco de escalada resulta precisamente desta combinação entre elevada capacidade militar, forte carga ideológica e múltiplos centros de decisão, onde um erro de cálculo pode transformar uma crise regional numa crise internacional alargada.

Que elementos deste conflito se distinguem de crises anteriores na Região, nomeadamente no que respeita ao equilíbrio entre dissuasão, do uso da força e a diplomacia?

“O que mais distingue o atual conflito é o desgaste do antigo equilíbrio entre contenção e a escalada. Hoje, a diplomacia, em vez de preceder o uso da força, corre atrás dele. Além disso, a dissuasão tornou-se mais instável, porque já não assenta apenas na ameaça de retaliação entre Estados, mas também na ação de redes armadas, na vulnerabilidade das cadeias logísticas e no impacto quase instantâneo sobre energia, comércio e opinião pública. Isto faz com que o uso da força tenda a produzir efeitos políticos e económicos globais muito mais depressa do que em crises anteriores no Médio Oriente.”

Que lições estratégicas este conflito deixa a Portugal no que se refere ao investimento na defesa, no planeamento militar e na valorização das infra- estruturas- estratégicas?
“A principal lição é que não há estratégia credível sem capacidades concretas. Portugal precisa de investir mais em prontidão, logística, mobilidade, reabastecimento, vigilância marítima e aérea, protecção de infra-estruturas críticas, ciber-defesa e planeamento de contingência. Infraestruturas estratégicas só produzem valor estratégico se forem mantidas, integradas num conceito nacional e articuladas com as necessidades da Aliança. O mundo atual voltou a demonstrar que a geografia conta, mas só conta verdadeiramente quando é acompanhada por uma visão política e com meios adequados. Por isso defendo que o Dispositivo de Forças Nacional deve ser revisto no sentido de reforçar substancialmente as capacidades militares dos três Ramos nos Açores. Se é no Atlântico que estão recursos essenciais ao nosso desenvolvimento, bem como activos estratégicos de valor inigualável que devemos proteger, é nos Açores, em especial na Base das Lajes e no porto da Praia da Vitória, que devem estar permanentemente as nossas principais capacidades aéronavais. Mas também não podemos esquecer as forças terrestres essenciais à defesa sinérgica do território.”

O actual contexto internacional reforça a ideia de que o Atlântico e os Açores em particular voltarão a assumir um papel central na arquitectura de segurança global?
“Sim, reforça claramente, porque: a segurança europeia depende do reforço transatlântico; a economia global depende da liberdade de circulação marítima; a soberania digital depende em grande parte da protecção de cabos submarinos e outras infraestruturas críticas. A NATO tem vindo a reafirmar a importância das linhas estratégicas de comunicação no Atlântico, e Portugal tem razão quando insiste na centralidade do espaço atlântico e do arquipélago dos Açores. Não se trata de nostalgia geopolítica, mas de realidade estratégica contemporânea.”
Esta segunda parte da entrevista evidência um cenário internacional marcado por conflitos híbridos, maior risco de escalada e uma diplomacia cada vez mais pressionada pelos acontecimentos no terreno. A análise do Almirante António Silva Ribeiro sublinha que a instabilidade no Médio Oriente reflete transformações profundas na forma de fazer guerra e gerir a segurança internacional. Num mundo mais interdependente e imprevisível, o Atlântico e os Açores voltam a assumir um papel central, exigindo uma reflexão estratégica sustentada sobre defesa, planeamento e soberania.
Maria de Fátima Pereira

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