Correio dos Açores – Quais são hoje os principais factores que contribuem para o aumento da obesidade na população?
Nuno Velho Cabral (especialista em Nutrição Clínica no Hospital CUF Açores) – O aumento da obesidade na população resulta de uma interacção complexa entre factores ambientais, biológicos e sociais, que permitem que os nossos genes – concebidos para sobrevivermos em condições adversas como escassez de alimento, oscilações de temperatura e um grande gasto energético – estejam a perder uma luta contra o mundo moderno, onde abunda o sedentarismo e os alimentos com excessivas calorias.
A alimentação é, hoje, marcada pelo aumento das porções dos alimentos ingeridos durante as refeições, pelo consumo regular de bebidas açucaradas e pelo abuso na frequência da ingestão de produtos ultraprocessados. Nos factores biológicos, a obesidade pode ser potenciada pela utilização de alguns medicamentos e pela existência de alguns distúrbios hormonais, como o síndrome de cushing ou o hipotiroidismo, e nos factores psicológicos e estilo de vida podemos realçar os níveis elevados de stress e de ansiedade, bem como os efeitos da privação crónica de sono e, ainda, a falta de literacia em saúde ou o custo elevado que uma alimentação saudável pode ter.
Qual a diferença entre excesso de peso e obesidade em termos de riscos para a saúde?
O excesso de peso deve ser encarado como um sinal de alerta, pois, na maioria dos casos, os riscos de desenvolvimento de complicações são apenas ligeiramente superiores aos de uma pessoa no peso ideal. No excesso de peso, com pequenas mudanças no estilo de vida, é perfeitamente possível reverter estes riscos para a saúde na totalidade.
Já a obesidade é uma doença crónica e progressiva, identificada por um elevado nível de acumulação de gordura que, além de provocar uma inflamação crónica no tecido adiposo, aumenta grandemente o risco do desenvolvimento de várias patologias graves.
Quais as doenças crónicas mais frequentemente associadas à obesidade?
A obesidade afecta o organismo de forma sistémica, aumentando significativamente o risco de desenvolver condições como a diabetes tipo 2 e várias patologias respiratórias crónicas, incluindo a apneia do sono, causada pela obstrução das vias respiratórias por acumulação de gordura no pescoço e pela sobrecarga mecânica no tórax (síndrome de hipoventilação da obesidade). As doenças cardiovasculares, que continuam a ser uma das principais causas de morte em Portugal, também são altamente prevalentes na obesidade, elevando o risco de hipertensão, aterosclerose, AVC e enfarte do miocárdio. Adicionalmente, é frequente existir uma forte ligação a doenças hepáticas, problemas articulares severos e um risco consideravelmente maior de desenvolver vários tipos de cancro, como o da mama, do cólon, do fígado ou do pâncreas.
Qual o papel da actividade física no tratamento e prevenção da obesidade?
A prática de exercício favorece o aumento do gasto energético, diminuindo o risco de acumulação de energia ingerida (sob a forma de gordura corporal) e estimula a tonificação muscular. Se, por um lado, o fortalecimento muscular aumenta o suporte de todas as articulações, por outro, é sabido que quanto maior for a percentagem de músculo, mais energia o organismo consegue usar ao longo do dia. A manutenção da mobilidade e a preservação da imagem corporal são determinantes para a prevenção da obesidade. É ainda de referir que quando praticamos actividade física com regularidade, normalmente fazemos menos excepções ao nosso plano alimentar, quer para mantermos o nosso esforço e dedicação, quer por regularmos melhor o nosso apetite. Em suma, o exercício físico combate o sedentarismo, ajuda na gestão do stress e é vital para garantir que o peso perdido se mantém a longo prazo.
Existe também uma relação entre obesidade e problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade?
Sem dúvida. Embora muitos doentes com obesidade prefiram não admitir, na realidade estão apenas a tentar defender-se das verdadeiras agressões que enfrentam diariamente e que inevitavelmente afectam o seu bem-estar psicológico.
As limitações físicas e as dores articulares diminuem a qualidade de vida e reduzem a participação em actividades sociais, criando uma forte vulnerabilidade psicológica. Adicionalmente, o estigma social e a discriminação que ocorrem em vários contextos geram isolamento, baixa auto-estima e insatisfação com a imagem corporal. Cria-se, assim, um ciclo vicioso: a depressão e a ansiedade levam, muitas vezes, a uma alimentação emocional e ao sedentarismo, que agravam o peso. Para dificultar o processo, alguns medicamentos usados na área da saúde mental apresentam efeitos secundários que aumentam o apetite e abrandam o metabolismo.
Quais são as abordagens mais eficazes para o tratamento da obesidade actualmente e até que ponto é necessário um acompanhamento multidisciplinar?
Inevitavelmente, a mudança do estilo de vida do doente obeso constitui a base para o seu tratamento. Refiro-me à indubitável importância de alcançar o maior equilíbrio possível entre três pilares fundamentais: a alimentação, a actividade física e a qualidade do sono.
Actualmente, o processo de reeducação alimentar traduz-se numa terapia nutricional verdadeiramente personalizada, afastada de restrições alimentares exageradas e focada no aumento da densidade nutricional da alimentação diária. No entanto, com a enorme evolução que o tratamento da obesidade sofreu nos últimos anos, já só se trata esta doença com uma abordagem médica multidisciplinar e verdadeiramente personalizada, adaptando a abordagem terapêutica à gravidade da doença e às necessidades de cada doente.
Ainda que a alteração do estilo de vida seja a base para o sucesso, além do processo de reeducação alimentar, da estruturação de um plano de actividade física e da manutenção de uma boa higiene do sono (para reduzir os níveis do cortisol e estabilizar a hormonas responsáveis pelo apetite – leptina e grelina), o doente obeso necessita de um acompanhamento psicológico/comportamental, muitas vezes de terapêutica medicamentosa (prescrita pelo endocrinologista e/ou pelo psiquiatra), pode precisar de procedimentos endoscópicos (como o sleeve gástrico ou bypass gástrico) ou até mesmo de cirurgia bariátrica e metabólica.
Existem casos em que a medicação ou cirurgia bariátrica são recomendadas. Em que situações?
Os critérios clínicos são rigorosos e baseiam-se no Índice de Massa Corporal (IMC) e na presença de doenças associadas. Quando a mudança de estilo de vida não surte efeito após um máximo de seis meses, ponderam-se outras vias. A medicação é recomendada para ajudar a controlar o apetite em pessoas com IMC igual ou superior a 30, ou superior a 27 com comorbilidades associadas, bem como em casos de insucesso repetido no emagrecimento. Já a cirurgia bariátrica está indicada para casos de obesidade mais graves (como um IMC superior a 40), onde o risco de manter o peso supera o risco cirúrgico. Importa sublinhar que a cirurgia exige um parecer psicológico favorável e um compromisso para a vida, assumindo-se como uma ferramenta de excelência, mas não como uma cura isolada.
Quais os maiores desafios no acompanhamento nutricional destes doentes?
O grande desafio é aplicar uma metodologia de motivação contínua, reforçando que o processo é possível e ajudando o doente a gerir expectativas, afastando o desejo ilusório de resultados imediatos. Convencer a pessoa a manter a consistência, tirando o foco exclusivo do número na balança, requer muita empatia. É preciso ensinar o doente a aceitar que o emagrecimento tem ritmos diferentes e pequenos retrocessos, desconstruindo a culpa associada a falhas pontuais. Do ponto de vista institucional, a articulação atempada e eficiente de toda a equipa multidisciplinar é também um desafio exigente, mas absolutamente vital para honrarmos o compromisso clínico com o doente.
Qual a importância da educação alimentar desde a infância?
Investirmos em educação alimentar na infância é, sem dúvida, permitirmos o crescimento de crianças saudáveis que terão oportunidade de se tornarem adultos saudáveis no futuro. Ou seja, trata-se de trabalhar activamente, desde muito cedo, na prevenção precoce dos problemas de saúde que afectam a maioria da população adulta actual.
A janela de oportunidade mais crítica para a formação do comportamento alimentar é, precisamente, a infância. Não nos podemos esquecer que é muito mais fácil ensinar um hábito saudável desde cedo do que tentar reverter rotinas nocivas na idade adulta. Na infância, nutrientes de qualidade são imperativos para o desenvolvimento cognitivo e ósseo e é fundamental envolver as crianças em todo o ciclo: levá-las às compras, deixá-las ajudar na cozinha e, acima de tudo, liderar pelo exemplo, lembrando sempre que a comida nunca deve ser usada como prémio ou castigo.
Como se pode combater o estigma social associado à obesidade?
Combater o estigma da obesidade não significa fazer uma promoção da obesidade ou ignorar todos os seus riscos para a saúde. A ciência já demonstrou que o estigma e a humilhação provocam isolamento, stress e compulsão alimentar, piorando a obesidade. Portanto, a ferramenta terapêutica mais poderosa que a sociedade pode oferecer é tratar as pessoas com dignidade, respeito e validação biológica.
Existem particularidades na alimentação ou estilo de vida dos açorianos que possam influenciar a prevalência de obesidade?
Sim, existem. Na nossa Região, verificamos um elevado consumo de hidratos de carbono refinados e açúcares, muito presente no pão branco, nos bolos lêvedos e na massa sovada, por exemplo. A isto, junta-se uma forte ingestão de lacticínios com açúcares ocultos, uma preferência por carnes gordas e um défice preocupante no consumo de hortícolas e fruta. Ao nível do estilo de vida, o clima instável propicia o isolamento em casa e afasta a população do exercício físico estruturado, havendo também uma grande dependência automóvel.
Por fim, não podemos fechar os olhos às condicionantes socioeconómicas: os Açores enfrentam taxas de pobreza e menores índices de escolaridade que dificultam a literacia em saúde e a adopção sustentada de hábitos saudáveis. José Henrique Andrade
