A Vila de Rabo de Peixe volta a encher-se de tradição para celebrar uma das suas manifestações culturais e religiosas mais profundas: as festas em honra do Divino Espírito Santo. Este ano, Manuel Moniz, juntamente com Lucélia Vieira, assumiram a importante função de mordomos da Bandeira da Beneficência da zona.
O casal recebeu a responsabilidade de guiar as festividades, cuidar do Quarto do Espírito Santo e organizar as tradicionais festas, mantendo viva a enorme dinâmica religiosa e cultural para o povo.
Manuel Moniz lidera a fé e
tradição em Rabo de Peixe
Para Manuel Moniz, a mordomia das Festas do Divino Espírito Santo de 2026 ultrapassa a responsabilidade logística, representa a concretização de um sonho de infância. Criado no seio destas festividades açorianas, o actual mordomo sempre possuiu o desejo de seguir as pisadas familiares: “Fui criado nestas festas e um dia sonhei fazê-la como fez o meu pai”, confessou.
Agora que esse momento chegou, o responsável descreve a experiência de acolher o Espírito Santo na sua própria casa como um acto de entrega absoluta. Para o próprio, o processo foi muito além de o deixar entrar na sua residência, significou “abrir o coração e sentir o cheiro do sagrado Espírito Santo a encher a minha casa”.
Apesar de reconhecer que cada dia traz a sua própria batalha, o organizador encara cada semana superada como uma autêntica bênção, demonstrando uma profunda gratidão a Deus por tudo o que tem sido proporcionado à sua família.
Bandeira angariou
cerca de 2000 pensões
O grande motor das festividades é também a generosidade dos criadores locais e dos benfeitores. O mordomo explica que, embora a comissão vá adquirindo algumas cabeças de gado ao longo do ano, a esmagadora maioria resulta de doações. Dos 70 animais que integraram as festas, 60 foram doados pela comunidade e criados nos pastos locais, onde foram alimentados “com muito amor e carinho”.
Esta forte adesão permitiu estruturar as pensões de criador de gado e de benemérito, geradas consoante “os valores e o que cada pessoa pode oferecer ao Sagrado Espírito Santo”.
O empenho colectivo resultou num número expressivo para a edição deste ano. “Temos cerca de 2000 pensões e aproveito desde já para agradecer a todos os criadores e benfeitores”, sublinhou o entrevistado.
“Meus amigos, não deixem as nossas tradições acabarem”, concluiu o mordomo Manuel Moniz, deixando uma mensagem de esperança para o futuro: “Deixem que o Espírito Santo inunde o vosso lar e a vossa família, e lembrem-se sempre: quando Deus entra, tudo muda”.
Organização não enfrentou
obstáculos na preparação das festas
A coordenação de um evento com esta envergadura na Vila exige um trabalho minucioso, partilhado este ano entre o mordomo e o roleiro. O balanço final não podia ser mais positivo, não se tendo registado qualquer obstáculo ao longo de toda a organização.
“Este ano não houve novidades, foi tudo feito como sonhado e realizado em 2026”, afirma o mordomo, destacando o ambiente de convívio que se viveu logo nos preparativos, nomeadamente quando se conseguiu “reunir os 70 animais num pasto com porco no espeto e grandes amigos à volta”.
O responsável fez ainda questão de enaltecer o apoio de toda a comunidade: “Não houve quaisquer constrangimentos. Apesar de ser uma festa com uma dimensão muito elevada, tivemos tantas mãos a ajudar-nos que correu tudo como sonhado”.
“Deus é amor” é o tema
do quarto do Espírito Santo
A beleza e o simbolismo que envolvem estas festividades passam, em grande parte, pelas mãos e pela sensibilidade de Renato Moniz, membro activo da comissão de festa, que explicou que a sua ligação a esta tradição começou há 26 anos, tendo inclusive assumido o papel de mordomo em 2004. Hoje, alia a sua experiência de fé à sua actividade profissional como decorador para produzir um dos espaços mais sagrados da ocasião: o quarto do Espírito Santo.
O processo de criação deste espaço nasce sempre de uma profunda partilha com quem acolhe a festa. “Em primeiro lugar nós tentamos perceber com o que é que se identificam os mordomos”, explica o profissional, referindo que a equipa procura saber se a mordomia tem alguma ideia ou um tema específico e, a partir daí, desenvolvem o conceito.
Para a edição de 2026, o tema escolhido para guiar a decoração foi “Deus é Amor”. Longe de ser uma escolha aleatória, a ideia carrega uma forte carga emocional, inspirada nas palavras da própria família. “O tema surgiu de uma conversa que tivemos com a mordoma, em que ela disse que ‘não abri só a porta da minha casa ao Espírito Santo, mas também a do meu coração’”, revelou o entrevistado.
Segundo o próprio, a zona da residência encontra-se decorada com um coração feito em flores, simbolizando a devoção e a fé. As flores carregam o peso da harmonia, da renovação espiritual e a pureza do amor de Deus.
No centro do coração está a Bandeira da Beneficência, insígnia do Divino Espírito Santo, que conta com paredes que foram decoradas com várias pétalas de rosas brancas, que simbolizam as graças, dádivas, dons e virtudes.
Quanto aos arranjos, o decorador revelou que estes simbolizam a dedicação, a reverência e o cuidado para com o sagrado. O chão encontra-se também enfeitado com as mesmas pétalas das paredes, mas aqui pretendem encarnar a pureza da nossa alma, a inocência e o solo sagrado.
Para o membro da comissão, assumir a responsabilidade por este espaço icónico provoca um sentimento difícil de traduzir em palavras: “Eu não sei explicar, isto é simplesmente uma coisa que fazemos. Está relacionado com os nossos antepassados e com o facto de termos sido criados nestas festas”, confessa, assumindo que é “uma honra e um orgulho”.
Essa dedicação espelha-se no rigor que a própria vila exige para esta divisão da casa: “Rabo de Peixe dá muito valor ao quarto. Costumo dizer que os mordomos não têm limite para o quarto do Divino Espírito Santo, porque é o único espaço que é preparado para Ele”, conclui o decorador.
Diogo Simões Pires
