A Universidade dos Açores realizou uma sessão aberta à comunidade para a audição pública da candidata única a Reitora, Susana Mira Leal.
Na Aula Magna, a actual Reitora, que se candidata ao mandato 2026/2030, abordou alguns dos pontos centrais para o futuro da instituição.
Susana Mira Leal começou por salientar que encara um novo mandato com o mesmo “sentido de entrega e ambição que esteve subjacente ao nosso trabalho e ao nosso projecto”, destacando também “a capacidade de persistência e de execução” demonstrada ao longo dos últimos anos.
Para a académica, apesar de a Universidade partilhar missões e objectivos comuns ao ensino superior nacional e europeu, existe uma “responsabilidade singular” associada à realidade açoriana. Essa missão passa por “contribuir para a qualidade, a equidade e o impacto do trabalho” desenvolvido ao nível da qualificação e da investigação, num território com características muito próprias: descontínuo em relação ao continente e dentro de si mesmo, ultraperiférico e assente numa universidade tripolar.
“Este programa assume um princípio: é um programa de continuidade e de aprofundamento. Parte do reconhecimento de que há trabalho feito ao longo dos últimos anos que precisa de ser consolidado, aprofundado e acelerado, garantindo estabilidade, qualidade e continuidade, mas também reconhecendo que é preciso ir mais longe, com mais ambição, mais eficiência e maior impacto”, reforçou a candidata.
As linhas orientadoras do
“Programa de Acção 2026-2030”
A Reitora da Universidade dos Açores começou por apresentar as linhas orientadoras e as principais medidas constantes do “Programa de Acção 2026-2030”.
A área apontada como prioritária é o ensino, actualmente confrontado com “desafios muito concretos”, como o Inverno demográfico, a diminuição do número de jovens a ingressar no ensino superior e a quebra acentuada da procura.
A estas dificuldades junta-se a descontinuidade territorial. O facto de o arquipélago ser composto por nove ilhas faz com que, apesar da existência de três polos universitários, a instituição ainda não consiga chegar de forma plenamente eficaz a todo o território regional.
Neste contexto, Susana Mira Leal defende um investimento estrutural na criação de um plano institucional de inovação pedagógica, ensino digital e formação à distância e híbrida. O objectivo passa por garantir “coerência e coesão”, chegando a alunos de diferentes ilhas e faixas etárias, e apresentando resultados concretos nesta área.
A estratégia inclui também a aposta em ofertas formativas novas e diferenciadoras, em sectores considerados fundamentais para o desenvolvimento da Região e onde a Universidade “tem potencial e tem de investir necessariamente”, nomeadamente nas áreas da Saúde, Ciências Veterinárias, Biotecnologia e Engenharia.
Outro dos focos passa pela aposta no ensino e na formação de curta duração, em formatos mais flexíveis e adaptados às necessidades actuais.
Entre as prioridades está ainda o reforço da ligação entre a academia e o tecido empresarial, através de estruturas como a Incubadora de Empresas da UAc.
A recandidata considera igualmente essencial promover uma maior participação dos estudantes na reflexão sobre os destinos, projectos e ofertas formativas da Universidade. Na sua visão, esse envolvimento permite trazer contributos e experiência para a instituição, ao mesmo tempo que transforma os alunos em “verdadeiros embaixadores da Universidade” nos sectores empresariais e públicos onde actuam ou possam actuar.
“A nossa imagem tem de
ser aprofundada e melhorada”
A académica manifestou preocupação com a necessidade de criar um plano de comunicação institucional mais estruturado, defendendo que a imagem da Universidade deve ser “aprofundada e melhorada”.
“A área da comunicação é uma área cheia de solicitações e em permanente actualização. Cada ano é um ciclo novo e isso sobrecarrega muito a nossa capacidade de planear com antecedência, de forma estruturada e com objectivos concretos, parte da nossa comunicação”, explicou.
O reforço e a reorganização desta área surgem com o objectivo de dar maior visibilidade às competências, valências e oportunidades da instituição, bem como à produção científica desenvolvida pela UAc.
No plano da internacionalização, Susana Mira Leal recordou a integração da Universidade numa aliança europeia, em 2024, sublinhando os resultados positivos já alcançados, sobretudo ao nível da investigação. Ainda assim, considera essencial avançar com cursos conjuntos capazes de atrair mais estudantes estrangeiros, assim como apostar em formações de curta duração que permitam potenciar competências complementares entre a Universidade dos Açores e outras instituições.
“Não basta atrair estudantes: importa também garantir que se sentem bem”
“Não basta recrutar e atrair estudantes para a nossa casa. Importa também garantir que têm sucesso, que se sentem bem, acolhidos, incluídos, valorizados e participantes desta comunidade vibrante”.
Foi neste contexto que Susana Mira Leal destacou a criação do Gabinete de Saúde e Bem-Estar como um “passo substantivo” para responder às “necessidades crescentes de apoio” aos estudantes, particularmente nas áreas da saúde e da saúde mental.
“Sem saúde, sem qualidade de vida e sem bem-estar, os estudantes não conseguem ser tão bem-sucedidos. Precisamos de combater o abandono escolar, a ansiedade e as dependências”, defendeu.
Outro dos grandes desafios identificados passa pelo rejuvenescimento e pela atracção de talento para a Universidade. Segundo a recandidata, o programa apresentado aposta numa abordagem centrada no ciclo de vida dos profissionais, abrangendo todas as fases do percurso na instituição: do recrutamento e integração à valorização da carreira, reconhecimento do mérito e capacitação contínua dos diferentes corpos da Universidade, incluindo técnicos, investigadores e docentes.
Neste âmbito, o foco está “no planeamento e na antecipação”. Susana Mira Leal reconheceu, contudo, que as limitações financeiras têm condicionado a capacidade de contratar novos recursos humanos atempadamente.
“Isso sobrecarrega naturalmente os docentes que já estão na casa, dificulta o funcionamento da instituição e limita a nossa capacidade de resposta”, frisou.
“A atractividade da instituição passa pelas condições físicas e digitais”
Segundo a Reitora, a atractividade da Universidade dos Açores depende igualmente das suas condições físicas e digitais. Entre os principais desafios identificados estão a recuperação do edificado, a sustentabilidade ambiental e o reforço da segurança da instituição. Ainda assim, reconhece que os recursos disponíveis “não permitiram que fôssemos mais longe”.
Apesar dessas limitações, Susana Mira Leal garantiu que estão previstas intervenções concretas nos três campus universitários, recorrendo quer a financiamento do Orçamento do Estado, quer a candidaturas a fundos específicos destinados ao investimento.
A descarbonização, a transição energética e o planeamento da segurança surgem também como metas definidas para os próximos anos.
A recandidata sublinha de igual forma a necessidade de “reduzir a burocracia e libertar tempo”.
“O aumento do volume de trabalho dos nossos serviços, fruto também do crescimento da actividade de investigação e dos múltiplos projectos em que estamos envolvidos, trouxe uma maior sobrecarga sobre os recursos humanos que temos”, afirmou.
Nesse sentido, considera fundamental que os técnicos tenham “capacidade e disponibilidade para se dedicarem às funções e actividades que verdadeiramente precisam deles”. Para isso, defende a adopção de novas tecnologias, incluindo assistentes virtuais e soluções de inteligência artificial, para automatizar tarefas mais repetitivas e administrativas.
“Temos de diversificar as receitas
com mais serviços à comunidade”
Para captar novos públicos e aumentar a capacidade de gerar receitas próprias, Susana Mira Leal considera necessário “diversificar as nossas receitas com mais serviços à comunidade, com a expansão da nossa estratégia de ensino e com a flexibilização do ensino à distância”.
A isto junta-se ainda a valorização do conhecimento produzido na Universidade, através da monetização de patentes e da captação de investimento para a investigação, numa linha de crescimento que, segundo a Reitora, já tem vindo a ser consolidada.
Relativamente à relação com a República, Susana Mira Leal revelou que está em fase de preparação um contrato-programa com o Governo da República para a construção do Hospital Universitário. Adiantou também que já foram submetidas várias candidaturas ao PRR para alavancar projectos específicos em diferentes áreas.
“Esperemos que tenham bom acolhimento. Temos também de continuar a trabalhar para garantir uma compensação estrutural dos custos de insularidade da Universidade”, declarou.
Recorde-se que o Governo da República assumiu igualmente o compromisso de aumentar em 10% o financiamento destinado às Universidades dos Açores e da Madeira já no próximo ano.
Metas em números
Na apresentação projectada na Aula Magna da Universidade dos Açores, Susana Mira Leal apresentou vários indicadores e metas que pretende alcançar até 2030.
Ao nível das receitas e financiamento, o objectivo passa por um aumento de 20% no financiamento competitivo obtido, um crescimento de 20% nas receitas próprias de Investigação e Desenvolvimento (I&D) e o mapeamento de 140 projectos através da InUAc.
Na área da comunicação e internacionalização, a meta definida é aumentar em 50% o número de estudantes internacionais e reforçar em igual percentagem o alcance da Universidade nas redes sociais.
No sucesso académico e saúde mental, pretende-se reduzir em 25% a taxa de abandono escolar e aumentar em 15% as taxas de aprovação nas unidades curriculares.
Relativamente aos recursos humanos, a Universidade pretende diminuir em 20% o tempo médio de tramitação de concursos, garantir formação contínua anual para cerca de 75% dos trabalhadores e assegurar que 60% dos docentes tenham formação pedagógica com cerca de 20 horas.
Na área da energia e segurança, os objectivos passam por reduzir em 30% o consumo energético face a 2025 e alcançar 100% de conformidade legal em matéria de segurança e protecção de dados.
Por fim, ao nível dos serviços internos da academia, as metas incluem uma redução de 30% no tempo médio de resposta, a automatização de cerca de 50% dos processos de rotina e a formação de 80% dos colaboradores em competências digitais e inteligência artificial.
José Henrique Andrade
