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Estranhas levezas do ser

Diria que estamos numa crise de identidade, qual adolescência tardia num regime autonómico que carrega 50 anos de vida constitucional, mas ainda sem maturidade de um rumo certo e em velocidade controlada.
Estranhas levezas do ser quando ainda não se o é; e posto à prova pelas polémicas associadas a quase tudo o que ainda não nos une, e que teima em nos desunir ainda mais.
Chamam-lhe bairrismos, rótulo mais fácil para queimar argumentos e pessoas e mais difícil de ultrapassar na refrega de conflitos de interesses. Não é o bairrismo identitário, socialmente e culturalmente saudável, mas capelinhas de interesses, ocultos ou descarados, usando o populismo para confundir e gerar reações imediatas entre comunidades.
Lembrei-me de Bentham (político séc XIX) que considerava uma falácia o fato de se defender que algo podia ser bom na teoria, mas mau na prática, precisamente porque se algo mau ocorre na prática é porque existe algo de errado na teoria. E assim se comentam práticas erradas porque as teorias não são boas.
Discutem-se práticas erradas para a saúde ou a falta dela, para a pobreza e sua abundância, para os transportes e a falta deles, para a conetividade e a comunicação inexistente, para a dependência externa e a subsidiariedade e para a existência insular harmónica, mas inevitavelmente assimétrica; em confirmações tendenciosas porque insiste-se em defender convicções que nem se baseiam em boas teorias, nem darão boas práticas.
O caso da polémica sobre a dimensão e caracterização do HDES, é um caso paradigmático de teorias que a se concretizarem darão más praticas, que o mesmo será dizer maus resultados para a comunidade de referência e para um todo regional que se quer coeso, articulado, esclarecido e fundamentalmente acessível aos cuidados de saúde.
Estranhamente, quando se fala da necessidade de construção de um hospital do futuro em S. Miguel, uma vez que se decidiu plano de reestruturação para o HDES, ninguém fala de criação de Centros de Saúde do futuro para as ilhas sem hospital, em Medicina Familiar do futuro nas USI, numa organização do futuro para a carta hospitalar regional. Fala-se de megalomanias, de centralismos, de extorquia de competências, de desvalorização do potencial técnico e humano existente, agridem-se Instituições e Organizações de Classe, e inventam-se catástrofes e cataclismos de que parece que não há história factual e planos de emergência regionais para o efeito.
A evolução dos três hospitais da RAA tem uma história e tem metas bem definidas em função da planificação das ações necessárias para resposta adequada, mas existem problemas de articulação e de comunicação que só a existência de uma carta hospitalar bem definida e a digitalização de toda a informação clínica numa mesma linguagem, pode resolver. A falta de comunicação/articulação entre hospitais regionais foi e continua a ser o calcanhar de Aquiles do Sistema.
Todas as invocadas teorias da redundância e da complementaridade falham na prática porque os obstáculos ilhéus são bidirecionais e a dimensão populacional e os custos associados impõem a criação de centros de diferenciação muito específicos localizados onde a prevalência de patologias será maior por haver mais população; e para onde for mais fácil a referenciação, sabendo-se que estes centros devem articular-se no apoio por telemedicina e suporte contínuo para as decisões clínicas urgentes ou emergentes.
Estranha-se que no seio da classe médica, haja quem pense em modo capelista, descredibilizando até pareceres da OM que só pecam por tardios e cautelosos demais.
Questionam-se uns aos outros, em vez de questionarem quem tem o dever de planificar, e de nos informar quando e como será o Serviço Regional do Futuro a que todos temos direito, mas que infelizmente ainda nem todos temos acesso.
Por: Dionisio Faria e Maia

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