O Grupo Parlamentar do PS/Açores submeteu um requerimento à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), questionando o Governo Regional sobre a falta de areia nas ilhas do Pico, Faial e Graciosa, o que apresenta ser um grave transtorno à construção civil e à economia local.
Segundo o documento emitido no mês passado, os socialistas assumem que a areia é uma matéria-prima indispensável, sendo o pilar base das obras públicas e privadas: “Sem areia não há construção, não há reabilitação, não há investimento, não há desenvolvimento”, destacou o partido.
De acordo com o PS, as três ilhas encaram um momento preocupante devido à falta de um fornecimento regular e fiável nos últimos meses, o que tem motivado um aumento das queixas por parte dos empresários do ramo.
“A continuidade desta situação coloca em causa a sobrevivência de várias empresas de construção, muitas delas de pequena e média dimensão, que empregam trabalhadores locais e são pilares fundamentais das economias destas ilhas”, explicou o grupo parlamentar.
“A ausência de fornecimento continuo implica um risco claro e iminente: obras paradas, trabalhadores sem ocupação, contratos incumpridos e prejuízos económicos significativos”, concluíram os socialistas.
Sendo assim, o Grupo PS/Açores apresentou um conjunto de questões ao Governo Regional, procurando saber se o Governo dos Açores tem conhecimento desta falta de material, se já foram tomadas medidas para solucionar o problema e quais as soluções estruturais é que o executivo pretende implementar para assegurar, de forma contínua, regular e sustentável, o fornecimento às ilhas referidas.
Fornecimento de areia foi afectado
devido à manutenção da draga
Em resposta ao requerimento, divulgada no início deste mês, o Governo dos Açores revelou ter conhecimento de “alguns constrangimentos no abastecimento de areia” e explicou que os problemas relatados estão directamente relacionados com a imobilização da draga “Coral da Horta”. A embarcação, que garante o fornecimento dos territórios centrais, encontra-se actualmente nos estaleiros da Naval Canal, no Pico.
“A intervenção em curso, devido à sua complexidade, ultrapassou significativamente o prazo inicialmente previsto, estimado em cerca de dois meses, estando prevista a conclusão dos trabalhos no final do corrente mês de Maio de 2026”, revelou o executivo.
Para mitigar o problema, o Governo Regional informou que foram articuladas acções junto de armadores, estaleiros e da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas dos Açores (AICOPA). Como medida de excepção, o estaleiro responsável reforçou os seus quadros técnicos para acelerar a conclusão dos trabalhos, prevendo-se a reentrada da embarcação ao serviço no decorrer da próxima semana.
O executivo açoriano lembrou ainda que a extracção e o fornecimento de areia são práticas desenvolvidas pelo sector privado, mas assegurou que acompanha a matéria com particular atenção para promover condições que garantam um abastecimento mais “regular, contínuo e resiliente”.
AICOPA reforça que a falta
de areia tem sido impactante
A Presidente da Direcção da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas dos Açores (AICOPA), Alexandra Bragança, confirmou em entrevista ao ‘Correio dos Açores’ que o impacto da falta de areia tem sido real, sobretudo no ritmo de execução das obras, nos custos e no risco de incumprimento de prazos.
“A escassez de areia é uma condicionante estrutural da actividade da construção, com efeitos imediatos na continuidade das empreitadas, tendo-se registado, no mínimo, uma desaceleração na execução dos trabalhos, uma vez que é um material essencial para a produção de betão e de argamassas”, explicou a responsável.
A responsável explicou que as empresas tentam evitar atrasos, principalmente em projectos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). No entanto, o impacto é mais acentuado nas ilhas do Triângulo devido à fragilidade logística marítima, à ausência de stocks estratégicos, dependência de equipamentos específicos para extracção e da menor diversificação de fornecedores, sendo algo que “gera forçosamente pressão cronogramas e equipas e um risco de derrapagens nos prazos do PRR”.
Para a Presidente da AICOPA, as medidas aplicadas até ao momento têm sido meramente “reactivas e de curto prazo, centradas em garantir o abastecimento mínimo e evitar atrasos significativos”.
A associação propõe assim existir uma maior diversificação de operadores, licenciando-se mais empresas para extracção e distribuição, deve-se reforçar a logística marítima de modo a permitir o transporte de areia inter-ilhas e é necessário ainda melhorar a gestão de stocks criando reservas estratégicas locais, evitando roturas súbitas.
Período pós PRR pode gerar
uma “quebra abrupta” no sector
“Mesmo com cerca de 10 mil trabalhadores, nível máximo desde 2012, continua a ser insuficiente para fazer face à procura, para além do problema da menor qualificação média da mão de obra existente, o que tem gerado menor produtividade, logo, obras com ritmo de execução inferior ao necessário”, afirmou Alexandra Bragança, acrescentando que apesar do sector registar actualmente um nível máximo de emprego, a responsável partilhou a sua preocupação com o futuro da construção na Região após o término do PRR.
A responsável refere que “neste momento o estado da construção civil nos Açores pode ser resumido como um sector em forte actividade e com elevado volume de investimento, mas simultaneamente sob grande pressão estrutural (mão de obra, materiais, prazos e capacidade de resposta)”, adicionando que a aposta assistida no ramo se deve, sobretudo, ao PRR e ao Açores 2030.
Segundo a dirigente, o volume de concursos públicos lançados em 2026 encontra-se muito abaixo dos níveis registados nos últimos seis anos, apresentando uma queda de cerca de 68% em comparação com o valor de 2020, época pré PRR.
“Existe um sério risco de ‘quebra abrupta de actividade’ no sector caso a Região não adopte uma estratégia robusta de investimento”, sublinhou, concluindo que a Região não se pode dar ao luxo de perder capacidade de execução numa altura em que persistem desafios estruturais na habitação, saúde, ensino e acessibilidades.
Diogo Simões Pires
