(a propósito da realização do IX colóquio “O Faial e a Periferia Açoriana (séculos XV a XX)”, Horta, 2 a 5 de novembro de 2026)
Nos Açores de hoje, acerca da História e dos saberes com ela correlacionados, este é o encontro científico mais antigo e mais prolífico. E tudo radica na renovação da historiografia açoriana, herdada do último quartel do século XX, fruto da criação da Universidade dos Açores e do surgimento e da revitalização de serviços regionais de cultura.
Nunca é demais repetir que, contra os chavões do politicamente correto, este colóquio não prima propriamente pela inclusão, distinguindo-se antes pela exclusão. Uma exclusão de quê? Das ilhas Terceira e S. Miguel, tradicionalmente mais favorecidas pela investigação histórica, um facto traduzido num acrescido conhecimento. Uma exclusão para quê? Para benefício de um melhor entendimento das ilhas periféricas de per si e do arquipélago no seu conjunto. Por outras palavras, quer isto significar que temos o dever da reconstituição do antigamente de todas as nossas ilhas, das mais centrais às mais periféricas, por ser indispensável na composição do caleidoscópio açoriano. No entanto, a averiguação da historiografia insular demonstra precisamente o contrário, isto é, o privilégio de umas poucas, em prejuízo de muitas mais, que agora demandam e justificam uma discriminação positiva, para a obtenção de uma maior equidade, traduzível na aproximação a uma maior verdade, o objetivo único de todas as ciências.
E, ao cabo de um percurso de mais de 30 anos, os resultados são muito positivos, decorrentes da realização de 8 colóquios, vertidos na publicação de 8 volumes de atas, com quase 6000 páginas, perto de 300 comunicações e mais de uma quinzena de conferências. Neste contexto, o conhecimento histórico das ilhas já está menos cingido à enunciação das excelências da Terceira e de S. Miguel. Com efeito, o acréscimo de informação, resultante dos nossos encontros, ajuda sobretudo à reconsideração das periferias, que manifestam desempenhos históricos de relevo, úteis na correção e completamento do conjunto. Atentemos, por exemplo, na proeminência do porto da Horta e da ilha do Faial entre os séculos XVII e XIX, convertidos em principal escala do comércio e da navegação no Atlântico, porque beneficiados pela extração do afamado vinho do Pico e pelo acesso dos influentes comerciantes de Inglaterra. Assim, é possível derramar mais luz sobre os vestígios do nosso passado. Afinal, um estímulo à aprendizagem dos Açores, um composto de unidade com diversidade, que obriga ao exame das partes na compreensão do todo. E, se assim não fosse, a nossa História permaneceria incompleta, mesmo errada.
Do passado das ilhas periféricas não brotam só as idiossincrasias, limitadas à dimensão do lugar, pois elas também participam da duradoura inserção do arquipélago nas dinâmicas do Atlântico, em acolhimento da extensão universal. Uma decorrência da própria açorianidade, essa mistura complexa de isolamento e de mundividência. Porém, nos nossos colóquios, privilegiamos naturalmente os estudos locais, mas sempre indexados ao enriquecimento das histórias regional, nacional e geral. Aliás, como bem relembrava Borges de Macedo, “quanto maior é a tentação e o incitamento do geral, mais indispensável se torna o estudo crítico do particular”. De resto, o método científico considera tais análises, mais específicas, o melhor meio de correção das sínteses, demasiado globais e, por conseguinte, falíveis. No entanto, os muitos avanços já alcançados não equivalem de todo ao termo da nossa missão, que demanda uma contínua labuta. E porquê? Porque o conhecimento histórico implica uma tarefa constante, composta por três etapas repetitivas até ao infinito, a saber, o fazer, o desfazer e o refazer. Uma implicação do predicado de qualquer ciência, que prima sempre pela incerteza, jamais pela certeza, impondo um labor permanente em busca da verdade, quiçá inalcançável.
A organização destes colóquios no Faial só possui justificação se estivermos todos irmanados na convicção de que a História, seja ela qual for, e aliás só há uma, tem utilidade e serve para qualquer coisa. Da minha parte, penso que a História serve para muito, porque o conhecimento do passado, facilita o entendimento do presente e ajuda à projecção do futuro. Senão me servisse para compreender o presente, se não me servisse para pensar o futuro, eu não nutriria qualquer interesse pelo estudo do passado. Contudo, ninguém atende aos ensinamentos da História. Como dizia Hegel no século XIX, todos os mandantes cometem erros crassos e repetidos, por manifesto desprezo pelas experiências históricas.
Essencialmente de História, o colóquio também privilegia a prática da interdisciplinaridade, através do diálogo e da multiplicação dos saberes, mormente, com as áreas da Cultura e do Património, também com uma pluralidade de outras disciplinas das Ciências Sociais e Humanas, por exemplo, a Política, a Economia e a Sociologia.
Na iniciativa e no apoio aos colóquios “O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV a XX”, estão, e estiveram sempre, o Núcleo Cultural da Horta e a Câmara Municipal da Horta. A cooperação da Universidade dos Açores foi também uma constante, mais efetiva a partir da integração do CHAM-Centro de Humanidades no grupo de entidades promotoras. Regista-se ainda o permanente auxílio do Governo dos Açores, tradicionalmente prestado pelas direções regionais da Cultura, das Comunidades e do Turismo, igualmente da Assembleia Legislativa Regional dos Açores e, eventualmente, de agências de financiamento da investigação científica.
P. S.: Uma reportagem menos feliz.
Foi lamentável a reportagem apresentada na edição de 23 de maio do Telejornal, relativa à comemoração, em Ponta Delgada, do cinquentenário do 25 de Novembro de 1975.
Em desprezo pelo general Vieira Borges, presidente da Comissão Portuguesa de História Militar, membro do comité organizador das celebrações e figura grada do audiovisual nacional, em desprezo pelo anfitrião, o general César Rodrigues, Comandante Operacional dos Açores, em desprezo pelos conferencistas, e até em desprezo pela mais qualificada testemunha do contragolpe de 25 de Novembro presente na sala, o Doutor Mota Amaral, a opção jornalística consistiu na audição de um Secretário Regional, um mero adorno protocolar no âmbito da cerimónia. E, usurpando a vez de todos, o governante falou. E o que disse? Uma fieira de generalidades!
Por: Avelino Menezes