O Livro Açores-500 flores é mais um Livro que resulta da parceria entre Raimundo Quintal e Teófilo Braga, uma dupla que se conhece bem e tem investigado a fundo o ecossistema natural e ambiental dos Açores e designadamente da ilha de São Miguel, com um foco muito orientado para as plantas endémicas dos Açores, o seu património florestal, as suas plantas e flores, e os seus jardins. O Livro-Açores 500 flores, é uma edição das Letras Lavadas Edições, com a impressão da Nova Gráfica, Lda, com capa do Jaime Serra, paginação do Pedro Melo e o trabalho dos autores é enriquecido com excelentes fotografias dos próprios autores, a que acrescem as da Carina Costa, Francisco Ribeiro, Jean-Claude Maret, Lúcia Ventura, Manuel Moniz da Ponte, e Maria Helena Câmara. O Livro conta ainda com o prefácio do José António Pacheco.
Trata-se de uma obra com 336 páginas devidamente sistematizada, numa viagem que é um hino ao mundo das flores no ecossistema dos Açores e que constitui um importante documento como registo sobre as flores, testemunho de como são utilizadas, a sua origem, conforme se trate de árvores (140), arbustos (131), trepadeiras (40) ou herbáceas (189), e devidamente identificadas com excelentes registos fotográficos. O realismo é tal, que quase que dá para cheirar o perfume das flores e imaginá-las no seu ambiente natural, numa jarra a servir de ornamentação ou num tapete de flores a enfeitar a procissão dos enfermos no Vale das Furnas.
Em jeito de síntese, diria que este Livro é uma importante janela de esperança no nosso património natural, transmite-nos a confiança de que nem tudo está perdido no mundo das plantas e das flores nos Açores, que no meio de tantas ameaças é ainda possível vislumbrar o quanto é bela a natureza que nos rodeia e que existem nichos pelos quais vale a pena trabalhar e mesmo lutar. É um Livro para ser lido, figurar nas nossas Bibliotecas e consultado com regularidade, estar presente nas Bibliotecas Públicas, ser divulgado nas Escolas dos diferentes níveis, incluindo o Universitário, e para ser oferecido a quem nos visita e a diferentes públicos.
Este Livro é também uma homenagem a todas as mulheres e homens que trabalham com as plantas e flores, cultivando e cuidando das diferentes espécies, protegendo este nosso património natural das invasoras agressivas, ensaiando novas variedades, investigando, transmitindo conhecimentos aos mais novos e até aos trabalhadores que com eles se relacionam, e aos que divulgam a importância das plantas e flores para o equilíbrio e bem-estar da humanidade. No conjunto de homens e mulheres que fazem parte deste meu universo de amigos das flores, gostaria de referir alguns nomes e através deles homenagear todos, a saber: Henrique Aguiar Rodrigues, Estêvão Bulhões (já falecido), Manuel Moniz da Ponte, João Forjaz Sampaio, Isabel Soares Albergaria, Fernando Costa e Carina Costa, com uma referência especial pelo trabalho realizado por estes últimos dois no Jardim Parque Terra Nostra das Furnas, particularmente na área das Camélias, de que é exemplo a criação da nova camélia Patrícia Bensaude Fernandes, devidamente classificada e registada, mas também na flora endémica dos Açores. De referir também o Estêvão Machado um furnense que no séc passado dedicou muito do seu tempo às plantas e em especial às Camélias, tendo inclusivamente uma Camélia com o seu nome, embora eu desconheça se foi alvo de classificação e registo.
Tenho esperança que este Livro: Açores 500 flores, seja mais um alerta para a necessidade dos poderes públicos e a sociedade civil açoriana se mobilizarem contra a catástrofe que as plantas invasoras agressivas representam na destruição do nosso património natural, com prejuízos incalculáveis nas nossas terras, nas pastagens, nos nossos quintais, nos jardins, nas matas, nas encostas, nas margens das nossas Lagoas e estradas, a olho nu, é possível constatar como elas vão ocupando todos os dias o nosso território. As conteiras, os gigantes, o rícino, o incenso, a tabaqueira, a silva-mansa, e só para referir algumas invasoras vão progredindo na razão inversa das nossas plantas endêmicas, abafando mesmo algumas das invasoras menos agressivas e até úteis e bonitas, como são as hortências. Trata-se de um problema sério e sem solução à vista e falo por experiência própria e de quem tem estado muito presente em 8 das nossas 9 ilhas açorianas.
Naturalmente, para muitos turistas, isto é tudo verde, mas para nós que nascemos e crescemos na pátria das flores, não nos deixamos enganar e até sofremos com esta triste realidade das invasoras agressivas.
As plantas e as flores sempre foram fonte de inspiração para pintores, poetas, escultores, jardineiros, amantes, escritores, religiosos, gente do povo e até mais recentemente para as engenharias e a robótica.
O Padre José Jacinto Botelho (1872-1946) natural de Ponta Garça foi o primeiro Vigário da Freguesia das Furnas, um Padre Poeta, Romeiro, o maior pregador do seu tempo e um amante das flores, que as soube aproveitar ainda no séc. XIX, na promoção da famosa procissão do senhor dos enfermos, conhecida como a primeira Dominga, uma profunda manifestação religiosa dos furnenses, que contava e de algum modo conta com a realização dos extraordinários tapetes de flores de azáleas, rododendros, camélias e mais recentemente aparas de verdura de criptoméria a enfeitarem os caminhos para a procissão passar rumo às visitas aos enfermos-doentes das Furnas. Esta procissão atraía e atrai todos os anos milhares de pessoas ao Vale das Furnas com um propósito de religiosidade, mas também para verem a beleza dos tapetes de flores. Confesso e como já escrevi, que gosto mais de ver e sentir as flores nas suas plantas e meio ambiente, do que as ver no caminho, mas também não sou insensível a todo o enquadramento que envolve a primeira Dominga, inclusivamente eu é que enfeito com flores, com as minhas próprias mãos e com os desenhos que improviso todos os anos o caminho em frente à nossa casa nas Furnas para passar a procissão.
É da autoria do Padre José Jacinto Botelho o Hino das Furnas, e que num dos seus versos escreveu o seguinte:
Entre Montanhas Cavada
Sorri a Pátria das Flores.
Terra Nossa Muito Amada,
Ninho dos Nossos Amores!
Uma pessoa que nasceu no meio de fumarolas, nascentes de água, plantas e muitas flores, era preciso ser muito insensível, para não ter um relacionamento e carinho especial pelas flores.
Recentemente estive em Bilbau e numa visita ao Museu Guggenheim, um testemunho de ligação à história do seu meio envolvente e de sustentabilidade, numa das suas salas tinha a decorrer uma homenagem aos 100 anos da escultora americana de origem japonesa a Ruth Asawa nascida em 1926 e que se notabilizou pela sua pintura de flores e escultura em fios de arame com formas geométricas extraordinárias inspiradas nas plantas, nas flores, teias de aranha e no orvalho que observava na natureza e no seu quintal. As hortências, os crisântemos e as íris, foram a sua principal referência, mas também a rama das criptomérias, os trabalhos de Asawa são hoje um testemunho, mas também um incentivo à importância que as plantas e as flores têm no desenvolvimento humano.
Raimundo Quintal, é um madeirense do Funchal, doutorado em Geografia, professor, investigador, defensor, promotor e divulgador do meio ambiente, tem uma longa prática de dedicação à causa pública, com uma ligação muito especial e reconhecida à biodiversidade, à Laurissilva, às levadas, à recuperação de habitats, aos jardins, à escrita, à produção de programas sobre a natureza e ambiente nos OCS e principalmente na televisão, é um conhecedor profundo das plantas endémicas dos Açores e Madeira, árvores, flores, trabalhou no estudo e ordenamento de jardins dos Açores, e a sua obra está documentada em vários livros que ultrapassam o horizonte geográfico dos Açores e da Madeira, e todos os dias exerce o seu dever e direito de cidadania, apoiando e criticando realidades que engrandecem a Região Autónoma da Madeira (RAM), mas também a empobrecem e agridem, o que lhe tem valido alguns dissabores, mas não que o impeçam de exercer esta sua prática diária de encarar e viver a sua RAM.
Teófilo Braga, é um açoriano, nascido em Vila Franca do Campo, professor, delegado sindical, investigador, defensor do meio ambiente e dos animais, tem abraçado várias causas ao longo da sua vida, e é reconhecido como o fundador da Associação Ecológica Amigos dos Açores, uma das Instituições que nos Açores integram o Conselho Económico e Social dos Açores.
É sozinho e em parceria autor e coautor de vários estudos e livros e em diversas áreas, com especial destaque para o meio ambiente, plantas e árvores dos Açores, mas também para o Associativismo Ambiental, Energia, e Percursos Pedestres. Paralelamente as causas sociais e humanas, como foi caso do seu livro Vidas Exemplares tem merecido da sua parte uma atenção especial
A ligação de Raimundo Quintal a Teófilo Braga e vice-versa tem dado muitos frutos na escrita, principalmente na área das plantas e flores, mas também na homenagem a realizações que marcam o património natural dos Açores como é o caso do livro que escreveram em conjunto sobre a Mata do Dr Fraga. São também muito apreciadas as visitas que promovem com regularidade a jardins e matas de São Miguel, como foram os casos das visitas ao Parque da Dona Beatriz do Canto nas Furnas, à Mata da Lagoa do Congro na Achada das Furnas, e à Mata do Dr Fraga, na estrada regional das Furnas.
*Na apresentação do Livro: Açores 500 flores.
3 de junho de 2026.
Por: Gualter Furtado