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“Radar Cultural” aposta na capacitação do sector cultural para diversificar fontes de financiamento além dos apoios regionais

O Radar Cultural é uma nova plataforma de capacitação que apoia artistas e organizações dos Açores no acesso a financiamento nacional e europeu. Em entrevista ao “Correio dos Açores”, a gestora cultural Daniela Silveira explica que a iniciativa surge para colmatar um vazio no sector, onde menos de 1% das entidades acede a fundos externos, gerando uma dependência excessiva dos apoios regionais. Através de formação e consultoria, o projecto quer profissionalizar o tecido artístico açoriano e facilitar candidaturas a programas como a DGARTES, Europa Criativa e Erasmus+.
Correio dos Açores – O que a levou a criar o Radar Cultural neste momento? A plataforma destina-se apenas a estruturas formais ou também a artistas independentes?
Daniela Silveira (gestora cultural e consultora) – Na verdade, o Radar Cultural não nasceu de um momento específico. É o resultado de um trabalho que tenho vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos através da Get Art, da formação, da consultoria e do acompanhamento de agentes culturais.
Ao longo do meu percurso, fui percebendo que existe uma enorme dificuldade de acesso à informação. Muitos dirigentes associativos, artistas e estruturas culturais desconhecem oportunidades de financiamento, programas de apoio ou ferramentas de gestão que poderiam fazer a diferença nos seus projetos.
O Radar Cultural surge precisamente para responder a essa necessidade. O que mudou agora foi que esta actividade ganhou uma identidade própria, uma marca, canais de comunicação dedicados e uma estrutura organizada que permite chegar a mais pessoas e prestar um apoio mais consistente ao setor cultural açoriano.
Respondendo à segunda pergunta, a plataforma destina-se a ambos: estruturas e artistas. Embora uma parte significativa dos programas de financiamento seja dirigida a associações, cooperativas, empresas culturais ou outras estruturas formalmente constituídas, existe também um conjunto muito relevante de oportunidades destinadas a artistas independentes, criadores, investigadores, programadores e outros profissionais da cultura.

Qual foi o principal problema que identificou no sector cultural açoriano?
O principal problema é a excessiva dependência das organizações culturais açorianas de uma única fonte de financiamento. Ao longo dos anos, muitas estruturas habituaram-se a olhar quase exclusivamente para os apoios regionais, quando existem oportunidades nacionais e europeias que continuam pouco exploradas.
É também evidente que o sector atravessa um período de incerteza. Continuamos sem uma visão estratégica clara para a cultura que defina prioridades, objectivos e resultados esperados para o investimento público realizado na Região.
As recentes alterações ao Regime Jurídico de Apoio às Actividades Culturais geraram preocupação e dificuldade de adaptação junto dos agentes culturais, sobretudo porque eu considero que o modelo adoptado não corresponde à realidade das estruturas culturais açorianas.
Mas independentemente dessa discussão, há um desafio que está ao alcance das próprias organizações: diversificar fontes de financiamento. Para isso é necessário acesso à informação, formação e ferramentas que permitam identificar oportunidades e transformá-las em projetos concretos. Foi precisamente essa necessidade que deu origem ao Radar Cultural.

Porque considera que existe um vazio nesta área do acesso ao financiamento?
Porque existe uma necessidade identificada há muitos anos pelo próprio sector e que continua sem resposta. Eu tenho defendido publicamente a criação de um gabinete de apoio a candidaturas e de capacitação para o financiamento.
Ao mesmo tempo, continua a existir um conhecimento limitado sobre as oportunidades de financiamento disponíveis fora dos apoios regionais. Isso acontece não apenas ao nível das organizações culturais, mas também ao nível das entidades que deveriam ter um papel mais activo na divulgação e capacitação do sector.
O resultado é que muitos agentes culturais desconhecem programas nacionais e europeus aos quais poderiam candidatar-se. Não por falta de qualidade dos projectos, mas porque não têm acesso à informação, ao acompanhamento técnico ou às ferramentas necessárias para transformar uma ideia numa candidatura.
Foi precisamente esse vazio que o Radar Cultural vai ocupar: aproximar a informação das pessoas e ajudar o setor cultural açoriano a diversificar as suas fontes de financiamento.

Em que medida o Radar Cultural se diferencia de outras iniciativas já existentes sobre o financiamento cultural?
A verdade é que, nos Açores, não existem iniciativas dedicadas exclusivamente à informação, capacitação e acompanhamento na área do financiamento cultural.
Desde 2025, a Get Art – Associação Regional para a Promoção e Gestão Cultural tem vindo a promover formações sobre financiamento europeu, gestão cultural e desenvolvimento de projectos, sobretudo nas ilhas Terceira e São Miguel. Essas acções permitiram perceber que existe uma procura real por este tipo de conhecimento.
O Radar Cultural surge precisamente dessa experiência, mas com uma ambição maior. Não se limita à realização de formações pontuais. Pretende criar uma plataforma permanente de informação, capacitação e apoio ao sector cultural, reunindo oportunidades de financiamento, formação, consultoria e recursos úteis para agentes culturais, artistas e organizações. Será um ponto de referência para quem procura desenvolver projectos culturais mais sustentáveis e diversificar as suas fontes de financiamento.

A nota refere que menos de 1% das entidades culturais açorianas acede a financiamento externo. Quais são os principais obstáculos que impedem os agentes culturais de concorrer a estes apoios?
O principal obstáculo é a falta de informação acessível e sistematizada. Muitos agentes culturais simplesmente desconhecem as oportunidades existentes ou têm dificuldade em acompanhar avisos, regulamentos e prazos.
Depois existe a questão dos recursos humanos. Grande parte das associações culturais açorianas funciona com dirigentes voluntários, que têm as suas profissões e acumulam a gestão das organizações no seu tempo livre. É difícil encontrar disponibilidade para estudar regulamentos, construir parcerias e preparar candidaturas.
Há também uma questão de capacitação. Muitos agentes culturais nunca tiveram formação em gestão de projetos ou financiamento e, por isso, encaram estes programas como algo demasiado complexo ou distante da sua realidade.
Por fim, existe uma cultura de forte dependência dos apoios regionais. Durante muitos anos, as organizações habituaram-se a olhar quase exclusivamente para essas fontes de financiamento e nem sempre desenvolveram estratégias de diversificação. É precisamente essa mudança de paradigma que o Radar Cultural procura promover.

Existem oportunidades de financiamento que os Açores têm vindo a perder por falta de informação ou capacitação?
Sem dúvida. Basta olhar para os resultados de programas como a DGARTES, o Europa Criativa, o Erasmus+ ou até algumas linhas do Turismo de Portugal para perceber que a participação açoriana continua muito abaixo do potencial existente na Região.
Não acredito que isso aconteça por falta de qualidade dos projectos ou das pessoas. O problema está muitas vezes no acesso à informação, na ausência de acompanhamento técnico e na falta de tempo e recursos para preparar candidaturas.

Que mudanças espera ver no sector cultural açoriano nos próximos anos através desta plataforma?
Gostaria de ver um sector cultural mais informado, mais capacitado e menos dependente de uma única fonte de financiamento. Se o Radar Cultural conseguir ajudar mais organizações a aceder a programas nacionais e europeus, já terá cumprido uma parte importante da sua missão.
Espero também contribuir para a profissionalização do sector. Muitas estruturas fazem um trabalho extraordinário, mas nem sempre dispõem das ferramentas necessárias para planear estrategicamente, captar recursos e crescer de forma sustentável.
Acima de tudo, gostaria de ver mais agentes culturais açorianos confiantes para procurar oportunidades fora da Região, criar novas parcerias e afirmar os seus projetos a nível nacional e internacional. Os Açores têm talento, criatividade e capacidade. O que muitas vezes falta é acesso à informação e às ferramentas certas para transformar potencial em resultados.

Porque decidiu apostar na formação como uma das principais linhas de actuação?
Porque a formação é a forma mais eficaz de criar autonomia. O objectivo do Radar Cultural não é apenas divulgar oportunidades de financiamento, mas dar às pessoas e às organizações as ferramentas necessárias para as compreender e aproveitar.
Ao longo dos últimos anos percebi que existe uma enorme vontade de aprender. Muitos agentes culturais querem candidatar-se a programas nacionais e europeus, mas nunca tiveram oportunidade de adquirir conhecimentos em áreas como gestão cultural, planeamento estratégico, financiamento ou elaboração de candidaturas.
Se conseguirmos aumentar a capacitação do sector, estaremos a criar condições para que mais projectos sejam desenvolvidos, mais financiamento seja captado e mais organizações culturais se tornem sustentáveis. É um investimento que produz resultados a longo prazo.

Que competências considera mais urgentes desenvolver no sector cultural açoriano?
Diria que a gestão cultural, o planeamento estratégico e a captação de financiamento. Temos excelentes criadores, programadores e dinamizadores culturais, mas muitas organizações continuam a precisar de reforçar competências ligadas à sustentabilidade dos projectos, à elaboração de candidaturas e à diversificação das fontes de financiamento. Essas são áreas fundamentais para o futuro do sector.

Como pretende garantir que agentes culturais de todas as ilhas conseguem beneficiar desta oferta?
O Radar Cultural terá uma programação regular de formações presenciais na Terceira e em São Miguel, que concentram a maior parte da população e da procura. Aliás, o projeto arrancou precisamente com um mês dedicado à DGARTES, durante o qual estamos a promover quatro formações presenciais sobre o Programa de Apoio às Bandas de Música e Filarmónicas e o Programa de Apoio Sustentado.
Paralelamente, estamos presentes nas principais plataformas digitais, nomeadamente Instagram, Facebook, LinkedIn e através de uma newsletter mensal, que permite levar informação atualizada a qualquer ilha.
Vamos também disponibilizar formações online e desenvolver acções à medida das necessidades das organizações. Se uma associação, filarmónica ou grupo cultural de qualquer ilha manifestar interesse e reunir condições para organizar uma formação, estaremos disponíveis para nos deslocar e trabalhar directamente no terreno.
O mais importante é que exista vontade de participar. Havendo essa vontade, encontraremos forma de chegar lá.

José Henrique Andrade

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