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O invisível no mar que ajuda a explicar anos bons e anos maus de pesca

Há manhãs em que a lota parece contar uma história simples. O peixe chega, é pesado, vendido e segue para as mesas. Mas a parte mais decisiva dessa história aconteceu muito antes, quando esse mesmo peixe ainda era invisível a olho nu. Antes de ter escamas, tamanho e valor comercial, foi apenas um ovo à deriva. Depois, uma larva transparente, do tamanho de um grão de arroz, a tentar sobreviver num oceano onde quase nada é garantido.
É nesse início microscópico que trabalha uma das áreas menos conhecidas das ciências do mar. O estudo do ictioplâncton, o conjunto de ovos e larvas de peixes presentes na água, permite observar a fase mais vulnerável da vida marinha. Em termos simples, é uma forma de procurar sinais sobre o futuro das pescarias. Ao acompanhar estes organismos quase invisíveis, os investigadores tentam perceber se a próxima geração de peixes está a nascer em quantidade suficiente e em condições favoráveis para chegar à idade adulta.
Esta atenção aos primeiros dias de vida é essencial porque a história de um peixe não começa quando ele entra numa rede, num anzol ou numa banca de mercado. Começa muito antes, numa fase em que a sobrevivência depende de um equilíbrio frágil entre alimento, correntes, temperatura e acaso. A realidade biológica mostra que grande parte da mortalidade ocorre logo nas primeiras semanas. Muitos ovos não chegam a eclodir. Muitas larvas eclodem, mas não encontram alimento no momento certo. Outras são arrastadas por correntes para zonas desfavoráveis. Outras ainda tornam-se alimento de organismos que raramente associamos à pesca. Em poucas palavras, a vida de um peixe decide-se cedo e depressa.
A reprodução das espécies marinhas também não acontece ao acaso. Muitas concentram a desova em períodos curtos, quando as hipóteses de sucesso são maiores. Esses períodos dependem de fatores ambientais como a temperatura da água, a duração do dia, a disponibilidade de alimento para as larvas e a estabilidade da coluna de água. Para quem observa de fora, isto significa que há épocas em que o mar parece mais carregado de vida microscópica e outras em que parece mais “silencioso”. Para a ciência, significa que uma semana pode fazer diferença. O momento em que os investigadores vão ao mar torna-se, por isso, tão importante como o local onde procuram. Se chegarem cedo demais, podem não encontrar sinais da desova. Se chegarem tarde, parte dessa informação já pode ter sido levada pelas correntes ou transformada pelo próprio crescimento das larvas.
É por isso que estudar esta fase invisível exige campanhas planeadas de acordo com o ritmo do oceano. Em saídas científicas no mar, usam-se redes de malha muito fina para recolher amostras em locais e épocas específicas. Depois, no laboratório, começa um trabalho minucioso de separação, observação ao microscópio e identificação. Há ovos que se distinguem pela forma, pelo tamanho, pela textura. Há larvas que já revelam sinais da espécie a que pertencem, mas há também outras que parecem quase não ter relação com o peixe adulto que um dia poderão ser. Algumas têm corpos alongados, cabeças desproporcionais, olhos muito evidentes ou estruturas temporárias que desaparecem com o crescimento.
O alfonsim, Beryx splendens, é um bom exemplo. Nas primeiras fases, a larva tem um aspeto delicado e quase estranho ao adulto vermelho e robusto conhecido das pescarias, com filamentos alongados nas barbatanas que se perdem à medida que cresce. A identificação exige, por isso, atenção ao detalhe e conhecimento das transformações que ocorrem entre a larva e o adulto. Quando a identificação visual não é suficiente, técnicas laboratoriais ajudam a confirmar a resposta. Este esforço, aparentemente distante do quotidiano, tem um objetivo muito concreto. Saber quem está a nascer, onde e quando. Também permite perceber se determinadas zonas funcionam como áreas importantes de reprodução e crescimento.
Esse mapeamento também ajuda a distinguir zonas de passagem de zonas onde as primeiras fases de vida parecem encontrar melhores condições. Encontrar ovos ou larvas num ponto do oceano não significa apenas registar uma presença. Pode indicar que ali perto ocorreu desova, que as correntes mantêm os organismos numa área favorável ou que certas espécies usam repetidamente aquela zona para iniciar o seu ciclo. Com o tempo, amostra após amostra, forma-se um mapa discreto da reprodução no mar.
Mas esse mapa conta apenas uma parte da história. A presença de muitos ovos ou larvas numa determinada área não garante, por si só, que daí resultem muitos peixes adultos. Depois da desova, começa uma segunda prova, tão decisiva como a primeira: sobreviver aos dias em que a larva deixa de depender das reservas internas e precisa de encontrar alimento no exterior. É nessa passagem que muitas vidas se perdem. Se nesse momento não houver alimento apropriado em quantidade suficiente, a janela de sobrevivência fecha-se rapidamente. É uma corrida de horas e dias, não de meses. Em anos em que a primavera se antecipa ou atrasa, pode ocorrer um desencontro entre o pico de alimento disponível e a presença das larvas. O mar pode parecer cheio de vida e, ainda assim, faltar o alimento certo no momento crítico. Para uma larva, esse momento certo não é uma metáfora. É a diferença entre crescer ou desaparecer.
Nos Açores, este tema ganha uma importância particular. As ilhas não funcionam como uma fronteira rígida no oceano. A circulação marinha pode dispersar ovos e larvas para longe ou, pelo contrário, criar zonas de retenção, autênticos berçários naturais onde a probabilidade de sobrevivência aumenta. Pequenas diferenças no vento, na temperatura e nas correntes podem alterar o destino de uma geração inteira. O que à superfície parece apenas meteorologia pode, à escala microscópica, separar um ano forte de um ano fraco para determinadas espécies.
É neste ponto que o estudo do ictioplâncton deixa de ser apenas uma observação microscópica e passa a ter impacto direto na gestão das pescarias. Ao perceber melhor quantos ovos e larvas existem, onde surgem e em que condições se desenvolvem, a ciência ganha pistas sobre a renovação das populações de peixes. Essa renovação é uma peça central na avaliação dos stocks. Não basta saber quanto peixe existe no mar ou quanto é retirado pela pesca. É também necessário perceber quantos novos indivíduos estão a entrar na população e poderão, mais tarde, chegar à idade adulta. A essa entrada chama-se recrutamento.
O recrutamento é uma das componentes mais incertas da gestão pesqueira. Pode variar muito de ano para ano e alterar a perceção sobre a abundância de uma espécie, mesmo quando a pressão da pesca se mantém semelhante. Um ano com poucas larvas a sobreviver pode vir a sentir-se mais tarde nas capturas. Um ano favorável, pelo contrário, pode reforçar a população.
Séries longas de observações do ictioplâncton e das condições ambientais ajudam a interpretar essa variabilidade. Não são uma bola de cristal, porque o percurso entre larva e peixe adulto é longo e atravessa muitos filtros, predação, crescimento, habitat, competição e pesca. Ainda assim, estes dados funcionam como um indicador precoce. Permitem sinalizar anos potencialmente fracos, compreender melhor a relação entre as condições oceanográficas e sucesso reprodutivo, e enquadrar a incerteza com mais informação. Em termos de gestão, isto traduz-se numa exigência simples. Decidir bem implica aceitar que o mar muda e que a ciência tem de acompanhar essas mudanças com observações consistentes ao longo do tempo.
Para quem pesca, para quem compra e para quem decide, esta informação ajuda a reduzir a surpresa e a aumentar a prudência. O peixe de amanhã não nasce na lota. Nasce no mar aberto, à escala de um microscópio, num equilíbrio delicado entre reprodução, ambiente e acaso. Conhecer esse começo não garante previsões perfeitas, mas melhora a capacidade de compreender riscos e de tomar decisões que mantenham as pescarias viáveis. Quando olhamos para um peixe no mercado, estamos a ver o fim de um longo trajeto. O ictioplâncton lembra-nos onde tudo começou e que, muitas
vezes, o futuro do peixe é decidido quando ainda ninguém o consegue ver.
Por: Régis Santos

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