A poucos dias da sua ordenação sacerdotal, Fábio Silveira partilha um testemunho marcado pela fé, pela cultura, pela música e por uma profunda ligação às comunidades que o ajudaram a discernir a sua vocação. Natural da ilha do Pico e com grande parte do seu percurso humano, académico e eclesial construído na Terceira, reconhece que o chamamento ao sacerdócio não surgiu como uma mudança de vida, mas como a sua plena realização. Nesta entrevista, reflete sobre o papel da família, dos amigos e da comunidade cristã no seu caminho, recorda os desafios da formação no Seminário Episcopal de Angra e revela a importância da arte e da música como instrumentos de evangelização. Com um olhar atento aos desafios da Igreja contemporânea, especialmente no acompanhamento dos jovens e na pastoral vocacional, manifesta o desejo de ser um sacerdote próximo das pessoas, capaz de caminhar com elas nas suas alegrias e dificuldades. O lema que escolheu para a sua ordenação “Eu cuidarei das minhas ovelhas, diz o Senhor” sintetiza uma missão que encontra o seu sentido mais profundo no encontro com Cristo através das pessoas que é chamado a servir.
Correio dos Açores – A sua vocação surgiu relativamente tarde, aos 28 anos. O que mudou na sua vida para dar esse passo decisivo?
Fábio Silveira – Essa era a visão que tinha, o que me causava apreensão em aceitar o que sentia dentro de mim como apelo a dizer “Sim” a esta missão, mas logo percebi que para Deus não há tempo. Nascemos e morremos alimentando a nossa vocação, e muitos de nós morremos sem se sentir realizado nela. Aprendi na minha vocação que o tempo do Senhor é diferente do nosso, e que só temos de o respeitar, quando nos sentimos apelados por Ele. A minha vida não mudou – completou-se.
Sentia-se realizado, mas “faltava qualquer coisa”. Como descreve hoje esse sentimento?
Exatamente dessa forma: faltava qualquer coisa. Havia sempre um vazio por completar. Tenho a graça de na minha vida sentir a presença de Deus das mais diversas formas desde cedo, inclusive o seu chamamento a trabalhar perto dele. No entanto, entendi sempre que não precisava de ser sacerdote para trabalhar para o Senhor. Verdade é, que as mais diversas formas de colaboração para a pausa dele, continuavam a não ser suficientes para completar o a minha vocação como pessoa, e era preciso sempre mais.
Que papel tiveram a família, os amigos e a comunidade nesse processo de discernimento?
Um papel, sem dúvida, importante. Desde uma família profundamente religiosa e cumpridora do seu preceito, capaz de ensinar e transmitir valores para o seu ambiente, até aos amigos que sempre me tiveram como pilar no grupo, e sempre me apoiaram em todas as minhas decisões, mesmo quando, numa sociedade laicizada, e o meu grupo de amigos, em parte, não é exceção, não olhavam para mim como diferente deles, nem julgavam por estar sempre ocupado nas lides eclesiais, mas antes pelo contrário, valorizavam, e viam entre eles esta presença de confiança que sempre inspirei. Eles foram e são um alento para a minha vocação. A minha comunidade cristã, Santo António do Monte, da freguesia da Candelária da ilha do Pico, terá sido, ouso dizer, o oásis onde sempre rebusquei as energias para a minha vocação. O seu exemplo de fé e resiliência, fruto da sua pequenez como território e comunidade, fazem deste povo do qual me orgulho de pertencer, um povo especial. Minha terra e minha gente – são os (bons) culpados desta minha vocação.
A música ocupou um lugar muito importante na sua vida. O que trouxe desse percurso para a sua formação sacerdotal?
A música, bem como a cultura e o mundo das artes numa forma geral, fazem parte integrante da minha vida desde cedo, e são um instrumento de relação, de proximidade e de comunhão com as pessoas. Já o era antes de entrar para o seminário, continuou a ser, e agora nesta fase em que estou já no terreno como ministro ordenado, vejo aqui cada vez mais um instrumento gerador de relações, de proximidade, e de confiança. A cultura e as artes têm um condão especial de gerar comunhão, e são uma via de expressão da própria Igreja nos meios onde a Igreja precisa chegar e por vezes não chega.
Como maestro, compositor e músico, aprendeu a trabalhar em equipa e a liderar grupos. Essas experiências ajudam-no hoje na missão pastoral?
Sem dúvida. Desde cedo inserido em trabalhos em grupo, criei bagagem pessoal que hoje me orgulho de inserir em qualquer contexto comunitário. A vocação não se vive isoladamente, e para mim só tem sentido se for encarnada nas pessoas. É uma ferramenta que tem me ajudado imenso na inserção nas várias paróquias por onde tenho passado, graças a Deus, sem dificuldades de adaptação. E digo isto, claro, porque na fraternidade clerical muitas vezes partilhamos experiências e vemos muitas dificuldades de adaptação, de mudança, de comunhão.
Pretende continuar a utilizar a música como instrumento de evangelização e aproximação às comunidades?
Sem dúvida. Não fazer dela o centro, mas tê-la como esse instrumento de evangelização e aproximação às comunidades. A Música e a Cultura têm uma linguagem que chega onde muitas vezes a teologia não chega. Mas fundidas, são aliadas na evangelização, são uma verdadeira teologia do povo.
Se tudo é obra do Criador, a Arte vem até nós por Ele – o Belo. E a beleza é capaz de tocar as pessoas das mais diversas formas. A beleza elava-nos ao transcendente, faz-nos chegar até ao verdadeiro Autor, aproxima-nos de Deus.
É o último seminarista a concluir integralmente a formação no Seminário Episcopal de Angra. Que significado tem isso para si?
Nos anos 60, uma peça de teatro badalou na cidade de Angra, paredes intra do Seminário episcopal, intitulada “O último seminarista em Angra”. Longe estariam os intérpretes de imaginar que isso viria a acontecer… ou afinal, não estariam assim tão longe. Verdade é que, da ficção passou à realidade, e esta obra teatral com um protagonista sem nome, hoje tem um nome – o meu. Tão longe estaria eu também de imaginar-me como protagonista deste papel que tem tanto de alegre como de triste. Triste pelo facto de ver encerrado um ciclo de uma casa que nos acostumamos a chamar de Coração da Diocese – a Casa Santa e Mimosa de Deus, ficando também encerradas neste ciclo tantas memórias, tantas vidas, tantas vocações. Ao mesmo tempo alegre, pois revela também o fim de uma conquista, de uma caminhada árdua, de lutas, de sorrisos e lágrimas, mas acima de tudo, de realização.
Como viveu os anos de formação e quais foram os maiores desafios?
Para um jovem de 28 anos, habituado á rotina de trabalho e uma vida independente, voltar a estudar, e viver em comunidade foram os grandes desafios com que me deparei. Dos 24 colegas com quem partilhei esta Casa, até terminar o último ano sózinho, muitos entraram e outros tantos ficaram pelo caminho. Cada um de nós com o seu temperamento e maturidade, numa vida comunitária imposta, longe de o ser por livre vontade como aquando de uma opção de vida religiosa conventual que supõe desde logo a vida comunitária, revela em si os mais diversos sentimentos e comportamentos. Como diria um antigo professor: ninguém tem vocação para ser seminarista – esta casa é um meio para algo muito maior.
Que ensinamentos considera fundamentais para o ministério que agora inicia?
Os ensinamentos que mais considero fundamentais para o ministério, são precisamente aqueles que não se dão numa sala de aulas de seminário: a empatia, a proximidade com as pessoas, a gestão comunitária. Estes valores não se trabalham atrás de uma secretária, levam-se de casa para o Seminário, e rezam-se diariamente junto do Sacrário onde está o maior Professor.
Ao longo dos últimos anos colaborou em várias paróquias e serviços diocesanos. O que aprendeu com essa diversidade de experiências?
Por onde tenho passado, quer em paróquias, quer em departamentos diocesanos, aprendi somente uma coisa: não precisamos fazer coisas extraordinárias nem de alta teologia; precisamos estar presentes, e revelar compreensão e compaixão nos locais onde nos inserimos. Se dermos o nosso máximo em cada serviço que nos é proposto, ás vezes pode ser pouco para nós, mas para quem trabalha à nossa volta é o suficiente, e às vezes transforma-se em muito.
Quais foram os momentos pastorais que mais o marcaram?
Talvez possa dizer que os momentos pastorais que mais me têem marcado, se relacionam com a juventude e com as crianças. Numa era em que no panorama católico se lhes aponta tanto o dedo, pelo seu afastamento e pela sua falta de compromisso como cristãos para com a sua Igreja, eu tenho encontrado nestes grupos, pequenos oásis onde vou alimentar a minha vocação, e que me fazem acreditar que vale a pena ser Padre! Em palavras não se consegue exprimir os mais belos sentimentos vividos com estes amigos de Jesus – momentos profundos, genuínos e sinceros.
A pastoral exige proximidade e discernimento. Como se concretiza isso no dia a dia de um sacerdote?
No panorama nacional e universal da Igreja, a nossa Diocese tem peculiaridades que favorecem o “ser padre”. Num contexto maioritariamente rural, as nossas paróquias ainda são algo dependentes da figura do padre, e muitas ainda com grande respeito por esta figura pública, apesar de muitas vezes ouvirmos o contrário. Estas comunidades não exigem que sejamos perfeitos, porque têm noção da fragilidade de um presbítero como homem e pecador que é, exigem de nós apenas uma coisa: estarmos ali. E o estar ali abarca uma série de compromissos: conhecer a comunidade, os seus problemas e alegrias, rir com eles e chorar com eles; ser conhecedor da realidade das suas vidas, a cultura local e suas tradições. Estar atento e no dia a dia das pessoas faz do sacerdote uma pessoa da comunidade, e não alguém que vive à margem da comunidade. As vocações sacerdotais são extraídas do povo, e não fazem sentido se não estiverem ao serviço dele e no meio dele.
Como vê o papel do sacerdote numa sociedade cada vez mais secularizada?
Correndo o risco de me repetir, afirmo que o sacerdote continua a ter o seu papel e lugar na sociedade, mesmo que secularizada, embora muitas vezes não sejamos merecedores de tanto. A Igreja, e os seus ministros ordenados, só encontrarão a sua verdadeira missão quando procurarem se enquadrar no século, ao invés de ficar parados à espera que o século encontre o caminho da Igreja. A Igreja faz parte da sociedade, e não pode viver à margem como algo separado. Tem de caminhar lado a lado, e ainda mais, ousar entrar no seio mais profundo desta sociedade secularizada. Pelo que conheço de Jesus, aposto que ele gostaria mais de estar nesse lugar, no meio dessa sociedade secularizada, cheia de gente imperfeita, cheia de lugares indesejados, do que ficar parado dentro das paredes da igreja, onde tudo está garantido e protegido.
Vai continuar a servir na Ouvidoria da Povoação. Que expectativas leva para esta nova etapa?
Nesta fase de transição e após já quase um ano de experiência na Ouvidoria da Povoação, vejo um grande potencial escondido atrás de uma cortina quase transparente. Ainda sem provisão de estadia na Ouvidoria, mas com pelo menos mais um ano de trabalho pela frente, é certo que vou dedicar-me às comunidades ao máximo como tenho feito até então, pois não sei dar-me pela metade (com todos os riscos que isso também acarreta).
A Ouvidoria da Povoação têm passado alguma instabilidade no panorama clerical, desde desistências do ministério de párocos em vigor, e de padres originários da Povoação, até colocações flutuantes de sacerdotes nas paróquias, por períodos de meses ou de um ano, levando a trocas sucessivas de pastores nas comunidades. Neste momento encontramos ainda povos feridos, magoados, com um sentimento de abandono, e que estão sedentos de uma mão que os segure, de alguém que caminhe com eles, que os ouça e entenda.
Como imagina o seu sacerdócio daqui a dez anos?
Com mais cabelos brancos do que já tenho, espero daqui a dez anos continuar a ter o sabor da minha ordenação, e nunca me esquecer do sentido da minha vocação. Espero daqui a dez anos dizer: como é bom ser Padre.
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O que espera aprender com as comunidades que irá servir?
Espero continuar a aprender a ser Padre e Pastor, porque isso não aprendemos no Seminário, aprendemos nas comunidades, com as pessoas.
Como pode a Igreja chegar melhor aos jovens de hoje?
Mostrando que a Igreja não é algo do passado, que não é somente para cabeças de cabelo branco, mas que é para todos, e que tem um lugar para eles. Claramente não estamos a falar de um lugar sentado do lado de dentro da porta da igreja, estamos a falar de um lugar no seio da Igreja que ultrapassa as portas dos edifícios de culto – igrejas. A Igreja chegará aos jovens quando sair do seu conforto ao encontro deles, onde eles estão, ao invés de esperar que eles procurem Jesus no sacrário. A nós, agentes de envangelização, cabe-nos a missão de com o nosso testemunho, mostrar Jesus aos jovens com gestos concretos de compreensão e proximidade. Os nossos jovens não estão “perdidos” como tanto se lhes diz, estão incompreendidos.
O seu percurso, ligado à cultura, à música e ao associativismo, pode ajudar a criar novas formas de aproximação aos jovens?
Claro. Engane-se aquele que pensa que o jovem só tem desinteresse para as causas da Igreja. A juventude atravessa um desinteresse massivo nas mais diversas dimensões sociais. A cultura, a música, as tradições, o associativismo, atravessam também crises, pois subsistem de gente já cansada e sem substituição à vista. Mas muitas vezes estamos amarrados a tudo isto e não permitimos a aproximação das faixas mais jovens. Como músico coletivos e individual, como membro efetivo de agrupamentos associativos, culturais e outros, facilmente estabeleço empatia e compreensão nos meios onde me insiro. Uma pessoa que nos encontra no seu meio e sente que nos inserimos nele e que compreendemos o que vive, alimenta-se também a si para continuar o exercício da sua missão como cristão e como civil – como homem e mulher.
Que desafios identifica actualmente na pastoral vocacional?
A falta de testemunho está no centro da crise vocacional ao sacerdócio e não só. A crise vocacional é transversal a todas as áreas da sociedade. A crise que se vive nos dias de hoje, refere-se à vocação que sai de si e se entrega ao outro. Á crise na enfermagem, na medicina, no casamento, no sacerdócio e em tantas outras áreas, todas elas, vocações que servem os outros e não somente a si. Isto manifesta-se cada vez mais, numa sociedade que por várias causas, está cada vez mais individualista, egocentrista e fechada à causa do outro.
Se não existirem testemunhos verdadeiros e honestos, não serão capazes de tocar e contagiar aqueles que ainda procuram a sua vocação. E no panorama sacerdotal não é diferente.
Como está a viver emocionalmente os dias que antecedem a ordenação sacerdotal?
Confesso até à data estar a viver com grande naturalidade, pois a rotina paroquial desfoca um pouco a centralidade deste dia, pois outrora estaria ainda a viver no seminário o sonho deste dia, sem outras responsabilidades, a aguardar a chegada deste dia. No entanto, com o aproximar desta última semana, o Senhor tem revelado de tantas formas a sua presença, dizendo “estou aqui contigo”, que me tem perturbado emocionalmente (de forma positiva), o que pesa ainda mais na responsabilidade deste Sim, mas o torna ainda mais convicto.
Que significado tem para si ser ordenado sacerdote sendo natural do Pico e tendo construído grande parte da sua vida na Terceira?
Sou um picaroto orgulhoso. Mas um terceirense emprestado nada menos orgulhoso. Sou o primeiro sacerdote que nasce da minha comunidade, embora na minha paróquia até ao final do século passado, se tenham gerado padres, monsenhores, bispos e cardeais, sendo o último o Cardeal Dom José da Costa Nunes, colaborador de confiança de Paulo VI na Cúria Romana. Já lá vão mais de 4 décadas desde o último presbítero gerado nesta paróquia.
Vivem-se momentos intensos de emoção e orgulho na minha comunidade cristã de Santo António do Monte, com a qual tenho um vínculo quase umbilical, e da qual bebo muito para a pastoral exercida nas comunidades a mim confiadas.
A ilha Terceira, minha terra adotiva durante 15 anos, vive semelhante emoção. Levo a ilha no coração e o homem que ela me ensinou a ser, desde o meu percurso académico na Universidade, até à vida profissional e ao seminário.
Com o consentimento do prelado diocesano, D. Armando, desejei e realizei a minha ordenação diaconal da Igreja Catedral de Angra, bem como assim será a ordenação presbiteral. Na Igreja-Mãe dos Açores, uma igreja que servi ao longo de anos, numa terra que servi ao longo de anos, e que me acolheu como seu.
Sou picaroto e não sou menos terceirense, e se os micaelenses e Deus me permitirem, serei um dos seus também.
Que lema ou passagem bíblica melhor resume a sua caminhada até aqui?
O lema escolhido para a minha ordenação e missa nova, é extraído de Ezequiel 34,11 «Eu cuidarei das minhas ovelhas, diz o Senhor». Lema escolhido ainda antes de entrar no seminário, aquando da minha decisão, assinalado na minha bíblia de estudo desde então, e que me acompanhou ao longo de todo o percurso académico e pastoral, se assim o Senhor o entendesse que era esse o meu fim.
O lema foi escolhido naquela época porque entendi que era através dele que o Senhor queria falar em mim, e hoje continuo convicto do mesmo.
Se pudesse resumir em poucas palavras aquilo que deseja ser como sacerdote para as pessoas que vai servir, o que diria?
Acima de tudo, desejo manter vivo aquele primeiro “sim”, agora amadurecido pelas circunstâncias, pelos desafios e pelas graças recebidas. Um “sim” hoje mais consciente, mais livre e mais enraizado na experiência concreta de uma missão que, tendo começado como desafio, tornou-se verdadeiramente uma paixão. Um sim que tem uma fácil tradução: o Jesus que encontro nas pessoas – elas, a minha profunda vocação.
António Pedro Costa
