Cheias extremas, antes raras nas comunidades costeiras, estão a tornar-se muito mais frequentes à medida que as alterações climáticas provocadas pela acção humana fazem subir o nível do mar, indica uma nova investigação publicada em 10 de Junho.
Segundo noticiou a “Euronews”, os especialistas dizem que as conclusões são cruciais para planear a protecção contra cheias e das infra-estruturas costeiras, à medida que o planeta aquece.
Estas grandes inundações costeiras ocorrem quando marés muito altas e marés de tempestade se combinam com um oceano que já está a subir. Tudo isto soma-se aos padrões naturais do clima e a outros impactos da actividade humana.
Segundo os cientistas, as alterações climáticas tornaram mais intensas tempestades como o furacão Ian, que provocou inundações significativas em 2022. As cheias ameaçam todos os anos centenas de milhões de pessoas em zonas costeiras de baixa altitude em todo o mundo. Provocam também prejuízos de milhares de milhões de euros e podem ser mortais.
Cheias que historicamente tinham uma probabilidade de 1 por cento de atingir uma linha costeira num determinado ano são agora, em média, cerca de 12 vezes mais prováveis, indica um novo estudo publicado na Quarta-feira na revista Nature Climate Change. Esses eventos tornaram-se cerca de quatro vezes mais prováveis devido às alterações climáticas provocadas pelo ser humano, mostra a investigação.
“Cada cheia costeira hoje
em dia traz a marca humana”
De acordo com a “Euronews”, os investigadores analisaram a frequência com que ocorrem episódios extremos de nível do mar, que provocam inundações costeiras, recorrendo a registos de longo prazo de marégrafos em mais de 100 locais, bem como a modelação climática.
O estudo avaliou a evolução entre 1900 e 2005. Ficou limitado até 2005 porque, a partir daí, já não existiam modelos suficientes capazes de identificar a contribuição das alterações climáticas de origem humana. Os autores admitem que os resultados provavelmente subestimam o risco actual, uma vez que, desde então, a influência humana nos extremos costeiros só tem aumentado.
A “Euronews” relata que os investigadores distinguiram quais as alterações causadas pela actividade humana, por forças naturais ou por mudanças na própria paisagem. Embora as variações do nível do mar no início do século XX se devessem sobretudo a factores naturais, os cientistas concluíram que, desde a década de 1960, o aquecimento provocado pelo ser humano passou a ser a principal razão para a subida do nível do mar.
Um estudo distinto, publicado na Quarta-feira na revista Science Advances, reforça também a ideia de que as alturas extremas do oceano resultam das alterações climáticas, em particular em cerca de 58 por cento dos dias com grandes cheias entre 2000 e 2018. Segundo esse trabalho, as alterações climáticas quase triplicaram, em média, desde a década de 1970 o número de dias em que o mar ultrapassa níveis de cheia extrema.
“Praticamente todas as cheias costeiras actuais têm a marca humana, através das alterações climáticas”, afirma Ben Strauss, cientista-chefe da Climate Central e co-autor do estudo na Science Advances. “Sem aquele acréscimo do nível do mar causado pelo aquecimento global, a maioria destes episódios não teria chegado a provocar cheias.”
Queima de combustíveis fósseis
é “factor dominante”
na subida do nível do mar
A “Euronews” refere que o trabalho publicado na Nature Climate Change não analisou em detalhe cada factor humano, explica Sönke Dangendorf, autor principal, mas sublinha que os gases com efeito de estufa, resultantes da queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão, são os mais determinantes.
“Desde a década de 1970 é, de longe, o factor dominante, e isso, naturalmente, não são boas notícias”, afirma Dangendorf, também professor associado na Universidade de Tulane. O investigador alerta que a ameaça está a crescer e que as comunidades têm de fazer mais para estar preparadas.
Jeff Williams, oceanógrafo reformado do Serviço Geológico dos Estados Unidos que não participou em nenhum dos estudos, considera que estes trabalhos mostram que os responsáveis pelo ordenamento têm de ter em conta ameaças crescentes. Devem também ponderar quanto dinheiro será necessário para reforçar a protecção costeira, acrescenta, e decidir quem o vai pagar.
As actuais defesas de Nova Orleães, nos Estados Unidos, “provavelmente deixarão de ser adequadas daqui a algumas décadas”, alerta Williams.
Em todo o mundo, os países recorrem cada vez mais a energias renováveis como a solar e a eólica. No ano passado, a produção de electricidade limpa cresceu mais do que a procura global de energia eléctrica e, pela primeira vez, a quota das renováveis ultrapassou um terço do mix eléctrico mundial.
Mesmo nos Estados Unidos, onde a administração Trump promoveu os combustíveis fósseis, a energia solar continua a crescer à medida que a produção a carvão recua. Por isso, cientistas disseram recentemente que o mundo já não segue o cenário de aquecimento mais extremo – mas também ainda não está alinhado com o cenário mais optimista.
“Os impactos, mesmo de uma subida relativamente pequena do nível do mar, podem ser muito significativos nas nossas costas”, afirma Dangendorf, o autor da Tulane.
“Há um lado positivo, porque temos alguma capacidade de controlar quanto emitimos, certo?”, acrescenta. “Podemos travar essa evolução, pelo menos em parte.”
