Mais do que um simples doce, esta queijada representa uma história de dedicação, identidade local e valorização dos produtos da terra. Cada ingrediente carrega a autenticidade de uma exploração agrícola familiar situada na Vila de Água de Pau, onde Mariana trabalha diariamente ao lado do pai, Ricardo Medeiros Cabral, agricultor que, juntamente com a família, desenvolve uma produção diversificada de cereais, hortaliças e frutas, privilegiando métodos naturais e biológicos.
A criatividade da jovem agricultora deu origem a esta combinação singular entre a suavidade da batata-doce e a frescura aromática do limão-galego, resultando numa queijada de sabor delicado, equilibrado e profundamente enraizado na tradição açoriana. Uma verdadeira relíquia caseira que honra o património gastronómico da ilha, ao mesmo tempo que lhe acrescenta uma assinatura contemporânea.
Formada em 2025 pela EPROSEC, Mariana apresentou o seu projeto final precisamente no espaço-quinta da família, demonstrando que o conhecimento técnico adquirido na formação profissional encontra aplicação directa na realidade agrícola do seu quotidiano. O seu percurso é exemplo de como a juventude açoriana pode conciliar tradição, inovação e empreendedorismo.
O trabalho de Mariana vai muito além da confecção desta queijada. Quem a vê no terreno encontra uma jovem que participa activamente nas tarefas agrícolas, conduz máquinas e tractores, acompanha culturas e cuida dos animais. A sua vivência diária demonstra uma verdade simples e profunda: a terra devolve ao agricultor o fruto do seu trabalho.
Em troca do cuidado com o solo e da dedicação constante, a agricultura oferece:
Sustento e segurança alimentar, através de culturas diversificadas que garantem alimento para a família e para a comunidade;
Rendimento e dinamização económica, através da comercialização dos produtos agrícolas e transformados, fortalecendo a economia familiar e local;
Matérias-primas de excelência, que permitem criar produtos diferenciadores e de elevado valor acrescentado;
Equilíbrio ecológico, promovendo uma relação harmoniosa entre produção agrícola e preservação ambiental.
Os próximos passos já estão definidos. Mariana ambiciona construir duas estufas agrícolas, projeto que considera prioritário para expandir e diversificar a produção que pretende comercializar na Frutaria Piques, negócio familiar gerido pela sua mãe, Marina Piques. Estas infraestruturas representarão um novo impulso para o crescimento da atividade agrícola e para a valorização dos produtos locais.
Quanto à queijada de batata-doce e limão-galego, fica o testemunho de quem a provou: trata-se de um doce verdadeiramente memorável. Uma queijada leve, aromática e surpreendente, digna das melhores tradições da pastelaria açoriana. Se a Mariana aceitar futuras encomendas, não será difícil imaginá-la como presença obrigatória em muitas mesas de festa da ilha.
Há projectos que promovem territórios. Há projectos que valorizam produtos. Mas existem também projectos que promovem pessoas. Mariana Medeiros Piques Cabral é um desses exemplos inspiradores de juventude, trabalho e iniciativa.
E quem teve a felicidade de a observar no terreno sabe-o bem. Ver uma jovem agricultora levantar-se ao amanhecer, cuidar dos animais, retirar leite de uma cabrinha para a produção artesanal de queijo destinado primeiro à avó e depois à família, é testemunhar a continuidade de saberes e afectos que passam de geração em geração.
Momentos como estes recordam-nos a importância de valorizar quem trabalha a terra e de reconhecer o papel fundamental da agricultura na construção de comunidades mais fortes e sustentáveis.
Da Vila de Água de Pau para os Açores e para o mundo, a história de Mariana é a prova de que o futuro da agricultura e da gastronomia açorianas continua a ser escrito por mãos jovens, dedicadas e apaixonadas pela sua terra.
Por: Roberto Medeiros
*Texto inspirado na reportagem — “Um Viajante no Tempo, da Vila de Água de Pau”, para o “The Portuguese Channel TV” de New Bedford, Massachusetts, USA.
