O projeto DESpertar — “O triunfo pelo desporto, educação e saúde no combate ao evidente atraso no desenvolvimento motor induzido pela COVID-19 em crianças e jovens açorianos” — foi realizado pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, a pedido e em parceria com o Governo Regional dos Açores que envolveu um – quase raro por estas terras – compromisso interdepartamental.
Os resultados foram apresentados publicamente em setembro de 2024.
Hoje já não escrevo para ser lido por departamentos oficiais. Escrevo para memória futura.
E escrevo motivado por uma notícia recente sobre um trabalho da Dra. Rita Carvalho, do HDES, que voltou a colocar os Açores na liderança nacional das taxas de obesidade e excesso de peso.
Este não é um alerta sobre títulos, medalhas ou campeões desportivos. É um acautelado aviso sobre a sustentabilidade futura da Região.
O estudo DESpertar deixou sinais sérios sobre aquilo que poderá ser o futuro dos Açores. Os dados recolhidos junto de cerca de cinco mil crianças e jovens açorianos, a maior amostra em estudos desta natureza feita em Portugal, revelam uma realidade preocupante: quatro em cada dez apresentam excesso de peso ou obesidade e uma larga percentagem demonstra baixos níveis de aptidão física, associados a uma perda significativa de competências motoras.
Não tenho a capacidade de viajar até ao futuro antes de agir no presente. Mas consigo, perante dados cientificamente comprovados, antecipar o que aí vem.
Aquilo que, num discurso feliz, classificámos como uma “Pandemia Motora” pode transformar-se, dentro de poucos anos, num dos maiores desafios de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores.
O aumento da obesidade infantil está diretamente associado ao crescimento de doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e problemas músculo-esqueléticos em idades cada vez mais precoces. Isto significa que o Sistema Regional de Saúde poderá enfrentar uma pressão crescente, mais custos com tratamentos prolongados e uma procura cada vez maior de cuidados médicos especializados.
Mas o impacto não se limita à saúde.
Uma população fisicamente menos apta tende também a apresentar menor produtividade, maior absentismo laboral e mais incapacidade precoce. Crianças sedentárias e com reduzida resistência física têm maior probabilidade de se tornarem adultos com limitações funcionais, menos preparados para profissões exigentes e mais vulneráveis a problemas psicológicos associados ao isolamento, à baixa auto-estima e à falta de resiliência.
Nos Açores, este cenário poderá ter consequências económicas profundas. Menor produtividade significa menos competitividade, maior dependência social e um aumento inevitável dos encargos públicos em saúde e proteção social.
Os resultados do DESpertar mostram também que os confinamentos da pandemia alteraram profundamente os hábitos das crianças e jovens: mais tempo de ecrã, menos atividade física, menos prática desportiva e menor socialização.
Perante este retrato, os especialistas defendem uma resposta urgente e integrada. Reforçar a Educação Física nas escolas, apoiar os clubes desportivos, criar programas regulares de atividade física e promover hábitos saudáveis desde a infância deixou de ser apenas uma questão educativa ou desportiva. Passou a ser uma prioridade estratégica para o futuro da Região.
O estudo DESpertar não é apenas um diagnóstico científico. É um aviso claro.
Os Açores precisam que se trate, urgentemente, este problema.
Porque amanhã poderá já ser tarde.
Por: Luis Couto