Um grupo de investigadores da Universidade Médica da Carolina do Sul (MUSC), EUA, desenvolveu recentemente uma nova terapia com células estaminais com uma notável capacidade de reverter a diabetes tipo 1 (DT1) de início recente num modelo murino da doença.
Hongjun Wang, Ph.D., director associado do Programa Piloto do Instituto de Investigação Clínica e Translacional da Carolina do Sul (SCTR) e co-director científico do Centro de Terapia Celular, liderou a equipa. Os co-autores principais Hua Wei, Ph.D.; Judong Kim, Ph.D.; e Wenyu Gou, Ph.D., em conjunto com outros colaboradores, realizaram a maior parte do trabalho para estabelecer estas descobertas, publicadas na revista Molecular Therapy.
Este estudo representa um avanço crucial em relação ao padrão actual de controlo da glicemia através de múltiplas injecções diárias de insulina, e aponta para uma forma duradoura de reprogramar o próprio sistema imunitário. Para os milhões de pessoas que vivem actualmente com diabetes tipo 1, isto pode ser revolucionário.
“Embora as injecções de insulina sejam essenciais para salvar vidas, não impedem os ataques do sistema imunitário e não previnem complicações a longo prazo”, explicou Wang. “Este estudo sugere uma nova forma de tratar a diabetes tipo 1, abordando a causa raiz – a disfunção do sistema imunitário – em vez de apenas controlar a glicemia”.
O tratamento experimental utiliza células estaminais/estromais mesenquimais (CEMs) – células estaminais adultas com capacidade natural de regenerar tecidos e regular o sistema imunitário. Ensaios clínicos anteriores demonstraram que as CEM convencionais podem ajudar a preservar a produção de insulina remanescente em doentes com diabetes tipo 1. No entanto, sem um mecanismo para contrariar a resposta inflamatória severa do organismo, as CEM podem ser sobrecarregadas antes de conseguirem reverter completamente a doença já estabelecida.
Para fortalecer as células, a equipa de Wang modificou geneticamente as CEM para produzirem alfa-1 antitripsina (AAT), uma proteína protectora que actua como um escudo contra a inflamação. Isto cria um efeito cumulativo: as AAT-CEM são agora capazes de proteger as células produtoras de insulina remanescentes no pâncreas e, simultaneamente, interromper a resposta imunitária hiperactiva. O co-autor sénior, Dr. Charlie Strange, enfatizou que esta dupla acção torna o tratamento com AAT-CEMs mais eficaz do que a terapia convencional com células estaminais.
A equipa de Wang dedicou-se então a compreender como funcionava a terapia a nível celular. Ao analisar milhares de células imunitárias individuais, descobriram que a infusão de AAT-CEMs não só suprimia o sistema imunitário hiperactivo, como também o reprogramava activamente.
A terapia funciona reeducando dois lados em conflito do sistema imunitário: as células T reguladoras, que tentam manter a produção de insulina no pâncreas, e as células T citotóxicas CD8+, as atacantes que impulsionam o ataque imunitário e destroem as células produtoras de insulina. Embora a força reguladora esteja sempre presente no pâncreas, o enxame incessante de células atacantes na diabetes tipo 1 sobrecarrega as suas capacidades defensivas, levando à perda de produção de insulina.
No entanto, após o tratamento com AAT-CEMs, Wang e a sua equipa observaram um aumento impressionante no número de células reguladoras e uma diminuição das células atacantes activas, que pareciam ter sido levadas à exaustão pela terapia.
Um aspecto que diferencia este tratamento de outros é a sua duração. Embora as próprias células estaminais sejam eliminadas do organismo em questão de horas ou dias, o efeito de reprogramação imunitária persiste.
“Para impactar ou curar a diabetes tipo 1, as células estaminais em si não precisam de estar presentes”, disse Wang. “Isto significa que, quando a terapia celular é administrada aos doentes, o efeito pode durar entre seis meses a dois anos, conforme foi observado em ensaios clínicos com células estaminais mesenquimais (CEMs) para uma variedade de doenças”. Wang acredita que isto acontece porque as CEM derivadas do tecido adiposo (AAT-CEMs) segregam factores microscópicos que continuam a proteger os órgãos do corpo muito tempo depois de as células desaparecerem.
Embora sejam necessárias mais pesquisas antes que este tratamento possa avançar para ensaios clínicos, as descobertas trazem uma profunda esperança para o futuro do tratamento da diabetes.
“Se os ensaios preliminares forem bem-sucedidos, queremos realizar um grande estudo multicêntrico para a diabetes tipo 1”, disse Wang. “A boa notícia é que existem estudos que indicam que, mesmo que se tenha diabetes tipo 1 há muitos anos, ainda existem células produtoras de insulina a funcionar. Por isso, esperamos poder também aplicar esta técnica a pessoas com diabetes tipo 1 de longa duração”.
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
