Aos domingos, no início do Verão quente romano, eu e os meus amigos deixávamos, manhã cedo, a cidade para irmos à praia, em Óstia.
Viver em Roma era um privilégio, sobretudo numa altura da vida em que as coisas que nos aconteciam na área das diversões nos marcavam pelas novidades; pelos encontros com pessoas que, pela sua juventude e alegria, nos contagiavam.
Pessoas que, pelas suas formas de ser, facilmente se relacionavam com outras, de diferentes idades e, inclusivamente, de várias nacionalidades.
Eram os maravilhosos anos sessenta (os melhores anos de Roma), quando, aos entardeceres romanos, nas esplanadas da famosa Via Veneto, se reuniam os grandes do cinema italiano: produtores, realizadores e atores.
Era um verdadeiro desfile da cultura italiana, onde se integravam os grandes escritores, pintores, escultores e historiadores.
Os tocadores de guitarras romanas vagabundeavam pelas praças em serenatas, às portas dos restaurantes.
Os meus amigos e eu assistíamos, como espetadores de rua, à beleza destas cenas, que bem poderiam ser de romances, e, levados pelo entusiasmo, cantávamos, procurando afinar as nossas vozes, de forma a chamar a atenção para o nosso grupo.
Na altura estavam em voga, entre outras, as canções de Celentano, Morandi e Rita Pavone:
perchè, perche
alladomenica
mi lasci
sempre sola
Ou
per questoanno
non cambiare
stessaspiaggia
stesso mare
Dentro da “piccolamacchina” (um Fiat), os cinco amigos chegaram à praia e, de rompante, deram com um grupo de jovens: cinco italianas e duas argentinas. Sete “deusas” que, pela beleza corporal, não passavam indiferentes aos banhistas.
Os italianos, quando jovens e juntos em grupos, procuram dar nas vistas, e muito mais quando encontram pela frente um grupo de “sereias”. Foi o que aconteceu naquela manhã solarenga na praia de Óstia.
Com graça e simpatia, os meus amigos começaram a entabular conversa com as “sereias” (ainda não se conheciam os seus nomes), até que o Federico me apresentou:
– Este é estrangeiro! Vamos lá ver qual de vós adivinhará a sua nacionalidade?
De grego a marroquino, de francês a mexicano, passaram por todas as nacionalidades, menos a portuguesa. Então, o Fernando adiantou-se aos demais e informou-as da minha nacionalidade. Já então havia uma certa simpatia delas em relação ao grupo.
Apresentámo-nos todos e juntos almoçámos, como se fôssemos conhecidos há muito.
Desfrutando de uma brisa fresca que nos refrescava de um Sol teimosamente escaldante, falámos que, apesar de sermos de diferentes países, éramos iguais, como seres humanos, feitos de sonhos e projetos.
A tarde foi correndo num convívio agradável e, quando menos esperávamos, a noite começou a cair sobre nós, afastando-nos para o regresso a casa.
Das sete jovens, fiquei amigo das duas irmãs argentinas: Enrica e Maria del Carmen. Bonitas e sedutoras, elas tinham “raça” no olhar e ritmo no andar.
Com o seu falar italiano estrangeirado e com uma graça natural, sublinhada por uma alegria contagiante, elas encantavam os seus interlocutores.
Convivendo com elas, fui criando laços de amizade.
Não era difícil que tal acontecesse; tínhamos em comum a paixão por Roma, amávamos a liberdade e as amizades eram importantes para melhor compreendermos a vida.
Um dia perguntei-lhes há quantos anos estavam em Roma e o que as tinha atraído na cidade para permanecerem: a história ou a moda?
Fiquei a saber que nem uma coisa nem outra, embora subjacente ao sonho estivesse a monumentalidade. Mas foi o sonho de passar a lua de mel na cidade dos Papas que arrastou Maria del Carmen e o marido.
A irmã Enrica acompanhou-a. Tudo aconteceu já tinham passado cinco anos!
Disse-lhes:
– Cinco anos?!
– Sim – respondeu-me a Enrica. – A minha irmã casou-se há cinco anos e, com o marido, decidiu passar a lua de mel em Roma. Foi uma lua de mel inesquecível.
Pus-lhe, muito naturalmente, uma questão:
– Onde está o marido?!
Enrica respondeu:
– Passaram aqui um mês maravilhoso e, como ele tinha de regressar ao trabalho, a minha irmã disse-lhe:
– “Querido, vai andando para Buenos Aires que logo, logo chegarei…”
Passaram cinco anos e ela, apaixonada pela história desta Cidade Eterna, está a frequentar a Universidade; ainda não terminou…
Um dia convidei-as para almoçarem comigo no Pensionato Católico della ViadellaScrofa, no palácio onde vivia Sua Eminência o Cardeal Mazzella, Camerlengo da Santa Sé.
No refeitório do pensionato comiam diariamente uns duzentos estudantes, todos rapazes. Era dirigido pelo Padre DelBorn, diretor que, com a colaboração de um grupo de gentis freiras, na cozinha e na sala monástica, serviam às mesas.
A entrada das irmãs argentinas no refeitório, com frescos nas paredes e no teto, provocou um certo desassossego na sala e um movimento unânime de mais de cem cabeças viradas em direção às minhas convidadas.
Enrica e Maria del Carmen vinham vestidas de branco, com tecidos de seda que lhes colavam ao corpo e lhes desenhavam as formas, acentuando-as; com os pescoços esguios e colares de flores, exaltando os decotes generosos.
Era verão, a época em que, em Roma, apetece entrar nos fontanários públicos que rebentam como sinfonias, jorrando águas gélidas.
Sentadas ao meu lado, elas aperceberam-se da inquietação da sala.
Maria del Carmen virou-se para mim:
– Esta é a parte provinciana de Roma!
As freiras cerravam e arregalavam os olhos, enquanto alguns dos italianos, mais corajosos, com o pretexto de me cumprimentar, aproximaram-se da mesa, atirando-lhes piropos.
O desassossego cresceu quando elas se levantaram para sair: assobios em tom de provocação e outros de exaltação à beleza.
Atitudes normais em jovens, nada ofensivas nem desrespeitosas.
Era mais do que evidente: o Padre Diretor chamou-me e, apesar de ser um sacerdote de espírito aberto e com um certo humor, repreendeu-me, pedindo-me que não convidasse mais as argentinas a almoçarem no refeitório, acrescentando:
– Isto não é um restaurante; é um refeitório católico, servido por freiras dedicadas ao serviço do Senhor…
Dois dias após o nosso almoço, recebi um telefonema de Enrica, toda entusiasmada:
– Estou com um grupo de atores secundários do cinema italiano. Falei de ti; eles querem conhecer-te. Amanhã vamos ao Café Greco, às dezasseis horas.
Cheguei lá pontualmente. Antes passei pela Trinità dei Monti, não distante do café, local com tanta história, onde eu costumava passar muitas vezes com uma minha amiga, Teresa Wilmann, filha do Embaixador Polaco em Roma, por quem um dia tombei tontamente em paixão acelerada!
Chegado ali, havia um ar de festa e alegria; alguns dos atores, devido à crise no cinema italiano, tinham sido dispensados.
A Enrica tinha-lhes falado do fado como uma canção melancólica, marcada pela saudade, uma palavra portuguesa inexplicável.Amália, com a sua voz mágica e única, uniu-nos numa relação amistosa.
Uma noite, já tinham passado dois meses do famoso almoço que tinha “revolucionado” tantos olhares, encontrei as duas irmãs na monumental Praça do Povo, numa manifestação musical.
Com enorme alegria e um sorriso de felicidade, a Enrica apresentou-me o jovem engenheiro seu noivo, com quem iria casar daí a dois meses!
Para espanto meu, o jovem italiano era o Federico, um daqueles jovens que se dirigiu à mesa no “almoço do desassossego” e teceu louvores à sua beleza, dizendo-lhe:
– Você é uma deusa.
– Caro João, tu és o culpado desta nossa união!
Perguntei-lhes:
– Onde vão passar a lua de mel?
Ela antecipou-se:
– Mio Buenos Aires querido!
– E a Maria del Carmen?
– A minha irmã volta comigo. O marido espera-a com ansiedade.
Abraçando-os, desejei-lhes as maiores felicidades e confessei-lhes que encontrá-los tinha sido uma dádiva que enriqueceu o meu percurso de vida.
Acrescentei:
– Queridas amigas, nada na vida é por acaso; pode ser que nos encontremos de novo, aqui ou na Argentina! Tudo é possível!
Por: João Carlos Abreu