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Coisas sobre as quais vale a pena escrever

Há dias em que parece difícil encontrar temas verdadeiramente importantes sobre os quais escrever.
As redes sociais impõem o ritmo acelerado da atualidade, as notícias sucedem-se a uma velocidade vertiginosa e aquilo que hoje domina as conversas é rapidamente substituído por outro assunto qualquer. No entanto, de vez em quando surgem acontecimentos que, embora aparentemente distintos, nos ajudam a refletir sobre questões fundamentais do nosso tempo.
Nos últimos dias, encontrei três desses temas: o Ponta Delgada Backyard JIV by Decathlon, as eleições para o Conselho Executivo da Escola Básica Integrada Roberto Ivens e as notícias que dão conta da substituição de trabalhadores por sistemas de inteligência artificial numa grande empresa chinesa.
Comecemos pelo desporto.
O Ponta Delgada Backyard JIV by Decathlon trouxe aos Açores uma prova diferente da maioria das competições habituais. Numa backyard, os participantes não competem apenas contra os outros; competem, sobretudo, contra si próprios.
A cada hora, uma nova volta.
A cada volta, a necessidade de decidir continuar.
Não vence necessariamente o mais rápido ou o mais forte, mas muitas vezes aquele que consegue resistir mais tempo ao desgaste físico e mental. A edição deste ano, fez cair o recorde nacional feminino: 37 voltas, correspondentes a 248 quilómetros.
Nesta modalidade, o último vence, tendo somado 38 voltas.
Vivemos numa sociedade cada vez mais orientada para os resultados imediatos.
Queremos respostas rápidas, sucessos rápidos e recompensas rápidas. Talvez por isso eventos como este sejam tão interessantes.
Recordam-nos que a perseverança continua a ser uma das qualidades mais importantes que podemos desenvolver. Não apenas no desporto, mas também na escola, no trabalho e na vida em geral.
O verdadeiro mérito raramente se constrói num único momento brilhante; constrói-se através da capacidade de continuar quando seria mais fácil desistir.

A segunda reflexão surge a partir das eleições para o órgão executivo da EBI Roberto Ivens, que resultaram na vitória da Lista B.
Mais importante do que o resultado em si, importa sublinhar aquilo que um processo eleitoral representa numa instituição escolar.
As escolas são organizações complexas, onde diariamente se tomam decisões que influenciam centenas de alunos, docentes, assistentes operacionais e famílias. A escolha da liderança não é, por isso, uma questão menor.
Num tempo em que a educação enfrenta desafios cada vez mais exigentes, desde a integração das novas tecnologias à promoção do sucesso escolar, passando pela gestão de recursos e pela valorização dos profissionais, espera-se que os responsáveis eleitos consigam apresentar uma visão clara para o futuro da instituição.
Esta vitória representa uma escolha democrática da comunidade educativa e traz consigo a responsabilidade de corresponder às expectativas daqueles que nela depositaram confiança.

Mas é o terceiro tema que talvez levante as questões mais complexas. As notícias recentes sobre uma grande empresa chinesa que pretende substituir parte dos seus trabalhadores por sistemas de inteligência artificial voltaram a colocar em destaque um debate que está longe de estar encerrado.
A inteligência artificial já faz parte do nosso quotidiano e continuará a transformar profundamente a forma como vivemos e trabalhamos.
Ignorar essa realidade seria um erro. Não o encarar, pura ignorância.
São estas as coisas que nos ajudam a pensar sobre quem somos, sobre os valores que queremos preservar e sobre o futuro que desejamos construir. E, num tempo em que tantas vezes se escreve apenas para reagir ao imediato, talvez seja precisamente essa reflexão que mais falta faz, quando a palavra de quem lidera vale tão pouco, e o imediato toma conta da nossa intelectualidade.
Por: Fernando Marta

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