A pneumonia continua a ser a principal causa infecciosa de morte em todo o mundo, sendo responsável por cerca de 2,5 milhões de óbitos por ano. Nos casos mais graves, muitos doentes necessitam de internamento em unidades de cuidados intensivos (UCI), onde frequentemente precisam de ventilação mecânica para manter a função respiratória.
Apesar dos avanços terapêuticos, continua a existir uma questão que intriga os médicos: porque é que doentes com um quadro clínico aparentemente semelhante apresentam evoluções tão diferentes?
Uma investigação liderada pela Universidade de Cambridge poderá agora fornecer uma resposta. O estudo identificou três subtipos biológicos distintos de pneumonia grave, demonstrando que a resposta inflamatória nos pulmões varia significativamente entre doentes. A descoberta poderá permitir, no futuro, seleccionar tratamentos adaptados às características biológicas de cada paciente, aumentando a eficácia terapêutica e reduzindo complicações.
A investigação foi desenvolvida em doentes internados na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Addenbrooke’s, em Cambridge, e publicada na revista científica Nature Communications. Os investigadores partiram da constatação de que muitos ensaios clínicos dirigidos à inflamação pulmonar produziram resultados contraditórios: alguns mostraram benefícios, enquanto outros revelaram ausência de eficácia ou mesmo efeitos prejudiciais.
Segundo Andrew Conway Morris, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Cambridge e médico intensivista, esta inconsistência poderá dever-se ao facto de todos os doentes serem tratados como se sofressem da mesma doença, quando, na realidade, apresentam mecanismos biológicos distintos.
Em vez de recorrer apenas às análises sanguíneas, exames imagiológicos e critérios clínicos habitualmente utilizados para diagnosticar pneumonia grave, a equipa analisou directamente amostras de fluido pulmonar recolhidas durante procedimentos clínicos. Nessas amostras estudaram as células do sistema imunitário, os mediadores inflamatórios e a actividade genética existente no tecido pulmonar.
Foi esta abordagem que permitiu identificar três padrões biológicos claramente diferenciados.
O primeiro subtipo, responsável por aproximadamente 49% dos casos, caracteriza-se por uma marcada supressão da resposta imunitária, associada a lesões importantes da parede pulmonar e à presença de hemorragias nos alvéolos. Curiosamente, apesar da gravidade das lesões, estes doentes apresentam níveis relativamente baixos de inflamação, o que poderá explicar porque motivo terapêuticas anti-inflamatórias nem sempre produzem benefícios e, em alguns casos, podem até agravar a situação clínica.
O segundo subtipo corresponde a cerca de 23% dos casos e revelou-se o mais favorável. Nestes doentes observou-se uma resposta imunitária equilibrada e mecanismos activos de reparação do tecido pulmonar. Embora apresentassem inicialmente um estado clínico tão grave como os restantes participantes, recuperaram mais rapidamente, necessitando de menos tempo de ventilação mecânica e de internamentos mais curtos nos cuidados intensivos.
O terceiro subtipo revelou-se o mais preocupante. É aquele que mais se aproxima daquilo que tradicionalmente se considera uma pneumonia “clássica”, caracterizando-se por uma inflamação intensa e persistente, acompanhada por uma acumulação de células imunitárias imaturas no pulmão. Estes doentes permaneceram durante mais tempo sob ventilação mecânica e apresentaram períodos prolongados de doença crítica. Os investigadores consideram que este poderá ser precisamente o grupo com maior probabilidade de beneficiar de terapêuticas dirigidas ao controlo da inflamação.
Um dos aspectos mais relevantes do estudo foi verificar que estes três subtipos não podem ser identificados através das análises sanguíneas habitualmente realizadas na prática clínica. Embora todos os doentes apresentassem níveis semelhantes de gravidade, oxigenação e diagnóstico clínico, as diferenças biológicas existentes no pulmão só foram detectadas através da análise detalhada do fluido pulmonar.
Segundo Mark Jeffrey, primeiro autor do estudo, a pneumonia grave não deve ser encarada como uma única doença, mas sim como um conjunto de diferentes entidades biológicas que apresentam manifestações clínicas semelhantes. Esta realidade poderá explicar porque muitos tratamentos desenvolvidos para modular a resposta imunitária falharam em grandes ensaios clínicos, ao serem administrados indiscriminadamente a doentes com mecanismos inflamatórios completamente distintos.
Os investigadores acreditam que, no futuro, será possível desenvolver testes laboratoriais mais simples que permitam identificar rapidamente o subtipo de cada doente logo após a admissão hospitalar. Essa informação poderá orientar a escolha da terapêutica mais adequada, estimulando a resposta imunitária quando esta se encontra diminuída ou, pelo contrário, reduzindo a inflamação quando esta se torna excessiva e prejudicial.
De acordo com Vilas Navapurkar, intensivista da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Addenbrooke’s, uma abordagem personalizada poderá contribuir para diminuir a mortalidade associada à pneumonia grave, reduzir o tempo de permanência nas unidades de cuidados intensivos, diminuir o período de ventilação mecânica e limitar o recurso desnecessário a antibióticos.
Embora sejam necessários novos estudos para validar estes resultados em populações mais alargadas, a descoberta representa um passo importante para uma medicina mais personalizada no tratamento da pneumonia grave. Ao demonstrar que diferentes mecanismos biológicos coexistem sob o mesmo diagnóstico clínico, o trabalho abre novas perspectivas para melhorar o prognóstico de uma das doenças infecciosas mais letais em todo o mundo.
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
