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Os jovens e as nossas tradições (filarmónicas e romarias)

Vivemos numa época em que se fala, frequentemente, do afastamento dos jovens das instituições, das tradições e da vida comunitária. Ouvimos, tantas vezes, que as novas gerações vivem presas aos ecrãs, desligadas das suas origens e indiferentes ao património cultural e espiritual herdado dos seus antepassados.
Contudo, quem observa atentamente a realidade açoriana encontra uma história bem diferente.
Nos Açores, duas instituições seculares continuam a mobilizar centenas e centenas de jovens: as filarmónicas e as romarias quaresmais.
À primeira vista, poderá parecer um fenómeno difícil de explicar. Afinal, o que leva um jovem do século XXI a dedicar horas intermináveis ao estudo de um instrumento musical numa filarmónica? O que o motiva a percorrer dezenas de quilómetros a pé, durante vários dias, rezando e cantando pelas estradas e caminhos da ilha de São Miguel?
A resposta talvez seja mais simples do que parece. Os nossos jovens continuam à procura daquilo que sempre procuraram – pertença, amizade, propósito e significado.
As filarmónicas açorianas são muito mais do que escolas de música. São espaços de encontro entre gerações, locais onde se aprendem valores que nenhum manual consegue ensinar. Ali aprende-se a disciplina, o compromisso, o respeito pelo coletivo e a importância de cada um contribuir para o sucesso de todos.
Numa banda filarmónica não existem protagonistas isolados. Existe uma comunidade que toca em conjunto, que cresce em conjunto e que se orgulha de representar a sua terra.
Da mesma forma, as romarias quaresmais são muito mais do que uma tradição religiosa. São uma experiência humana profunda. Durante uma semana, os romeiros deixam para trás os confortos do quotidiano para viverem uma experiência de fé, sacrifício, reflexão e fraternidade. Caminham juntos, rezam juntos, superam dificuldades juntos. E é precisamente nessa partilha que muitos jovens descobrem algo que a sociedade moderna nem sempre consegue oferecer, um verdadeiro sentido de comunidade.
Talvez seja por isso que estas duas tradições continuam tão vivas. Porque respondem a necessidades humanas que não desaparecem com a evolução tecnológica nem com as mudanças sociais. A necessidade de pertencer a algo maior do que nós próprios. A necessidade de construir laços verdadeiros. A necessidade de encontrar um propósito.
Há ainda outro aspeto que merece reflexão. Tanto as filarmónicas como as romarias são escolas de identidade açoriana. Através delas, os jovens conhecem a história das suas freguesias, das suas famílias e das suas ilhas. Aprendem que fazem parte de uma herança coletiva construída ao longo de séculos. E compreendem que a modernidade não exige o abandono das raízes, pelo contrário, exige que saibamos valorizá-las e transmiti-las às gerações futuras.
Num tempo em que tantas comunidades procuram formas de envolver os seus jovens, os Açores possuem um exemplo extraordinário de vitalidade cultural e espiritual. As filarmónicas e as romarias não sobrevivem por nostalgia.
Sobrevivem porque continuam a fazer sentido. Porque continuam a responder às inquietações, aos sonhos e às necessidades dos jovens de hoje.
Quando vemos uma banda filarmónica repleta de crianças e adolescentes ou um grupo de romeiros onde abundam rostos jovens, percebemos que o futuro destas tradições está longe de estar ameaçado. Pelo contrário. Está a ser construído, passo a passo e nota a nota, pelas novas gerações.
E talvez essa seja uma das maiores lições que os Açores podem oferecer ao mundo contemporâneo, quando uma tradição consegue transmitir valores, criar comunidade e dar sentido à vida das pessoas, ela não envelhece. Renova-se. E continua a caminhar, de geração em geração, com a mesma força de sempre.
Por: Humberto Bettencourt

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