Na vetusta Igreja de Nossa Senhora da Estrela, na Ribeira Grande, foi apresentado recentemente a mais nova obra literária do padre Carlos Simas, Ouvidor da Ribeira Grande. Intitulado Emmanuel: uma busca de sentido num mundo em sombras, o livro revelou-se muito mais do que um acontecimento cultural, afirmou-se como um convite à contemplação, à reflexão profunda e ao reencontro com as interrogações que habitam, desde sempre, o coração humano.
Num tempo marcado pela vertigem dos dias, pela dispersão dos sentidos e por uma inquietação silenciosa que atravessa a existência contemporânea, a obra daquele sacerdote ergue-se como um espaço de pausa. Uma pausa fecunda, capaz de devolver ao leitor a escuta do próprio coração, a coragem de revisitar as perguntas fundamentais e a sensibilidade para reconhecer os sinais discretos de uma presença que, mesmo velada, continua a acompanhar cada passo da caminhada humana.
Mais do que uma narrativa, Emmanuel apresenta-se como uma peregrinação interior. Ao longo das suas páginas, acompanha-se a jornada de um jovem que procura desvendar o mistério de Deus e perscrutar o sentido último da vida. É um caminho tecido de encontros e desencontros, de dúvidas que inquietam e descobertas que iluminam, de noites densas e amanheceres inesperados. Uma travessia onde a própria procura se transforma em lugar de revelação.
A apresentação da obra esteve a cargo da jornalista Margarida Pereira, que confessou ter escrito o prefácio com um profundo sentido de responsabilidade, mas também com a alegria que nasce do encontro com uma escrita de rara qualidade. Na sua intervenção, observou que existem livros que lemos e outros que, de forma mais misteriosa, nos Lêem por dentro. Para a jornalista, Emmanuel pertence a essa rara categoria de obras que não terminam quando se fecha a última página, permanecendo na memória e na consciência do leitor, interpelando-o e acompanhando-o muito para além da leitura.
Margarida Pereira revelou ainda que, numa primeira aproximação, leu o livro com sofreguidão, movida pelo desejo de chegar ao fim da história. Mais tarde regressou às suas páginas com outro olhar, mais lento e contemplativo, detendo-se em cada personagem, em cada silêncio e em cada palavra. Foi então que compreendeu que Emmanuel é, acima de tudo, uma peregrinação da alma, ou seja, um convite a parar, a escutar e a reconhecer que talvez a verdade mais profunda resida na coragem de permanecermos plenamente humanos, habitados pelas nossas sombras, mas também pelas nossas luzes.
Entre os vários momentos da narrativa, destacou particularmente a jornada de Elias, personagem cuja busca lhe pareceu revestida de uma dimensão universal. Na sua luta por encontrar sentido, no confronto com o aparente silêncio de Deus e na serenidade com que atravessa as suas inquietações, encontrou um reflexo das perguntas que acompanham tantos homens e mulheres. Sentiu, confessou, que caminhava ao lado de Elias, como se cada capítulo recordasse que nem tudo precisa de ser compreendido de imediato e que, muitas vezes, é precisamente no silêncio que as verdades mais essenciais se deixam encontrar.
O próprio título encerra a chave interpretativa de toda a obra. Emmanuel, expressão bíblica que significa “Deus connosco”, surge simultaneamente como horizonte e promessa. A narrativa inicia-se envolta pelas sombras da ausência e da interrogação, mas avança, pouco a pouco, para a descoberta de uma presença discreta, persistente e transformadora. Entre a palavra e o silêncio, entre a sombra e a luz, desenha-se um itinerário espiritual onde a fragilidade humana se encontra com a possibilidade da transcendência.
A génese deste livro remonta a vários anos de reflexão e maturação. O resultado é uma obra que se move harmoniosamente entre a literatura, a filosofia e a espiritualidade, sem jamais ceder à tentação de respostas fáceis. Pelo contrário, abre caminhos de reflexão e desafia o leitor a reconhecer-se nas inquietações das personagens, nas suas perguntas e nos seus anseios mais profundos. Cada capítulo torna-se um espelho discreto onde se refletem fragmentos da experiência humana universal.
A sessão foi enriquecida por momentos musicais proporcionados pelo grupo Laudum Dei, formação da qual o padre Carlos Simas faz parte. A música entrelaçou-se delicadamente com a palavra escrita, criando uma atmosfera de recolhimento e beleza que aprofundou o significado do encontro. Entre melodias e excertos literários, a noite adquiriu contornos de experiência estética e espiritual, como se as diversas expressões da arte convergissem para apontar uma realidade maior e mais profunda.
Publicado pela editora Alma Letra, Emmanuel: uma busca de sentido num mundo em sombras sucede a Chovem Estrelas, a primeira incursão literária do autor. Se nessa obra inaugural já se pressentia uma escrita marcada pela sensibilidade poética e pela contemplação, neste novo livro essa identidade surge mais amadurecida e consistente, revelando uma voz literária que procura habitar as fronteiras subtis entre o visível e o invisível, entre a experiência humana e o mistério que a transcende.
Num mundo frequentemente descrito pela fragmentação das certezas, pelo excesso de ruído e pela escassez de silêncio, a obra do padre Carlos Simas ergue-se como um sereno apelo à interioridade. Não oferece fórmulas nem atalhos para sermos felizes. Oferece companhia e um convite para deixarmos o nosso pensamento voar e talvez deixar cair algumas lágrimas como aconteceu ao autor. Como uma pequena chama acesa na noite, este livro acompanha o leitor na sua própria busca e recorda-lhe que, mesmo nas horas mais densas de sombra, existe sempre uma luz capaz de orientar os passos e revelar, no íntimo da existência, a discreta presença do Deus que caminha com o homem.
António Pedro Costa
