O ambiente hospitalar pode, por vezes, parecer assustador para os mais pequenos, especialmente se tiverem de vir de ilhas que não têm hospital. Por isso, os alunos da Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores decidiram criar o projecto ‘Uma Bata, Um Sorriso’, para tentar combater esta situação. Ao Correio dos Açores, David Fernandes, coordenador do projecto e Patrícia Tavares, professora e enfermeira no Serviço de Pediatria, dizem como nasceu este projecto, que importância tem para os alunos, quais são os objectivos do mesmo e que outros projectos estão a ser desenvolvidos. Equipas como o Marítimo, Antigos Alunos, GDCP Livramento, União Micaelense, São Roque, Santa Clara e Santo António já ajudaram com camisolas.
Correio dos Açores – Em que consiste o projecto e de onde nasceu esta ideia?
David Fernandes – O projecto ‘Uma Bata, Um Sorriso’ surge de uma ideia apresentada na Unidade Curricular de Enfermagem da Criança e Adolescente criança, pela professora Patrícia Tavares (enfermeira no serviço de Pediatria), e de um projecto desenvolvido pelo Serviço de Pediatria do HDES em 2022, inspirado pelo projecto #LasBatasMásFuertes, que consistiu na adaptação de camisolas de clubes de futebol em batas hospitalares no Serviço de Pediatria do Hospital Divino Espírito Santo (São Miguel, Açores), em colaboração com Clubes nacionais e regionais, com posterior elaboração de um vídeo de apresentação, em parceria com o Clube Futebol Santa Clara.
Após, propusemos à professora, porque não fazer com as equipas regionais. Falamos com a nossa colega Inês, uma vez que tem alguns conhecimentos, para tentarmos arranjar as camisas e depois chegamos à conclusão que em vez de ser um projecto de uma ou duas pessoas, passou a ser um projecto da turma toda. O objectivo é transformar as t-shirts em batas e levá-las às crianças da pediatria. Neste momento já fomos ao hospital de Ponta Delgada e ao hospital da Terceira, estando a tentar ir ao do Faial e tentar humanizar aqueles cuidados que eles e tentar que o ambiente que seja mais confortável para eles também.
E qual é que tem sido a principal dificuldade para vocês nesse projecto?
A falta de conhecimentos, muitas vezes. E às vezes há reticências também dos clubes ainda a darem equipamentos. Muitas vezes fazem-lhes falta, para além de não termos muitos clubes a quem pedir.
Como se poderia chamar a atenção dos clubes?
Nós já enviamos um e-mail às associações de futebol, tanto seja da Horta como de Ponta Delgada, e não tivemos qualquer tipo de resposta por parte deles. Mandámos também para as associações de futebol do continente. A única resposta que recebemos foi só da parte do Benfica.
Quem suporta este projecto é a turma toda, tanto seja a transformação das t-shirts, como a estampagem. Embora a senhora que faça a transformação das camisas, a senhora Isa Amaral, não nos cobre nada, mas uma coisa é a gente transformar vinte camisas, outra coisa é, neste momento, a gente já transformou cento e dez camisas e torna-se um bocadinho complicado não dar um incentivo a essas pessoas para continuarem.
Tem havido adesão por parte dos alunos?
A turma toda, no início, cada aluno trouxe a sua t-shirt. E depois também tivemos o apoio das equipas de trail que também nos forneceram imensas estes t-shirts. A gente vai aproveitando tudo, desde que o material seja possível de ser transformado, e que tenha as especificações nas t-shirts e nos pijamas do hospital que têm de ser cumpridas e a gente consegue transformar.
Que especificações?
Tem que ser t-shirts de tecido, têm que ser lavadas a altas temperaturas e têm de ter algumas especificidades de forma a cumprir os critérios de controle de infecção. Não podem ser t-shirts de algodão, e convém serem t-shirts de tamanhos pequenos, como Small ou o X-Small, para tentar chegar a um maior número de pessoas.
Que importância tem este projecto?
O projecto permite-nos não só dar visibilidade ao cuidado que é prestado às crianças e tentar confortar num momento em que elas mais precisam, mas também tentar fazer com que se sintam um bocadinho mais em casa.
Uma pessoa de Rabo de Peixe que consiga vestir uma camisa do Rabo de Peixe sempre simboliza algo diferente ou de Santo António também pode vestir a sua t-shirt.
Por exemplo, muitas das situações que acontecem são de crianças transferidas de outras ilhas para São Miguel, que ficam afastadas, e é um conforto.
Também tem o objectivo que combater o medo que existe da bata branca?
Também consegue combater, sim, embora a bata branca seja vista como o profissional de saúde, e o profissional de saúde não tem indicações, ainda, para usar esse tipo de material. São mesmo feitas apenas para as crianças, para que elas usem e para dar um pouco de conforto mesmo.
Também serve para quebrar aquele estigma onde as crianças têm medo de fazer certos exames, como TAC e ecografias, as crianças conseguem levar estas t-shirts, tornando-as assim um pouco mais confortáveis.
E pode ser aplicado aos profissionais de saúde para se combater o medo da bata branca?
A questão é que a bata branca, e o branco em si, é sinónimo de limpeza, já é algo que faz parte dos padrões de qualidade dos enfermeiros. Eu não sei até que ponto é que a gente consegue mudar este estilo. Embora na pediatria, os enfermeiros da pediatria consigam ter umas camisas mais coloridas e outras batas, mas eu não sei até que ponto é que se consegue totalmente mudar.
Que outros projectos podem surgir de modo a que as crianças se sintam mais confortáveis no hospital?
Tudo o que nos foi apresentado até o momento, foi esta parte das batas felizes, mas tudo o que seja para se humanizar os cuidados, os cuidados que se têm com as crianças, projectos a nível de psicologia mesmo para ajudar também os pais, são projectos que a gente também está a desenvolver.
Temos um projecto que vai sair brevemente, em Outubro, que é o Positivamente. Vamos falar sobre a saúde mental, que é cada vez mais um tema actual, principalmente para os pais e para as pessoas. Depois do Covid, nunca se falou tanto de saúde mental como se vai falar agora. E também podemos dizer que contamos a com a participação da Universidade, a participação da Unidade de Saúde da Ilha e do Serviço de Pediatria, que têm sido sempre impecáveis para nos ajudar também.
Estratégias como estas são essenciais para humanizar a estadia da criança no hospital
A importância para o projecto e centros de saúde
Patrícia Tavares (Professora/Enfermeira) – Como sabem, a hospitalização em idade pediátrica assume-se como um desafio para os profissionais de saúde que cuidam dessas crianças. Importa desenvolver estratégias que minimizem a ansiedade destas e tornem a experiência o mais positiva possível, como previsto na Carta da Criança Hospitalizada.
Tendo em conta que o mundo do futebol é apreciado pela maioria das crianças de diferentes idades, a adaptação das camisolas de clubes de futebol em batas hospitalares visa tornar o dia-a-dia das crianças hospitalizadas mais divertido, como se estivessem num verdadeiro jogo de futebol, o que os aproxima da sua normalidade.
Estratégias como estas são essenciais para humanizar a estadia da criança no hospital, e muitas delas que naturalmente se baseiam em experiências do dia a dia das crianças. Muitas vezes, importa apelar à criatividade, tendo por base o mundo infantil, podendo utilizar estratégias simples e económicas, o que facilita a concretização de diversas ideias.
Tudo o que concorrer para minimizar o medo das crianças face aos profissionais de saúde e seus cuidados, facilitará também a sua envolvência em qualquer um dos ambientes de saúde, sejam hospitais ou centro de saúde.
Que importância tem para os estudantes e qual a sua adesão?
Antes de mais, salvaguardar que este grupo de estudantes está de parabéns, pois após lhes ter sido apresentado o vídeo do projecto desenvolvido pelo serviço de pediatria em sala de aula (https://www.youtube.com/watch?v=kZ8jP7Q6aik), como exemplos de humanização em enfermagem pediátrica, sugeriram autonomamente o desenvolvimento da continuidade do projecto, mas num âmbito mais local. Daí até se terem mobilizados com toda a turma, conseguido várias camisas, quem costurasse as batas, foi um ápice. Desde esse momento, como já explicaram, foram envolvendo cada vez mais pessoas e expandido a sua ideia inicial, com a possibilidade de envolvermos as outras ilhas já referidas.
Para os estudantes do ensino superior, o envolvimento em acções de voluntariado e associativismo, desenvolve desde logo competências essenciais não só à sua vida pessoal, mas também profissional. Na área da saúde, são desenvolvidas soft skills, essenciais à profissão a que se propõem, que são potenciadas pelo espírito de equipa, partilha entre colegas, busca de soluções.
Saliento que a Escola Superior de Saúde da Uaç, através do seu Presidente e do seu corpo docente, também promove, e está sempre disponível para colaborar e envolver os estudantes em actividades/projectos de âmbito social.
É verdadeiramente um orgulho poder colaborar com estes estudantes, futuros colegas, pelo envolvimento, empenho e dedicação com que se envolveram com o projecto.
Frederico Figueiredo
