Corria o ano de 1981, quando a Ribeira Grande viveu um dos momentos mais marcantes da sua história contemporânea. A então vila era elevada à categoria de cidade, num reconhecimento que ultrapassava o simbolismo administrativo para afirmar a importância histórica, económica e social do segundo concelho da ilha de São Miguel. A cerimónia contou com a presença do então Primeiro-Ministro, Pinto Balsemão, que recebeu das mãos do presidente da Câmara Municipal, Artur Martins, a chave da nova cidade, num gesto carregado de significado e de esperança para o futuro.
Quatro décadas e meia depois, é justo perguntar: valeu a pena? A resposta só pode ser afirmativa.
A Ribeira Grande transformou-se profundamente. Quem conheceu a realidade dos primeiros anos da década de oitenta recorda bem as dificuldades no abastecimento de água, as lixeiras a céu aberto, as limitações ao nível da habitação e as carências de infraestruturas básicas. Hoje, esse cenário pertence ao passado.
Ao longo dos sucessivos mandatos autárquicos, liderados por Hermano Mota, António Pedro Costa, Ricardo Silva e Alexandre Gaudêncio, o concelho conheceu um desenvolvimento assinalável. Cada um, à sua maneira, deixou uma marca no crescimento da cidade e das suas freguesias, contribuindo para melhorar a qualidade de vida das populações.
O abastecimento de água foi regularizado, permitindo que um serviço essencial chegasse com maior qualidade e segurança às famílias. As antigas lixeiras desapareceram, substituídas por um sistema moderno de recolha e encaminhamento dos resíduos para aterro sanitário, refletindo uma crescente preocupação ambiental.
Também a habitação conheceu uma evolução significativa. Foram construídos inúmeros fogos, permitindo responder às necessidades de muitas famílias e acompanhando o crescimento populacional do concelho.
Paralelamente, o comércio reinventou-se. As antigas lojas deram lugar a espaços mais modernos e competitivos, acompanhando novas exigências de consumo e criando maior dinamismo económico.
Mas talvez uma das maiores revoluções tenha ocorrido no turismo e na cultura. A Ribeira Grande soube descobrir o valor do seu património natural, arquitectónico e humano. Multiplicaram-se os pontos de visitação, os eventos culturais, a animação urbana e a promoção da identidade local.
O aparecimento do Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas constituiu um verdadeiro marco na afirmação cultural dos Açores, projetando a Ribeira Grande para além das fronteiras da Região. A este juntou-se o Museu do Franciscanismo, enriquecendo uma rede museológica já diversificada e consolidando a cidade como um importante polo cultural açoriano.
Hoje, a cultura deixou de ser apenas complemento. É parte integrante da identidade e da economia da Ribeira Grande.
Contudo, nem tudo são motivos de satisfação.
Existe um entrave que continua a limitar o potencial de crescimento do concelho: o Plano Diretor Municipal. O PDM permanece praticamente inalterado há cerca de duas décadas, revelando-se desajustado das necessidades actuais. Um instrumento que deveria orientar o desenvolvimento transformou-se, demasiadas vezes, num fator castrador da iniciativa privada, do investimento e da própria expansão urbana.
Num tempo em que os concelhos competem pela captação de empresas, de investimento e de população qualificada, a Ribeira Grande não pode ficar presa a um modelo de planeamento que já não responde aos desafios do presente.
Ser o segundo concelho da ilha em população não basta. É necessário afirmar-se também como referência económica, criando condições para que empresas invistam, jovens permaneçam e novos projetos encontrem espaço para crescer.
A Ribeira Grande construiu, ao longo dos séculos, um nome respeitado. Foi protagonista em momentos decisivos da história micaelense e açoriana. Essa herança obriga a continuar a olhar para o futuro com ambição.
Celebrar a elevação a cidade é recordar um passado de conquistas, mas também renovar um compromisso. O desenvolvimento não é uma meta alcançada; é um caminho permanente. E a Ribeira Grande tem todas as condições para continuar na linha da frente do progresso social, cultural e económico dos Açores.
Porque as cidades que honram o seu passado são aquelas que nunca deixam de construir o seu futuro.
Por: António Pedro Costa