O Cônsul-Geral de Tonga em Portugal, Anthony Bailey, realizou uma visita oficial aos Açores com o intuito de estreitar a cooperação diplomática e institucional entre as duas realidades insulares. Em entrevista ao ‘Correio dos Açores’, o diplomata destacou que os dois territórios partilham “as mesmas inquietações”, assumindo o compromisso de “aproximar os nossos povos e arquipélagos de maneira robusta e significativa”. Durante a sua passagem pela Região, o responsável avançou a intenção de criar um instituto para as relações entre Portugal e a Oceânia, admitindo: “Vejo com muito bons olhos a possibilidade de a sediar nesta Região Autónoma”. A fechar, Anthony Bailey manifestou ainda o desejo de actuar como “um embaixador informal dos Açores no Pacífico”.
Correio dos Açores – Qual é o principal objectivo desta visita oficial aos Açores?
Anthony Bailey (Cônsul-Geral Honorário de Sua Majestade o Rei de Tonga na República Portuguesa) – O propósito central desta deslocação prende-se com a minha nomeação como Cônsul-Geral de Sua Majestade o Rei em Portugal, a primeira representação diplomática do arquipélago polinésio no país. O foco principal desta missão é estreitar a cooperação entre ambas as nações. Esta aproximação ganhou força quando o Estado português acolheu a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, em Lisboa, momento em que os dois lados intensificaram a colaboração em áreas estratégicas como as alterações climáticas, a economia azul e o combate ao crime marítimo.
Nesse contexto, assumi o compromisso de ligar as diferentes regiões do território nacional a Tonga. Sendo um profundo admirador dos Açores, cujas nove ilhas já tive a oportunidade de visitar, identifiquei inúmeras semelhanças entre as duas realidades.
O Reino e o arquipélago açoriano partilham uma população semelhante, entre os 200 mil e os 250 mil habitantes, e possuem extensões marítimas equivalentes. Embora a nossa superfície terrestre seja reduzida, somos, na verdade, grandes nações e territórios oceânicos.
Existe, portanto, um paralelismo directo entre estas ilhas no Atlântico e o país no Pacífico Sul. Ambos partilham comunidades de dimensão idêntica e zonas económicas exclusivas comparáveis, com cerca de um milhão de quilómetros quadrados de oceano cada. Apesar de localizados em pontos geográficos opostos, os desafios que enfrentamos do nosso lado do globo são muito semelhantes aos que se vivem por cá.
Adicionalmente, recordo que os dois Estados estabeleceram relações diplomáticas em 2008. Dentro de poucas semanas, o novo Embaixador de Portugal apresentará as suas cartas credenciais ao monarca em Nuku’alofa, a nossa capital. Este reforço de laços coincide ainda com a eleição portuguesa como membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027-2028, impulsionando um diálogo acrescido em diversas frentes.
E é importante estar cá fisicamente e estabelecer contacto com algumas instituições dos Açores?
Sim. Como referi, tenho uma profunda ligação a esta Região Autónoma e conheço cada uma das suas ilhas. Compreendo perfeitamente a grandiosidade deste território, pelo que realizar esta visita oficial em representação do meu rei, num momento de óbvia aproximação entre as duas nações, é de um valor inestimável.
A interacção com as mais altas instâncias regionais como o Governo, o Representante da República, a Assembleia Legislativa, além de vários presidentes de município, abre a oportunidade de definir, concretamente, em que áreas podemos avançar.
Este encontro surge também num momento muito particular: enquanto o arquipélago celebra os 50 anos da sua autonomia, o meu país assinala os 150 anos da sua Constituição, que é a mais antiga de todo o Pacífico, incluindo a da Austrália, da Nova Zelândia e da Papua-Nova Guiné. Estes laços democráticos e parlamentares constituem, portanto, outra frente que podemos celebrar e desenvolver conjuntamente.
Além disso, partilhamos um passado ligado ao mar. Da mesma forma que a Região Autónoma promove com orgulho o seu património cultural e marítimo, também nós possuímos uma herança semelhante. Somos, de facto, a única nação do Pacífico Sul que nunca foi colonizada. À semelhança dos Açores, temos uma história singular, paisagens únicas e uma narrativa própria para apresentar ao mundo.
E estes pontos em comum que identificou servem de base para criar laços de cooperação?
Claro. Ao aproximar-me do fim desta visita, tenho a certeza de que existe um enorme desejo por parte dos açorianos em estreitar relações com o Pacífico, partilhar conhecimento e promover intercâmbios académicos e institucionais.
Foi um enorme prazer visitar, na Horta, a Escola do Mar e o Instituto OKEANOS, que realizam um trabalho incrível. O que desenvolvem aqui tem relevância directa para as nossas iniciativas em Tonga, pelo que já estamos a discutir formas de ligar estas instituições.
Tenho também muito interesse em criar plataformas que aproximem Portugal, os Açores e a Madeira do público do Pacífico, promovendo o mesmo no sentido inverso. Assim, uma das metas que pretendo alcançar, em parceria com outros países da minha terra, é a criação de um instituto para as relações entre Portugal e a Oceânia, com sede em território nacional.
Se há um local ideal no país para acolher uma estrutura dedicada à promoção destes laços, vejo com muito bons olhos a possibilidade de a estabelecer nesta Região Autónoma, por ser o território mais próximo dos desafios que partilhamos. Esta iniciativa de aproximar a Oceânia de Portugal e dos seus arquipélagos é um projecto muito nobre e, em todas as conversas que mantive com as altas entidades destas magníficas nove ilhas, ficou claro que este é também um desejo local.
Outro aspecto em agenda prende-se com as dinâmicas governamentais. Em 2022, recebemos a visita do nosso então Primeiro-Ministro e do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Após as eleições legislativas subsequentes, que conduziram a um novo executivo, importa notar que nunca houve uma visita real de Tonga a Portugal.
Por isso, estou a preparar o terreno para viabilizar uma deslocação oficial de alto nível, idealmente com a presença da família real. Se essa visita se concretizar, não tenho a menor dúvida de que incluirá os Açores no roteiro. Conheço a paixão que o Rei Tupou VI e que o Príncipe Herdeiro nutrem pelos assuntos marítimos e, além de ficarem rendidos à hospitalidade açoriana, ficariam impressionados com o trabalho que aqui está a ser desenvolvido.
A visita incluiu também reuniões com o OKEANOS e com a Associação para o Desenvolvimento e Formação do Mar dos Açores. Em que áreas ligadas ao oceano vê maior potencial de cooperação?
Destacaria, desde logo, as alterações climáticas e a monitorização do mar profundo, especialmente no que toca à sensibilidade exigida pelas actividades de perfuração e mineração subaquática. Outra frente essencial é a economia azul, explorando formas de potenciar e desenvolver este sector em benefício de ambos os territórios.
Há ainda uma vertente importante que sobressaiu nas reuniões que mantive: o combate ao crime marítimo. Muitas vezes esquecemo-nos de que, a par de todas as oportunidades positivas que o mar oferece, existem também dinâmicas negativas.
O desafio passa por perceber como é que pequenos territórios insulares podem gerir e prevenir estas ameaças. Considero que as soluções em desenvolvimento nestas ilhas podem ter aplicação directa na nossa realidade e na de outros estados.
Falando agora um pouco sobre o vosso território, sabemos que se trata de um país vulnerável às alterações climáticas, à subida do nível do mar e a fenómenos naturais extremos. Quais são os desafios que actualmente mais preocupam o Reino?
Gostaria de começar por notar que o nosso arquipélago é composto por 177 ilhas. No entanto, partilhamos uma zona económica exclusiva equivalente, com cerca de um milhão de quilómetros quadrados de oceano cada. Portanto, o desafio fundamental é idêntico: como é que territórios insulares, que carregam a enorme responsabilidade de gerir extensões marítimas tão vastas em diferentes pontos do globo, podem proteger o património que têm?
A questão central passa por mitigar o impacto das alterações climáticas e, em conjunto, dar maior visibilidade às necessidades dos pequenos estados insulares nos grandes fóruns internacionais.
A título de exemplo, teremos em breve a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que este ano será dedicada precisamente ao desenvolvimento das nações insulares. Já estamos a colaborar com Portugal e outros parceiros na definição dessa agenda, de modo a garantir que as prioridades e as dificuldades partilhadas pelas nossas regiões estejam no topo do debate global.
A economia de Tonga depende de sectores como os serviços, a agricultura, as pescas, o turismo e as remessas da diáspora. Quais são actualmente as prioridades económicas do Reino?
As nossas prioridades focam-se no desenvolvimento da agricultura e do turismo. Mais uma vez, a ligação com os Açores torna-se evidente, dado o excelente trabalho que tem sido feito por cá no desenvolvimento do produto turístico.
O vosso crescimento assenta precisamente em pilares que partilhamos: os oceanos, a vida selvagem, a beleza natural e uma gastronomia de excelência. É exactamente nessas áreas, potenciando os nossos recursos naturais e produtos locais, que estamos fortemente empenhados em investir.
Sendo Tonga uma monarquia constitucional com uma história política singular, como descreveria hoje o papel da monarquia e das instituições democráticas na vida do país?
O nosso país é único no Pacífico por ser a única monarquia indígena da zona. Embora a Austrália, a Nova Zelândia e a Papua-Nova Guiné também sejam monarquias, partilham o chefe de Estado britânico. Nós possuímos uma linhagem própria que recua mais de mil anos.
A monarquia é fundamental porque, em grande medida, foi graças a ela que o território não sucumbiu à exploração colonial, ao contrário do que aconteceu com os restantes estados vizinhos. Além disso, a instituição real impulsionou a criação da primeira Constituição do Pacífico, que este ano celebra o seu 150º aniversário, dotando o Reino de um quadro jurídico e institucional pioneiro.
O monarca actual é um soberano constitucional, e não um líder absoluto, sendo profundamente respeitado no país e em toda a Oceânia. A instituição funciona como oisímbolo vivo da nossa longa história, sendo indissociável da própria identidade da nação.
A Rainha também desempenha um papel muito activo no acompanhamento de diversos projectos sociais em todo o território.
Por sua vez, o Príncipe Herdeiro assume actualmente as funções de Ministro dos Negócios Estrangeiros, integrando a sua preparação para a chefia do Estado. Sendo uma democracia parlamentar e uma monarquia constitucional, este modelo tem assegurado a coesão do povo e a preservação da nossa matriz identitária.
Durante a minha passagem pela Horta, notei um cartaz que recordava a passagem do Capitão James Cook pelos Açores, descrevendo os locais como um povo incrivelmente caloroso e acolhedor. Isto fez-me reflectir, pois foi o mesmo navegador que, ao desembarcar no nosso arquipélago, o baptizou informalmente como “As Ilhas Amigáveis” (The Friendly Islands), designação pela qual ainda hoje somos conhecidos. É curioso notar que, na maioria dos outros locais por onde passou, o explorador não foi recebido com a mesma simpatia que encontrou quer nos Açores, quer em Tonga.
É precisamente este tipo de ligação humana que pretendo promover. Os Açores e o Reino de Tonga são territórios muito semelhantes, embora situados em pontos opostos do globo, e partilhamos exactamente as mesmas inquietações.
Os problemas de erosão costeira que afectam algumas das vossas ilhas espelham a nossa realidade. Da mesma forma, a necessidade de proteger o fundo do mar contra a exploração e a perfuração desenfreada é um desafio crucial que nos une.
Outra vertente com forte potencial de desenvolvimento é o turismo religioso. Cerca de 99% da nossa população é cristã, tendo-se assinalado recentemente o bicentenário da chegada do cristianismo ao Reino.
Recordo que, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em Portugal, contámos com uma comitiva de 104 peregrinos que viajaram de Tonga, tendo sido o grupo que percorreu a maior distância para participar no evento. O objectivo agora passa por incrementar o fluxo deste segmento turístico para o território português. Por fim, no plano académico, estamos empenhados em instituir bolsas de estudo em parceria com instituições de ensino superior nacionais.
Após esta visita aos Açores, que ideias gostaria de ver mais desenvolvidas nas relações entre Tonga, Portugal e, em particular, com os Açores?
A dificuldade em responder a essa questão reside no facto de nutrir um carinho imenso por cada uma das nove ilhas. Guardo recordações felizes e calorosas de todas elas. Poderia falar sobre os momentos divertidos no Corvo, as paisagens deslumbrantes das Flores, ou de ter provado os melhores vinhos na Graciosa e no Pico. Cada ilha possui algo de único. Nas reuniões que mantive com as diversas autoridades e presidentes de município, ficou claro que existem inúmeras frentes de ligação possíveis.
Podemos promover o contacto entre escolas de São Jorge e da ilha de Tongatapu, estabelecer parcerias académicas a partir da Horta, aproximar o sector agrícola local da nossa realidade ou conectar as ilhas do norte de Tonga a São Miguel através de projectos ligados ao mar. A nível institucional, há também espaço para estreitar os laços parlamentares. São muitas as vertentes de cooperação que podemos explorar, e algumas já começaram a desenhar-se.
Quando inaugurei a primeira missão diplomática em Portugal, confesso que não tinha plena noção de como seriam estas ligações. Contudo, surpreendentemente, tenho encontrado muitos cidadãos portugueses e açorianos que já visitaram o meu país. O vosso anterior Representante da República, Pedro Catarino, é um desses exemplos. Além disso, há deputados com essa ligação e até os responsáveis pelo treino da selecção feminina de râguebi de Portugal são de Tonga.
Anualmente, recebemos cerca de 150 portugueses no nosso arquipélago, o que é um número expressivo se considerarmos as 28 horas de voo que nos separam.
O meu objectivo é atrair mais cidadãos de Tonga a Portugal e, especificamente, trazê-los a esta Região Autónoma. Paralelamente à representação do meu país, sinto o desejo de ser um embaixador informal dos Açores no Pacífico, encontrando formas de aproximar os nossos povos e arquipélagos de maneira robusta e significativa.
Ao longo da minha estadia, ficou evidente que esta aproximação é desejada e muito bem-vinda por todos. Por essa razão, vamos empenhar todos os esforços nesse sentido, desde as mais altas instâncias do Governo Regional até ao cidadão comum.
Diogo Simões Pires
