A reestruturação da LOTAÇOR é a única forma de garantir o futuro da empresa e do sector. Fomos saber com o Conselho de Administração, o que está programado para garantir o futuro da empresa. A LOTAÇOR conta com 195 trabalhadores distribuídos pelas nove ilhas dos Açores, o que na época alta, normalmente de Junho a Novembro, aumenta para cerca de 210 trabalhadores com contratos de seis meses. A empresa gere neste momento 35 portos de pesca, 14 núcleos de pesca, 44 gruas, 32 guinchos, 10 gruas de descarga de atum, 6 pórticos autoportantes e 770 armazéns de aprestos. Gere igualmente a rede de frio, contando com 4 entrepostos de grande dimensão e 3 pequenos, garantindo capacidade de armazenagem em congelação de cerca 5.700 toneladas, 140 toneladas de capacidade de congelação em salmoura, 105 Toneladas de capacidade de congelação em túnel e 900 toneladas de conservação em refrigerados. Mantém ainda 52 máquinas de fabrico e armazenagem de gelo, o que nos confere cerca de 180 toneladas de capacidade de produção de gelo diárias e cerca de 300 Toneladas de capacidade de armazenamento desse gelo. Finalmente gere as 11 lotas divididas pelas 9 Ilhas, sendo que Terceira e S. Miguel contam com duas dessas estruturas, garantindo o funcionamento da primeira venda de pescado competitivo, mantendo as regras de mercado em funcionamento continuo durante o ano.
Correio dos Açores – Em breves palavras podem descrever a evolução da comercialização nos últimos anos?
José Soares (Presidente do Conselho de Administração da LOTAÇOR) e Reinaldo Arruda (Vogal Executivo do Conselho de Administração) – Embora o volume de pescado capturado mostre uma linha de tendência ligeiramente negativa, o mesmo não acontece com a facturação. Esta última tem conseguido uma linha de tendência claramente positiva nos últimos 10 anos, tendo sido 2025 um ano de recorde absoluto na Região desde que existem estatísticas.
O ano de 2025 finalizou com 46,9 Milhões de euros de primeira venda o que significou praticamente mais 7.14 Milhões de euros relativamente a 2024, ou seja mais 17,9% de facturação que o sector usufruiu.
Em termos de volume de pescado atingiu-se mais 34% o que naturalmente significou uma diminuição do preço médio em 12%, fruto da extraordinária safra de atum que ocorreu em 2025 a melhor nos últimos 14 anos.
Que cenário encontrou este Conselho de Administração quando tomou posse?
Encontrámos uma situação financeira extremamente preocupante. A empresa apresentava uma dívida superior a 20 milhões de euros e um défice anual próximo dos 3 milhões de euros. Era uma realidade muito difícil e que colocava em causa a sustentabilidade futura da própria LOTAÇOR. Existia um desequilíbrio orçamental estrutural, agravado pela falta crónica de receita suficiente para fazer face aos custos de operação e manutenção da empresa. Naturalmente, não era possível continuar nesse caminho. Ou se tomavam decisões responsáveis, ou estaríamos a comprometer definitivamente o futuro da empresa.
A LOTAÇOR vive actualmente um momento decisivo da sua história. A empresa tem futuro?
Sem qualquer dúvida. A LOTAÇOR é uma empresa fundamental para o sector das pescas na Região Autónoma dos Açores e continuará a ter um papel estratégico no futuro da economia azul. Estamos a falar de uma estrutura essencial para os pescadores, armadores, comerciantes e para toda a cadeia ligada ao pescado na nossa Região. O problema nunca foi a utilidade ou a importância da empresa. O verdadeiro problema foi o acumular, ao longo de muitos anos, de desequilíbrios financeiros que se tornaram insustentáveis.
O que levou ao processo de reestruturação?
A reestruturação não surge como uma opção política ou administrativa. Surge como uma necessidade absoluta para salvar a empresa e garantir a continuidade do serviço prestado ao sector das pescas nos Açores. Desde que este Conselho de Administração tomou posse, há cerca de dois anos, começámos imediatamente a trabalhar em várias propostas e soluções que foram sendo apresentadas ao Governo Regional, enquanto único accionista da empresa. O objectivo sempre foi claro: criar condições para tornar a LOTAÇOR sustentável, mais eficiente e preparada para os desafios do futuro.
Que medidas concretas já foram tomadas nesse processo?
Foram tomadas várias medidas importantes e, acima de tudo, estruturais. Desde logo, procedemos a uma profunda reorganização interna da empresa, reduzindo significativamente os cargos de chefia. Essa medida irá permitir uma diminuição de custos. Ao mesmo tempo, estabelecemos um diálogo directo e construtivo com o Sindicato. Aguardamos o seu resultado para breve. Além disso, houve também um esforço significativo de contenção e racionalização noutras áreas da despesa. Conseguimos reduzir em muito diversos encargos associados ao funcionamento da empresa, nomeadamente ao nível dos fornecimentos e serviços externos. Estamos, portanto, a falar de uma mudança profunda na gestão da LOTAÇOR, baseada no rigor, na eficiência e na responsabilidade financeira. Está em curso, sob nossa proposta, a reformulação daquilo que é hoje a classificação dos portos de pesca nos Açores. Essa é uma competência da Secretaria do Mar e das Pescas, mas se a mesma se concretizar, implica para a nossa empresa uma redução de muitos milhares de euros por ano nos custos com a manutenção de todos os equipamentos existentes em cada um deles. Tudo isto, será divulgado. Mas só o faremos quando perceberem da importância que existe em todos darem, cada um à sua maneira o seu devido contributo para a manutenção sustentável da empresa.
A solução passa apenas pela redução de custos?
Não. A redução de custos é fundamental, mas não chega por si só. É igualmente necessário aumentar a capacidade de receita da empresa. E é precisamente aí que entra a aplicação do princípio do utilizador-pagador. Durante muitos anos existiram diversos serviços e infra-estruturas utilizados pelo sector que não eram pagos. Estamos a falar, por exemplo, do consumo de água e electricidade, dos armazéns de aprestos, de equipamentos portuários e de outros serviços disponibilizados pela LOTAÇOR. O que estamos a fazer é criar um modelo mais equilibrado e justo, onde esses serviços passam a ter uma comparticipação financeira por parte de quem os utiliza. Ainda assim, importa esclarecer que os valores aplicados ao sector das pescas continuarão a ser bastante inferiores aos praticados noutras actividades económicas ligadas ao mar, como a pesca desportiva ou as actividades marítimo-turísticas. Este Conselho de Administração e o Governo Regional, têm ambos consciência que o sector, não pode passar a pagar de um dia para o outro o que nunca pagou antes. Por isso, as cobranças serão feitas de uma forma progressiva. Esse é um compromisso assumido.
Tem existido resistência a essas mudanças?
Mudanças desta dimensão geram sempre preocupação e algum nível de resistência, o que é perfeitamente natural. Mas também é importante dizer com clareza que continuar como estávamos não era solução. Não fazer nada seria condenar a empresa a um agravamento contínuo da sua situação financeira. Aquilo que temos procurado fazer é explicar, com transparência, que estas medidas são necessárias precisamente para proteger o futuro da LOTAÇOR, dos seus trabalhadores e do próprio sector das pescas.
O Governo Regional tem acompanhado todo este processo?
Sim, o Governo Regional tem acompanhado todo este trabalho de muito perto. Ao longo destes dois anos foram entregues várias propostas concretas ao accionista, sempre com um espírito de colaboração e responsabilidade. Existe consciência da importância estratégica da LOTAÇOR para os Açores e da necessidade de garantir a sua sustentabilidade futura.
Que outros planos tem este Conselho de Administração para a empresa?
Entre muitos outros queremos reforçar a aposta nas vendas online. Em algumas ilhas, como por exemplo, em São Jorge, elas já representam, 20% em peso e 26% em valor, o que mostra que o pescado é mais valorizado na venda on-line.
De referir também que no Faial, ocorreu, em comparação com o período homólogo um aumento das vendas online de 259,51 % Queremos também, voltar a apostar na divulgação do nosso pescado. Para isso estamos a desenvolver um plano interno de comunicação. O mesmo passa por voltar a apostar em feiras, em fóruns de divulgação do que é nosso. Está completamente desenvolvida a ideia de criar um selo de qualidade do pescado dos Açores utilizado nos restaurantes. O conceito será divulgado e concertado com as Associações, armadores e restaurantes, no âmbito do plano de reestruturação do sector.
Acredita que a empresa conseguirá recuperar financeiramente?
Acredito que estamos no caminho certo. Evidentemente, não existem soluções milagrosas nem resultados imediatos para problemas acumulados durante tantos anos. Mas hoje existe um plano, existe uma estratégia e existe uma gestão focada na sustentabilidade. A LOTAÇOR tem futuro, mas esse futuro exige coragem para tomar decisões difíceis, exige rigor financeiro e exige uma nova visão sobre o funcionamento da empresa. É exactamente isso que estamos a fazer. O mais importante é garantir que daqui a alguns anos teremos uma empresa mais sólida, mais eficiente e capaz de continuar a servir o sector das pescas e os Açores com qualidade e estabilidade.
A todos, voltamos a pedir compreensão, e fica o apelo: todos juntos conseguiremos tornar a empresa e o sector, mais forte e sustentável no futuro, se cada um fizer a sua parte.
