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Nickel expande operação para o arquipélago dos Açores com modelo físico e digital de modo a combater a desertificação bancária

A Nickel arrancou oficialmente com a sua operação no arquipélago dos Açores com o objectivo de combater a desertificação bancária através de um modelo que alia a tecnologia à proximidade do comércio local. Em entrevista ao ‘Correio dos Açores’, o CEO da Nickel Portugal, João Guerra, revelou a ambição de expandir a rede até aos 20 pontos de atendimento para garantir que todas as ilhas tenham acesso a serviços financeiros essenciais e de baixo custo.

Correio dos Açores – Sendo os Açores um território ultraperiférico e com características geográficas muito próprias, qual é a relevância estratégica da chegada da Nickel ao arquipélago?
João Guerra (CEO da Nickel Portugal) – A nossa expansão para os Açores reflecte o sucesso que a Nickel já alcançou em Portugal continental e na Madeira, onde também lançámos a marca recentemente. As características exclusivas dos Açores fazem com que a nossa proposta de valor faça aqui todo o sentido.
Neste momento, já temos quatro pontos de venda activos: um em Ponta Delgada, na Tabacaria Solmar; um em Santo António, na loja da Galp; e dois na Ribeira Grande, na Matriz e na Conceição. Temos também um ponto em processo de aprovação na Madalena, na ilha do Pico. A nossa ambição a curto prazo é alcançar entre 15 a 20 pontos de venda na Região. Queremos ter dois ou três na Terceira, expandir para as ilhas centrais como o Faial e São Jorge, e deixamos desde já o repto a eventuais parceiros para podermos chegar às ilhas mais pequenas, como o Corvo, as Flores, a Graciosa ou Santa Maria.
O sucesso deste modelo assenta, antes de mais, na inovação. O sector bancário tradicional é muito fechado, regulado e competitivo, onde abrir um banco convencional não faria sentido. A Nickel traz algo diferente através de um modelo híbrido a que chamamos “figital”, uma base tecnológica e digital robusta ligada a uma rede física de proximidade. Partilhamos a mesma plataforma tecnológica em cinco grandes países europeus (França, Espanha, Bélgica, Alemanha e Portugal) com uma estrutura de apenas 800 pessoas, o que nos permite ter custos operacionais extremamente reduzidos.
No entanto, ao contrário dos bancos 100% digitais que excluem quem tem menos literacia digital ou prefere o contacto humano, nós apostamos nos agentes locais, como cafés e tabacarias. Isto permite-nos combater directamente a desertificação bancária que se faz sentir tanto no continente como nas ilhas. Enquanto a banca tradicional fecha balcões, centraliza-se nas cidades e reduz as operações com dinheiro físico, nós fazemos o caminho inverso. Se amanhã um parceiro no Corvo quiser abrir um ponto Nickel, nós abrimos. As pessoas passam a ter ali um “mini balcão” para os serviços essenciais. Numa tabacaria ou num café, qualquer pessoa pode abrir uma conta em cinco minutos e sair de lá com um cartão Mastercard pronto a funcionar no mundo inteiro. Pode depositar dinheiro, levantar montantes ou substituir um cartão na hora, com a vantagem de estes estabelecimentos terem horários alargados, funcionando muitas vezes até às 22h, ao contrário do horário bancário que termina às 15h ou 16h.
Os estudos de mercado mostram que o que as pessoas mais valorizam, e, por oposição, o que mais criticam na banca tradicional, são os custos de manutenção e a falta de pontos de acesso físico. A Nickel resolve estas duas dores principais. Graças à nossa eficiência digital, conseguimos oferecer uma conta com tudo o que é essencial por apenas 26 euros por ano (pouco mais de dois euros por mês). É uma solução ideal para quem tem rendimentos mais baixos e precisa de uma conta simples e barata para receber o salário ou um apoio social, sem as taxas elevadas de dez ou vinte euros mensais que o mercado habitualmente cobra.
Resumindo o intuito é trazer a inovação a um mercado de pessoas inovadoras e que gostam de coisas novas. O nosso propósito é ajudá-las a ter acesso a uma conta muito simples, super útil, com um preço muito justo e barato, e estar próximo das populações. Queremos garantir essa presença junto de locais onde as pessoas já não têm um balcão bancário, para que não tenham de se deslocar dezenas de quilómetros e possam fazer as suas operações ali mesmo, ao lado de casa, no comércio onde já costumam ir.

No e-mail enviado à nossa redacção, a Nickel mencionou a “democratização do acesso aos serviços financeiros”. Essa característica passa precisamente por colmatar as necessidades de uma zona periférica ou de uma população que, à semelhança do continente, é tendencialmente mais envelhecida?
Sim, é exactamente isso. Passa por incluir as pessoas que estão mais isoladas geograficamente dos pontos bancários tradicionais, mas vai muito além disso. Não se esgota na questão da idade ou da distância, estende-se também a factores financeiros e de exclusão social.
Hoje em dia, os custos de manutenção de uma conta bancária são um entrave pesado para muitas famílias. Ao oferecermos uma alternativa extremamente barata e acessível, estamos a garantir que qualquer cidadão, independentemente do seu nível de rendimentos ou da sua literacia digital, tenha direito a gerir o seu dinheiro com dignidade. Democratizar os serviços financeiros significa garantir que as barreiras económicas, tecnológicas e geográficas deixam de ser um impedimento para o acesso aos serviços bancários essenciais.
E repare, quando perguntamos às pessoas que não estão bancarizadas o porquê de não terem conta, as razões são tipicamente as duas mesmas: os custos e a falta de proximidade. Há quem diga que, para receber uma reforma social de 400 ou 500 euros, não compensa abrir uma conta que custa dez euros por mês, preferindo guardar o dinheiro no colchão. Ou então não o fazem porque não têm nenhum balcão próximo.
Portanto, este modelo, por permitir abrir uma conta muito mais barata e por estar muito mais próximo, traz essa democratização. Trata-se de incluir financeiramente pessoas que hoje não têm conta, dando-lhes condições muito mais fáceis, seja por proximidade, acessibilidade ou custo, para que possam estar no sistema bancário. Essa é a essência da democratização e da inclusão financeira.
Eu diria que o último aspecto, que também faz todo o sentido, é que nós temos, além da conta base, possuímos uns cartões a que chamamos premium, desenhados essencialmente para viagens. Nós acreditamos que as pessoas dos Açores têm duas características: por um lado, sempre que podem, gostam de viajar e sair das ilhas; por outro, a Região recebe hoje muito turismo. Curiosamente, os principais emissores de turismo são precisamente os países onde nós também estamos presentes: a Alemanha, a Espanha e a França. Um francês que venha cá com o nosso cartão pode levantar dinheiro às dez da noite, quando já está tudo fechado.
Para quem viaja, estes cartões têm três vantagens muito boas que fazem poupar muito dinheiro, especialmente o nosso cartão Metal, que é o topo de gama e custa cerca de 80 euros por ano. Primeiro, permite ir ao estrangeiro sem que seja cobrado um único custo em levantamentos, transferências ou pagamentos. Segundo, oferece uma das melhores comissões cambiais do mercado, o que é fundamental fora da zona euro, como nos Estados Unidos da América, onde habitualmente se gasta muito dinheiro em taxas. Terceiro, inclui seguros óptimos desenhados para viagens que cobrem o agregado familiar. Ou seja, se um casal com dois filhos pagar a viagem com o cartão, todos ficam cobertos, incluindo assistência hospitalar no estrangeiro, se for necessário.
Portanto, estes três aspectos, a democratização e a inclusão financeira de quem não tem conta através de um produto mais barato, acessível e próximo, combinadas com as vantagens para quem quer viajar, são a cara da população dos Açores. Faz todo o sentido estarmos cá.

O lançamento arrancou oficialmente no dia 1 de Julho. Quais são os objectivos definidos para esta primeira fase da operação no arquipélago?
Para já, o nosso objectivo principal é ocupar espaço, estar presente e darmo-nos a conhecer, para que as pessoas tenham acesso, comecem a conhecer a marca e a confiar nela.
Actualmente estamos apenas na ilha de São Miguel, com quatro pontos de venda, mas a nossa ambição é atingir os 15 a 20 pontos na Região. Queremos duplicar a presença em São Miguel, passando para oito ou dez pontos, e espalhar os restantes pelas outras ilhas: ter dois ou três na Terceira, avançar para o grupo central e conseguir que haja pelo menos um ponto de venda nas ilhas mais pequenas. Esse é o nosso foco principal nesta fase.

Quais são os planos que a Nickel tem para se expandir? Existe alguma estratégia definida o território açoriano?
A nossa estratégia passa claramente por estar presente em todas as ilhas. Nas mais pequenas, o objectivo é ter pelo menos um agente. Não sei se no Corvo, por exemplo, ainda resta algum balcão bancário tradicional, mas a nossa ideia é garantir que todos os açorianos, independentemente de onde residam, tenham acesso a este serviço.
Queremos dar-lhes a oportunidade de ter uma conta muito barata e super simples de utilizar, gerida através de uma aplicação ou de homebanking, mas apoiada por um local físico onde podem realizar operações com dinheiro. Na prática, o nosso agente funciona como um ATM, onde as pessoas podem levantar e depositar dinheiro, o que se torna ainda mais relevante numa altura em que os próprios caixas multibanco tradicionais também estão a fechar.

A Nickel assenta fortemente nos pontos de comércio local. Como tem sido a recepção dos comerciantes a este modelo e que mais-valias traz o serviço para os próprios estabelecimentos?
A adesão tem sido excelente. Começámos as conversações há cerca de três ou quatro meses e a aceitação é óptima. Existe um processo regulatório em que os agentes têm de ser aprovados pelo Banco Central de França e pelo Banco de Portugal, o que demora entre um a três meses, mas o interesse é imediato porque os lojistas perceberam rapidamente as vantagens.
Este modelo funciona também como uma forma de dinamizar o comércio local. Por um lado, os agentes recebem comissões por todas as operações que realizam connosco, o que lhes permite diversificar e obter uma nova fonte de rendimento. Por outro lado, há uma forte componente de responsabilidade social e orgulho. Em zonas mais remotas onde os balcões tradicionais fecharam, são estes comerciantes, como a Tabacaria Solmar, que asseguram os serviços financeiros à população. Eles sentem-se valorizados por entregar esta missão essencial à sua comunidade. Isto é também crucial para a atractividade dos locais mais isoladas, que hoje atraem, por exemplo, surfistas ou nómadas digitais que procuram a natureza, mas que precisam de ter acesso a serviços básicos para se fixarem.
Além disso, o modelo gera um efeito de “bola de neve” no negócio. A disponibilização dos nossos serviços atrai mais tráfego de clientes e cria hábitos de consumo no próprio local. Temos o exemplo da loja da Galp: as pessoas vão lá para levantar ou depositar dinheiro e acabam por abastecer o combustível ali, beber um café ou fazer as compras de última hora. Esse fluxo adicional gera um cruzamento de vendas e traz muito mais valor para o dia a dia dos vendedores.

O mercado das fintechs e das soluções digitais está em forte crescimento. O que vos distingue verdadeiramente de outras alternativas, sejam os bancos tradicionais ou os bancos puramente digitais?
Existem duas distinções fundamentais. Em comparação com a banca tradicional, a diferença reside na nossa base digital e na eficiência operacional típicas de uma fintech. Dispomos de uma plataforma tecnológica única que serve os maiores mercados da Europa. Enquanto um banco tradicional em Portugal chega a ter quatro ou cinco mil colaboradores, nós gerimos todos estes países com uma estrutura de apenas 800 pessoas. Esta escala permite-nos oferecer serviços muito mais baratos.
Além disso, temos uma grande agilidade e rapidez de resposta (time to market). Estamos em Portugal há pouco mais de três anos e já lançámos funcionalidades avançadas da Mastercard, como o True Name, que permite escolher um nome diferente no cartão, ou o Click to Pay, uma ferramenta que possibilita compras online seguras com apenas um clique, sem necessidade de introduzir os dados do cartão. Num banco tradicional, estas inovações poderiam demorar um ou dois anos a ser implementadas.
Em relação aos bancos puramente digitais, a grande diferença é que, apesar de termos essa mesma base tecnológica robusta, nós mantemos uma presença física que eles não têm. Os modelos 100% digitais acabam por excluir uma parte significativa da população, seja por ser mais envelhecida ou por falta de literacia digital. Ao combinarmos o digital com os pontos físicos de proximidade, conseguimos integrar toda a gente.
Isto liga-se directamente ao nosso propósito de democratização e inclusão financeira e social. O Banco Mundial refere que o primeiro passo para a inclusão social é a inclusão financeira. Hoje em dia, por exemplo, um imigrante que chegue ao país precisa de um IBAN local, pois as empresas já não pagam em dinheiro ou em cheque. Ter acesso a uma conta e a um cartão facilita a integração e a mobilidade social das pessoas na economia, evitando que fiquem à margem do sistema.

Sendo que actuam em cinco mercados europeus, existe uma estratégia para criar funcionalidades específicas para cada país ou o objectivo passa por manter o produto uniformizado?
A ideia é que a diferenciação por país aconteça o menos possível. Como a regulação bancária é de base europeia, é suposto ser igual em todo o lado. Por isso, tentamos que a maior parte do produto seja exactamente o mesmo, o que nos garante a agilidade de poder lançar uma novidade em França e, se quisermos, disponibilizá-la em Portugal uma semana depois, ao passo que um banco tradicional poderia demorar dois ou três anos. Esse ganho de escala e de rapidez de resposta ao mercado (time to market) é um aspecto muito importante.
No entanto, há particularidades em cada mercado que não podemos ignorar. Um exemplo disso é o MB Way, que é extremamente relevante e praticamente só existe em Portugal. Nos mercados do centro da Europa, como França, Alemanha e Bélgica, existe o Wero, que é uma carteira digital semelhante, mas direccionada para esses países.
Se houver uma funcionalidade ou um produto muito específico que seja fundamental para um determinado país, como é o caso do MB Way em Portugal, nós desenvolvemo-lo especificamente para esse mercado. Contudo, preferencialmente, procuramos que tudo seja o mais estandardizado possível para manter a eficiência do modelo.

Quais são os planos prioritários para o resto do ano, além de aumentar a rede de pontos de venda para as metas que mencionou?
Para já, a prioridade número um é claramente alargar a rede, estar presente e ocupar espaço. Isso é fundamental porque nos traz visibilidade, conhecimento da marca e, acima de tudo, confiança. Como deve imaginar, quando falamos de uma conta bancária, a confiança é o aspecto mais relevante. Para que a pessoa queira fazer da Nickel a sua primeira conta, precisa de nos conhecer e ouvir falar de nós. Esse investimento leva o seu tempo.
Por isso, além de trazer inovação ao mercado, fazemo-lo com total segurança. Convém notar que o proprietário da Nickel é o BNP Paribas, o maior banco da Europa, que tem uma presença muito forte em Portugal continental com mais de dez mil colaboradores. Trata-se de um dos maiores empregadores no país e o número um em termos de recrutamento de licenciados, tendo inclusive feito agora um investimento enorme num hub gigante em Lisboa para alojar todas essas equipas. Portanto, temos o maior banco europeu por trás e estamos registados no Banco de Portugal, o que dá total garantia de segurança.
Para construir essa confiança na Região, estamos a fazer um forte investimento nos Açores. Além da abertura dos pontos de venda de que já falámos, estivemos recentemente na televisão e estamos presentes em publicidade exterior. Temos actualmente doze mupis de grande formato e digitais distribuídos por Ponta Delgada, Lagoa e Ribeira Grande, que vão estar activos durante este mês.
Como culminar deste investimento na ilha, e para facilitar o acesso, pois sabemos que quando as pessoas começam a usar o serviço adoram a sua simplicidade e comodidade, vamos oferecer a anuidade da conta durante os primeiros dois meses. Ou seja, durante os meses de Julho e Agosto, quem abrir conta nestes quatro pagará inicialmente a anuidade, mas nós iremos fazer o reembolso desse valor. É um investimento muito importante que decidimos fazer.
Diogo Simões Pires

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