Depois de ter estudado Medicina em Coimbra, João Cardoso veio exercer para os Açores, primeiro na ilha Terceira e depois na ilha de São Miguel. Primeiro, esteve a exercer no HDES, depois na CUF. Ao dia de hoje, abriu o seu consultório, na rua Coronel Silva Leal, mesmo ao lado do Liceu Antero Quental. Ao Correio dos Açores, conta o seu percurso, porque decidiu abrir um consultório a solo, quais são as doenças oftalmológicas que mais afligem os açorianos e que cuidados devemos ter no Verão.
Como é que tem sido o seu percurso até abrir o seu consultório?
João Cardoso (médico oftalmologista) – Fiz a minha formação como Médico, tendo estudado na Universidade de Coimbra. Posteriormente, fiz a minha formação especializada, ou seja, o internato da especialidade também em Coimbra, no serviço dos Hospitais da Universidade de Coimbra, sob a liderança do Professor Doutor Joaquim Murta.
Mais tarde, quando acabei a especialidade, por razões familiares, vim para os Açores, inicialmente para a ilha Terceira, onde trabalhei cerca de três anos no Hospital de Angra do Heroísmo. A seguir, vim para a ilha de São Miguel, onde comecei a trabalhar no Hospital do Divino Espírito Santo inicialmente e depois estabeleci também uma actividade privada na Clínica do Colégio, onde estive cerca de nove anos, com muito gosto e dedicação.
Mais recentemente, há cerca de dois anos e meio, deixei o Hospital do Divino Espírito Santo, e dediquei-me só à prática de oftalmologia privada.
Actualmente, divido a minha actividade entre o meu consultório próprio e a CUF Açores, onde também estou com uma regularidade semanal.
O que o levou a abrir o seu consultório?
A abertura do meu consultório prendeu-se um pouco com uma necessidade de evolução e de crescimento profissional, na medida em que cada vez mais a oftalmologia é uma área tecnológica muito diferenciada. Senti a necessidade de ter um espaço totalmente dedicado à oftalmologia, onde pudesse ter aparelhos de diagnóstico que me permitissem ter uma abrangência diagnóstica e de tratamento maior do que a que tinha previamente e, portanto, permitir também aumentar a oferta para os meus pacientes e conseguir ter um raio de acção e cuidados mais detalhados ainda.
Na sua opinião o que distingue a sua clínica das demais que já existem?
A minha clínica é uma clínica de oftalmologia apenas. Gosto mais de falar pela positiva e o que temos aqui, em termos de equipamentos de diagnóstico, é realmente um bocadinho diferente, na medida em que temos um aparelho dedicado à avaliação do segmento anterior. Portanto, todas as patologias de córnea até a avaliação de doentes, que já tiveram queratocone, que fizeram transplantes de córnea, que tenham sido já submetidos a cirurgia refractiva a laser, ou mesmo para o cálculo diferenciado de lentes intra-oculares, é possível fazer a avaliação com este aparelho.
Os outros aparelhos de diagnóstico servem também para outras áreas da oftalmologia, como por exemplo a área do glaucoma, com a avaliação e seguimento do glaucoma; a área da retina, com a avaliação e seguimento de doenças que afectam a retina, nomeadamente a sua parte mais central, que é a mácula, sobretudo três grandes grupos de doenças que eu destacaria: a diabetes, a degenerescência macular da idade e as tromboses venosas de retina.
Possuímos também aparelhos que permitem a avaliação pré-operatória para a cirurgia de catarata e cirurgia refractiva de implante de lente trifocal. São mais ou menos estas as grandes áreas.
Dedico-me também à oftalmologia pediátrica, vejo muitas crianças na minha prática diária. Estamos equipados para ver e consultar crianças das mais diferentes idades, desde crianças recém-nascidas até crianças e adolescentes.
Temos todo o equipamento que nos permite fazer uma avaliação completa e confiável de crianças nessas idades.
Portanto, diria que somos um consultório, uma clínica de oftalmologia, que, de facto, quer ter uma abrangência completa de todos os doentes que possam aparecer e que trabalha, obviamente, de forma séria e com aparelhos de última geração, que confiamos que nos possa ajudar a obter um diagnóstico o mais perfeito possível.
A nível ocular, quais são os maiores problemas que afectam os açorianos?
A nível de doenças oftalmológicas que afectam mais os açorianos, eu diria que a principal será, em termos de doença, a retinopatia diabética. Porque, em primeiro lugar, os Açores são a região do país com a maior prevalência de diabetes, ou seja, a percentagem de pessoas diabéticas na população geral nos Açores é superior à percentagem mais alta que há no continente.
Uma das complicações da diabetes como doença é a retinopatia diabética, que são alterações dos vasos da retina que acontecem devido à diabetes e que podem ir desde alterações ligeiras até alterações muito graves, que podem condicionar visão baixa ou mesmo cegueira. E, portanto, essa é uma das grandes preocupações da oftalmologia na Região Autónoma dos Açores.
Qual é a intervenção cirúrgica mais realizada nos Açores?
A intervenção cirúrgica que mais se faz em oftalmologia nos açorianos diria que é a mesma que é feita em Portugal continental, em Espanha ou em qualquer outro país, que é a cirurgia de catarata. Porque a catarata é uma patologia que está associada ao envelhecimento. As populações, sobretudo no mundo ocidental, se assim quisermos, estão cada vez mais a superar metas de esperança de vida, e é muito normal uma pessoa, hoje em dia, viver até quase aos noventa anos de idade.
Por isso, é muito normal que a pessoa tenha catarata, é algo que surge por volta dos sessenta anos de vida.
Refira-se que a catarata é a opacidade ou a opacificação da lente natural do olho, que se chama o cristalino. O cristalino, quando nós nascemos, é transparente, como o nome indica, e à medida que vamos envelhecendo, ele vai se tornando mais baço, chegando a uma determinada idade em que essa opacidade se vai tornando importante e vai tendo um impacto na vida da pessoa, roubando-lhe acuidade visual, roubando-lhe percepção dos contrastes, roubando-lhe percepção da visão de cores, a visão cromática, e, portanto, tornando a vida da pessoa pior.
Como cirurgia, a mais feita cá na nossa região, como disse, e penso que em todo o mundo, é a cirurgia de catarata, sem dúvida.
A abertura do seu consultório vem na sequência de se melhorar os cuidados de saúde da Região?
Sim, claro, pelo menos assim espero. Cada um de nós deve procurar ser uma força viva de melhoramento da sociedade. E, portanto, eu espero que com a abertura deste consultório, com o aparecimento de novos equipamentos, que consigamos sempre uma resposta cada vez melhor e mais abrangente para todos os doentes, e que assim consigamos, cada vez mais, melhorar a vida das pessoas e ter respostas mais precoces, que consigamos evitar situações mais tardias e mais difíceis de tratar, porque muitas vezes essa é a chave do sucesso.
Em oftalmologia grande parte das doenças, muitas vezes, conseguem ser melhor abordadas e ter uma melhor evolução e um melhor desfecho, se forem apanhadas numa fase mais precoce. Portanto, também termos esta noção de que é muito importante haver este cuidado com a saúde das pessoas, e a saúde ocular não foge à regra.
Apenas para finalizar, quais diriam que são os maiores cuidados a se ter com com os olhos?
Esta é uma pergunta difícil, mas eu diria que os nossos olhos são o espelho da alma. E, na verdade, os olhos muitas vezes mostram, quando nós vemos uma retina saudável, uma vasculatura retiniana saudável, poderemos vislumbrar que, se calhar, muitos outros órgãos poderão estar a funcionar bem também, tais como o coração, os rins, que são órgãos muito importantes para o corpo humano.
Diria que manter uma boa saúde geral, uma alimentação equilibrada, a prática do exercício físico, tudo isso são factores que levam a uma boa saúde ocular. Concretamente para cuidados específicos com os olhos, eu recomendaria dois que acho que são muito importantes.
O primeiro, o cuidado com o desporto. Usar sempre protecções adequadas na prática desportiva, porque às vezes um trauma desportivo pode deixar lesões para uma vida. Recomendaria também as precauções no meio laboral, nomeadamente as pessoas que trabalham na construção civil e às vezes em jardinagem. Muitas vezes ao usarem óculos de protecção pode ser a diferença entre ficar com o seu olho perfeitamente saudável ou perder um olho de forma permanente. É muito importante essa sensibilização.
Depois, um cuidado muito importante, que é o cuidado com o sol. O sol é, de facto, um dos factores que nós sabemos que por um lado, é importante para o ser humano, uma vez que a exposição solar faz-nos bem, mas, por outro, o excesso de sol pode lesar o nosso organismo, desde a pele até outros órgãos e sistemas, mas os olhos aí não fogem à regra.
Agora que vamos entrar numa época de Verão, recomendo muito o uso da protecção solar, porque evita lesões que podem ser mais agudas, como queimaduras corneanas ou até conjuntivites ou secura ocular, mas também evita, depois, o aparecimento de lesões mais crónicas e, às vezes, mais difíceis de reverter, como a catarata ou a degenerescência macular da idade.
Frederico Figueiredo
