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“A identidade açoriana não é uma barreira à internacionalização, é precisamente aquilo que torna os nossos projectos únicos”

A “Comunicar Atitude” consolidou o seu percurso no panorama audiovisual dos Açores com uma proposta que une a investigação cultural ao design de comunicação, a partir da ilha do Pico. Ao ‘Correio dos Açores’, Sandra Cristina Sousa, realizadora e co-fundadora da produtora, revelou que o conceito nasce da vontade de preencher uma lacuna no mercado regional, dando tempo e profundidade ao documentário de investigação. A responsável destacou que o projecto se assume como uma plataforma focada na preservação da memória colectiva e do património, acrescentando que o objectivo é criar narrativas universais a partir de histórias locais que não deixem o público internacional indiferente.

Correio dos Açores – O que motivou a criação da Comunicar Atitude como uma produtora independente nos Açores? Sentiram que havia um vazio na representação cinematográfica e documental do arquipélago?
Sandra Cristina Sousa (Realizadora e argumentista) – A Comunicar Atitude nasceu muito mais de um percurso pessoal do que de um plano empresarial.
Embora tenha nascido fora dos Açores, vim ainda em criança para a ilha do Pico, onde cresci e construí a minha identidade. Quando estudei Ciências da Comunicação nunca imaginei que me dedicaria ao documentário. Na altura, o panorama audiovisual açoriano era muito diferente do actual. Existiam importantes produções de ficção da RTP Açores, inspiradas na literatura e na identidade açoriana, mas o documentário de investigação desenvolvido por produtoras independentes tinha ainda pouca expressão.
Depois da licenciatura iniciei a minha actividade na RTP, no Porto, regressando pouco depois aos Açores para trabalhar como jornalista. Durante mais de uma década fui correspondente da RTP Açores, colaborando também com a TSF e com o Açoriano Oriental. Foi uma escola extraordinária, mas o ritmo do jornalismo diário obrigava-nos a contar histórias complexas em poucos minutos ou em algumas centenas de caracteres.
Com o tempo percebi que muitas dessas narrativas precisavam de investigação, contexto e tempo. Foi dessa inquietação que nasceu a Comunicar Atitude, em conjunto com Mauro Santos Pereira. O Mauro trouxe a formação em Design de Comunicação e narrativa visual; eu trouxe o olhar do jornalismo e da investigação. Essa complementaridade continua a definir a identidade da produtora.
O documentário acabou por reunir tudo aquilo que mais nos apaixonava: a curiosidade, a investigação, o contacto com as pessoas e a possibilidade de contar histórias com a profundidade que elas merecem.

Qual é o principal objectivo da produtora? É o mesmo desde o início?
O objectivo manteve-se praticamente inalterado desde 2013, embora a forma de o concretizar tenha evoluído bastante.
Desde o início colocámos a investigação no centro do processo criativo. Procuramos compreender primeiro os territórios, ouvir as comunidades e estudar os arquivos para, só depois, escolher a melhor forma de comunicar esse conhecimento. Nem sempre termina num documentário; pode dar origem a uma série, um livro, uma exposição, uma experiência museológica ou uma plataforma digital.
Ao longo dos anos a Comunicar Atitude cresceu enquanto estrutura criativa e integra hoje o estúdio de design Mauzuras, reunindo uma equipa multidisciplinar de oito profissionais que desenvolve projectos de comunicação, design, branding, conteúdos digitais e produção audiovisual para empresas e instituições dos Açores e do continente.
O nosso objectivo continua a ser o mesmo: criar conteúdos relevantes, sustentados na investigação, que preservem a memória colectiva e valorizem o património cultural, social e humano dos Açores. Acreditamos que uma sociedade só se conhece verdadeiramente quando compreende as suas origens.

Quais são as maiores dificuldades em gerir um projecto deste carácter? A insularidade seria um obstáculo?
A insularidade traz desafios evidentes: maiores custos de produção, logística mais complexa, dependência dos transportes e das condições meteorológicas. Produzir nas nove ilhas exige um planeamento muito rigoroso.
Mas seria injusto olhar para a insularidade apenas como um obstáculo. Ela ensinou-nos a trabalhar com equipas ágeis, a planear melhor e, sobretudo, a conhecer profundamente o território e as comunidades onde filmamos.
Vivemos nos Açores. Não chegamos apenas para recolher imagens e partir. Essa proximidade permite-nos construir relações de confiança e aceder a histórias que dificilmente seriam contadas a quem está apenas de passagem. No fundo, aquilo que muitos consideram uma limitação acabou por se transformar numa das nossas maiores forças.

Como é que se trabalha o orgulho e a identidade açoriana de forma que os conteúdos sejam apelativos e compreendidos por júris de festivais internacionais e audiências televisivas fora de Portugal?
Nunca partimos da ideia de fazer filmes sobre os Açores. Partimos sempre das pessoas.
É evidente que a identidade açoriana está presente em tudo o que fazemos, porque faz parte da nossa realidade. Mas acreditamos que ela não deve ser apresentada como uma curiosidade regional ou um elemento exótico. O desafio está precisamente em encontrar aquilo que existe de universal dentro de cada história local.
Quando contamos a narrativa de uma comunidade baleeira, de uma rendeira, de uma fábrica conserveira ou de uma tradição secular, não estamos apenas a falar dos Açores. Estamos a falar da relação das pessoas com o trabalho, com a família, com a memória, com a mudança ou com a perda. São temas que qualquer espectador, independentemente da sua nacionalidade, consegue compreender.
Talvez seja essa a razão pela qual os nossos filmes têm conseguido chegar a festivais internacionais e a diferentes canais de televisão. Nunca procurámos adaptar as histórias açorianas ao olhar de quem está de fora. Procuramos, isso sim, contá-las com autenticidade, rigor e qualidade cinematográfica. Acreditamos que quanto mais verdadeira é uma história, maior é a sua capacidade de dialogar com públicos de diferentes culturas.
Existe uma frase que nos acompanha desde o início: quanto mais local é uma história, mais universal ela pode tornar-se. A identidade açoriana não é uma barreira à internacionalização; é precisamente aquilo que torna os nossos projectos únicos.

O vosso manifesto destaca uma “forte ligação ao território atlântico e às comunidades locais”. Como é que o isolamento e a geografia dos Açores moldam a vossa linguagem visual e a escolha das histórias que decidem contar?
Nos Açores, a geografia nunca é apenas cenário. O mar, a montanha, a lava e a distância moldam a forma como as pessoas vivem, trabalham e constroem a sua identidade.
Por isso, nos nossos projectos, o território é quase sempre uma personagem. Não filmamos a paisagem apenas pela sua beleza, mas porque ela ajuda a explicar as comunidades que nela vivem. Procuramos observar os gestos, os silêncios e a relação das pessoas com o lugar.
Antes de filmarmos, procuramos compreender o território. Só assim conseguimos contar histórias que sejam verdadeiras para quem as viveu e universais para quem as vê pela primeira vez.

O vosso portefólio foca-se muito em “patrimónios esquecidos”. Qual foi a história ou a memória colectiva mais desafiante (ou surpreendente) que resgataram até hoje?
É difícil escolher apenas um, porque todos revelam diferentes dimensões da identidade açoriana.
Talvez a maior lição tenha sido perceber o quão frágil é a memória colectiva. Houve uma altura em que entrevistámos dezenas de antigos baleeiros, muitos deles já em idade avançada, sem existir ainda um documentário definido. Havia apenas a consciência de que, se aquelas memórias não fossem registadas naquele momento, desapareceriam para sempre.
Esses testemunhos acabaram por dar origem a “Fortuna Escorregadia” e, mais tarde, alimentaram outras ideias, como a série “Herança Baleeira”. Hoje, muitos desses homens já não estão entre nós e, em muitos casos, apenas conseguimos ouvir os seus descendentes. É importante, mas nunca é o mesmo que escutar quem viveu a história na primeira pessoa.
Essa experiência ensinou-nos que a investigação não pode esperar pela existência de um filme. Muitas vezes é necessário preservar primeiro a memória e só depois encontrar a melhor forma de a comunicar.

Têm notado um aumento do interesse do cinema internacional pelos Açores? O que falta à Região para se fixar de forma ainda mais competitiva nas rotas de grandes produções?
Sem dúvida. Nos últimos anos temos assistido a um crescimento muito significativo do interesse internacional pelos Açores. A Comunicar Atitude tem colaborado com equipas de vários países em produções para canais e plataformas de referência, o que demonstra que o arquipélago está cada vez mais presente no mapa audiovisual internacional.
Os incentivos financeiros são importantes, mas, por si só, não chegam. As grandes produções procuram também previsibilidade, rapidez de resposta, profissionais qualificados e capacidade logística.
Os Açores oferecem paisagens únicas e uma diversidade natural extraordinária. O desafio passa agora por continuar a reforçar as condições para que filmar no arquipélago seja cada vez mais simples e competitivo. Estou convencida de que esse caminho já começou e que os Açores têm todas as condições para se afirmarem como um destino internacional de referência para a produção audiovisual.

Vocês afirmam que o audiovisual é uma ferramenta de preservação da memória colectiva. No final de cada iniciativa, sentem que deixam um impacto social tangível nas comunidades que filmaram?
Esse é, provavelmente, o maior objectivo do nosso trabalho.
Os festivais e a distribuição internacional são importantes, mas o maior reconhecimento acontece quando regressamos às comunidades e ouvimos alguém dizer: “Esta é a nossa história.”
O impacto dos nossos projectos raramente termina com a estreia de um documentário. Muitas investigações dão origem a exposições permanentes, livros, arquivos documentais ou experiências museológicas que continuam disponíveis para investigadores, escolas e para as próprias comunidades.
Iniciativas como “Bote Baleeiro Açoriano – Legado com Futuro” ou o “Museu Francisco de Lacerda”, distinguido pela APOM em 2025, demonstram que a investigação pode transformar-se em património acessível às gerações futuras.
Acreditamos que preservar a memória colectiva é também reforçar a auto-estima das comunidades e contribuir para que uma sociedade conheça melhor as suas origens.

Olhando para o futuro, quais são as principais ideias de escrita e desenvolvimento em que estão a trabalhar actualmente? Há alguma nova área ou formato (como o digital/streaming) que queiram explorar mais a fundo?
Estamos a viver uma fase muito importante da evolução da Comunicar Atitude.
Lançámos recentemente o novo website e um catálogo internacional de distribuição, reforçando a nossa estratégia de internacionalização. Hoje, os nossos conteúdos chegam a praticamente todos os continentes, com especial presença nos países de língua portuguesa.
O próximo desafio representa também uma nova etapa do nosso percurso. Estamos a desenvolver um projecto de investigação dedicado à insularidade açoriana, pensado para os próximos três anos, que procurará compreender de que forma o território, a geografia, a história, a cultura e as comunidades moldaram a identidade das nove ilhas.
Pretendemos que este trabalho dê origem a um verdadeiro Observatório Humano das Nove Ilhas dos Açores, reunindo investigação científica, documental e audiovisual numa plataforma de conhecimento capaz de gerar documentários, livros, exposições e conteúdos digitais.
Depois de mais de uma década dedicada à preservação da memória colectiva, sentimos que chegou o momento de dar um contributo ainda mais abrangente para o conhecimento da realidade açoriana e para a forma como ela poderá ser compreendida pelas gerações futuras.
Diogo Simões Pires

Nota biográfica
Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Fernando Pessoa, é produtora, realizadora, guionista e autora, com uma carreira consolidada na comunicação social e na criação de documentários audiovisuais. Com mais de duas décadas de experiência em órgãos de comunicação como a rádio TST, o jornal Açoriano Oriental e a RTP Açores, desenvolve há 15 anos actividade contínua como realizadora e escritora, com enfoque no património cultural, social e ambiental dos Açores.
Co-fundadora da produtora Comunicar Atitude, o seu trabalho tem sido amplamente reconhecido. Venceu o Prémio de Cinema e Audiovisual Ayres d’Aguiar (2020) e foi finalista do 38th International URTI Grand Prix for Author’s Documentary (UNESCO, 2019) com Fortuna Escorregadia, documentário que também representou Portugal nos International Emmy Awards (2019). Com esta obra foi ainda finalista do 28th Avanca – International Meeting of Cinema, TV, Vídeo e Multimédia (2019).
Com a curta-metragem Ilha das Fajãs foi seleccionada oficialmente para o Max Sir International Film Festival (2025) e para os Kuala Lumpur International Film Awards (2025). A série Cidade de Heróis foi semifinalista no Serbest International Film Festival (SIFF) (2024) e também seleccionada para os Kuala Lumpur International Film Awards (2025). O documentário Maresias integrou igualmente a selecção oficial deste último festival.
Já Atafonas foi seleccionado para o Inshort Film Festival (2018) e para o Finisterra Arrábida Film Art & Tourism Festival (2017). Adicionalmente, recebeu o 2.º lugar no programa CPLP Audiovisual com o argumento para o documentário Néne.
Com um percurso marcado por mais de uma dezena de obras documentais, destacam-se títulos como Os Livros que Ficaram por Ler, de Pedro da Silveira (2022), Fortuna Escorregadia (2018), Cem Anos na Minha Ilha (2018), Atafonas (2017), Do Mar à Mesa (2014) e Na Rota dos Vinhos da Ilha do Pico (2013). É autora das obras “Bote Baleeiro Açoriano”, “Mulheres com Lata” e do “Guia do Povoamento da Ilha do Pico”. As suas mais recentes produções incluem Rendas de Farpa, Entre Danças, Da Baleia ao Atum e Maresias (2023).
Na vertente institucional, preside desde 2022 à Comissão de Avaliação do RJAAC Audiovisual da Direcção Regional da Cultura, promovendo políticas públicas de apoio à produção independente com impacto territorial e cultural. Tem colaborado activamente em projectos de valorização do património açoriano, com ligação à Comissão Nacional da UNESCO. É sócia da Associação de Produtores Independentes para Televisão (APIT), da GEDIPE (Associação para a Gestão Colectiva de Direitos de Autor e de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais) e da Associação Portuguesa do Documentário (APORDOC).

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