Ponta Delgada não deixa a tradição desaparecer com as XXIII edição das Grandes Festas do Divino Espírito Santo, sendo que um dos momentos mais importantes aconteceu entre ontem e hoje: a preparação das emblemáticas sopas do Espírito Santo.
A cozinha do Coliseu Micaelense acolheu cerca de 75 a 80 voluntários, provenientes de várias zonas da ilha, que se uniram para ajudar a preparar os pratos, que serão servidos hoje no Campo de São Francisco pelo 12h30.
Segundo uma das responsáveis, Maria Vasconcelos, que já faz parte da equipa há 17 anos, as quantidades são sempre semelhantes todos os anos: no ano passado foram cerca de 13 a 14 mil pratos de sopa.
A preparação começa cedo com ingredientes rústicos e refinados, como cortes seleccionados, especiarias aromáticas, ervas frescas e um toque de vinho, que aguardam o momento exacto de entrar em cena. Inicialmente prepara-se a base vegetal com o cozimento dos repolhos, de seguida é preparado o caldo e por fim dá-se o passo final: onde se junta tudo numa só refeição.
Trabalhos começam
pela carne e repolhos
A tradição já carrega uma bagagem de quase duas décadas. Maria Vasconcelos, uma das responsáveis, recorda que tudo começou há 17 anos, quando chegou ao local. Desde o início, a rotina de preparação segue um ritual bem definido: “começávamos pela carne e repolhos”, explicou.
Com o passar dos anos, o evento cresceu significativamente. Inicialmente, apenas as irmandades compareciam, mas o grupo foi-se expandindo organicamente à medida que começaram a convidar-se umas às outras. Apesar de notar que, actualmente, costuma vir mais gente, a essência do trabalho mantém-se a mesma, focada na carne e nos repolhos.
No que toca à organização do espaço, a entrevistada esclarece que não existe uma hierarquia rígida: “Aqui não há responsáveis, cada um é responsável por aquilo que faz”.
No entanto, quando o assunto é o manejo das panelas, o critério é rigoroso por questões de segurança. Ela explica que essa tarefa fica estritamente a seu cargo, da sua irmã e de uma terceira voluntária, justificando que “não pode ter muita gente aqui porque isto é muito perigoso”.
Quantidades têm se mantido
similares todos os anos
Quando questionada sobre as quantidades exactas dos ingredientes utilizados na confecção das sopas, Maria Vasconcelos confessa que não há uma receita com medidas milimétricas: “Não fazemos ideia”, admitiu com naturalidade.
Ainda assim, a escala da preparação é impressionante. A título de exemplo, refere que só de repolhos receberam 600 unidades, embora o desperdício ou o uso total dependa do decorrer dos trabalhos: “Podemos usar tudo como também não podemos utilizar”.
Apesar desta aparente imprevisibilidade face ao volume de ingredientes disponíveis, a responsável nota que, no fundo, a experiência acumulada dita o ritmo, pois costumam ser sempre as mesmas quantidades a entrar nas panelas ano após ano.
“Dom do Espírito Santo” é
o que faz as pessoas ajudar
Para Maria Vasconcelos, a força motriz por trás de todo este esforço não tem uma explicação puramente explícita. “Eu não sei, penso que é o dom do Espírito Santo”, destacou, atribuindo a este sentimento à devoção de todos os envolvidos.
O apego a esta tradição é tão forte que o sentimento de vazio é imediato assim que os festejos chegam ao fim, partilhando que, quando tudo acaba, ficam logo tristes porque já terminou, contudo, a voluntária não esconde exigência física da tarefa, mas sublinhou que é pelo amor que o fazem: “É muito cansativo, mas gostamos imenso”.
Em suma, reforçou que é essa mesma força e esse “dom” que funcionam como o verdadeiro elo de ligação, trazendo de volta todos os que estão ali, ano após ano, para participar na preparação das sopas.
Momento reuniu mais de 70 pessoas
A mobilização de pessoas para ajudar na preparação das sopas continua a ser expressiva, embora a entrevista note uma tendência de decréscimo. Actualmente, o grupo é composto por “mais do que 60 pessoas”, estimando que ronde, na verdade, as 75 ou 80 pessoas.
Ainda assim, ao olhar para o histórico desta organização, deixou um desabafo sobre a evolução do voluntariado ao longo do tempo: “Já tivemos mais, mas a cada ano tem menos”.
“Peço que todos colaborem que
isto é muito bonito e muito bom”
Maria Vasconcelos termina com um convite caloroso e um apelo à participação de toda a comunidade nesta causa. “Peço que todos colaborem que isto é muito bonito e muito bom”, expressa com entusiasmo, orgulhosa do impacto da tradição.
Para além do trabalho e da devoção, ela destaca que o esforço conjunto culmina num momento especial de partilha e união entre todos: “Depois temos até o convívio, por isso peço que apareçam”.
Diogo Simões Pires
