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Os moinhos da Mãe de Água dos irmãos Olímpio e Manuel Pedro

A primeira notícia de que há memória desses moinhos é de 24 de Março de 1852. Pela mesma notícia sabe-se que estavam a ser construídos.1 Olímpio, de nome completo Olímpio da Silva Melo, fizera cinquenta e um anos em Setembro (n. 24-09-1800 – f. 9-9-1879), era casado e pai de filhos, casara em Agosto de 1846, Manuel Pedro fora ‘padrinho’ do irmão, e morava numa casa da rua João da Horta, na Matriz.2 Manuel Pedro, cujo nome completo era Manuel Pedro de Melo e Silva, fizera trinta e sete em Fevereiro (n. 27-02-1815 – f. 6-08-1894), era solteiro e pai de filhos, morava numa casa da rua Direita, na Conceição.3 Enquanto Manuel Pedro exerceu cargos públicos de poder e prestígio e desempenhou papéis importantes a pedido da família, que se saiba, o irmão não. Apesar de não se conhecer documento alusivo à constituição de uma sociedade destinada à construção e exploração desses moinhos, ainda assim, há uma boa ou assim/assim probabilidade desses moinhos terem resultado de alguma forma de parceria entre os dois irmãos. Em que fundamento o que digo? No conhecimento, razoável, de que esses moinhos se mantiveram na família, no lado dos dois ou de um dos irmãos, com maior grau de probabilidade, até à década de oitenta ou inícios da década de noventa. E, menos provável, mas a ter-se em conta, até 1905.4 Ou até, ainda menos provável, mas ainda possível, até 1913.
Naquele dia de Março de 1852, falando porventura em nome de ambos, Manuel Pedro era vereador da Câmara, navegava bem essas águas, diz estar ‘fazendo uns Moinhos [casa com moinhos, entenda-se] no sítio da Mãe de Água da mesma Vila (…).’ 5 Pretendia, acrescentava, ‘para melhor trânsito dos indivíduos, que deles se quiserem servir, fazer uma ponte encostada ao arco, por onde passa [a] água que vai ao extinto Convento das Freiras da referida Vila […].’6 De que maneira é que a ligação pela margem esquerda da ribeira poderia oferecer ‘melhor trânsito aos fregueses daqueles moinhos,’ se os que se construíam ficavam na margem direita? Havia, ao longo da margem esquerda, acompanhando o percurso da ribeira Grande, um caminho de terra batida que ligava as quintas de laranja e de vinha da Mãe de Água à canada da Palha e à canada das Gibas. Era a melhor ligação entre a Mãe de Água e a casa de Manuel Pedro na rua Direita, a principal rua da Ribeira Grande, onde nos baixos da sua casa teria ‘lojas.’ Lojas onde se guardava o vinho, a laranja e agora também farinha e cereais? Podia pelas Gibas descer os Foros. Podia pela Palha descer o Outeiro, a Salvação e a rua do Alcaide. Como os moinhos ficavam numa cova, por aquele lado seria mais fácil? O irmão Olímpio morava na rua João de Horta, na margem direita, rua que ficava um pouco arredada das principais ligações da Ribeira Grande com a costa Sul. Terão escolhido aquele caminho por desejavam conquistar a rica clientela da rua Direita e a da Conceição? Fosse qual fosse a razão da escolha, coisa que não nos dizem, optaram pela margem esquerda.7 Daí a ponte.
A ponte foi feita.8 Porém, para construir uma ponte encostada ao aqueduto, Manuel Pedro, ainda ele, e ainda no mesmo documento, teve de pedir autorização ao dono. E o dono era José Maria da Câmara de Vasconcelos, ou melhor, era o seu único filho, a quem havia há pouco passado todos os seus bens. José Maria (em nome do filho) responsabilizando Manuel Pedro (e o irmão, subentenda-se) por quaisquer danos ao aqueduto que ocorressem durante a obra e obrigando-o a negociar em caso de alterações ao projecto, autorizou. Porque foi fácil a autorização de José Maria? E a da Câmara? Talvez porque faziam parte da mesma rede de influências. Talvez porque as famílias pertenciam à elite que governava a Ribeira Grande. Existiam, de facto, entre eles, laços de parentesco. No caso de José Maria e dos irmãos Melo e Silva, José Maria era cunhado do irmão de Madre Margarida Isabel do Apocalipse (autora do Arcano Místico). Os irmãos eram filhos de Ana Umbelina, prima direita e muito querida de Madre Margarida. Manuel Pedro, no seio da sua família chegada, era tido por alguém muito capaz, muito influente e bastante confiável. Recorriam a ele nos momentos decisivos. A mãe, por exemplo, ao lavrar, em 1846, o seu testamento, nomeou-o seu testamenteiro. Apesar de ter mais filhos e de Manuel Pedro nem sequer ser o mais velho. A autora do Arcano Místico também o tem em alta estima. Manuel Pedro, apesar de primo em segundo grau, tratava-a por tia e ela a ele por primo. Madre Margarida Isabel do Apocalipse, em 1857, fê-lo igualmente seu testamenteiro. 9 Até Olímpio, quinze anos mais velho do que Manuel Pedro, em 1875, nomeia o irmão como testamenteiro e confia-lhe a própria escrita do testamento. Também advogavam soluções próximas ou mesmo semelhantes para desenvolver a Ribeira Grande. Após um período marcado por uma profunda desunião, mesmo hostilidade, a elite unia-se em torno de dois projectos: uma associação e um jornal. Antes de Dezembro de 1856, avançavam com a ideia de um jornal.10 A 19 de Fevereiro de 1857, saía o primeiro número de A União.11 José Maria é director e será proprietário. Veio a presidir à ‘Associação (…) para promover os melhoramentos materiais e morais do País (…).’12 País, entenda-se, Ribeira Grande. Entre os nomes referidos, figura o de Manuel Pedro.13 Que, na década de trinta, com pouco mais de vinte anos, já anda pela Câmara. Em Fevereiro de 1835, ele e o pai (ou o irmão, os nomes confundem-se), aparecem riscados na acta daquela sessão.14 Teria já algo a ver com o ambiente que levou à revolta dos Calcetas de Abril de 1835? Não sei. Manuel Pedro, porém, entra em força na década de cinquenta. É vereador.15 Chega a ser Presidente interino. Acompanha muito de perto os moinhos da Ribeira Grande. Em Julho do ano em que constrói os seus na Mãe de Água, por exemplo, convence os colegas da Câmara a intimar ‘os proprietários dos moinhos da canada da Palha e da ribeira dos Escarolas a taparem a ribeira ou levada dos seus moinhos nos lugares perigosos para evitar acidentes com crianças e animais.’16 Não prejudicavam os seus, os seus ficavam a um meio quilómetro a montante?17 Se calhar, quem não o soubesse, poderia lançar-lhe culpas? Será que Manuel Pedro, ao contrário de Manuel Duarte Silva, de quem já falamos nos últimos dois trabalhos, se aproveitou da posição privilegiada que ocupava na Câmara e na sociedade para promover os seus próprios interesses?18 É provável. Como parece ter sido então a norma.
Como se explicará o interesse dos irmãos pelo negócio da farinha? Talvez se possa explicar pelo simples facto de, tal como sucedeu a muitos mais então, considerarem o negócio um bom negócio. Dava-lhes mais rendimentos. Acrescenta ao negócio da laranja, ao do vinho, ao do milho.19 Além do mais, o pai e três irmãos já estavam ou iriam estar metidos no mesmo negócio. Ligaram-se a quatro (casas com) moinhos. O pai fora mesmo dos primeiros da terra a aproveitar a quebra do monopólio do Conde. A 23 de Novembro de 1822, com António da Silva, Manuel Cabral de Melo e António Lopes Cabral, funda uma sociedade para construir moinhos de ribeira na Longaia.20 Pela mesma altura em que Manuel Pedro e Olímpio constroem os seus, o irmão José Duarte Melo, em sociedade com o então cunhado Francisco de Paula Velho, constrói o moinho da Praça, uma das sete segundas casas da levada da Condessa.21 Em 1871, pelo menos, José Duarte é um dos três que recebem foro do Moinho da Areia (II), outra das sete segundas casas da levada da condessa.22
Pelo trabalho de três moegas, a 16 de Abril de 1855, Olímpio paga à Câmara 2$000 réis de taxa por cada uma. É a data em que começaram a laborar? Não sabemos ao certo quando principiaram, embora isso só possa ter ocorrido em data depois de Março de 1852 e antes de Abril de 1855. Será que os moinhos de que fala Manuel Pedro em 1852 são os mesmos de 1855 de Olímpio? 23 Até prova em contrário ou melhor interpretação da que proponho, admito (de forma condicional) que possam ser os mesmos. Alimento essa hipótese nas confrontações dadas pelas Matrizes Prediais desses moinhos e dos restantes da Mãe de Água.24 Porém, por que razão só Olímpio é aí referido? Não será por Manuel Pedro ser vereador naquele ano económico de 1854/1855, era-o em 1852, ainda assim, foi ele e não o irmão quem tratou das licenças com a Câmara. Será, antes, pelo facto de os moinhos pertencerem aos dois, assim, qualquer um deles poderia fazê-lo? Tal como aconteceu com as licenças?25 E se os moinhos pertencessem só a Manuel Pedro e Olímpio apenas estivesse a fazer um favor ao irmão? Ou se Manuel Pedro os tivesse arrendado ao irmão? Não sei. Mais. Como explicar que nem Olímpio nem Manuel Pedro apareçam nas taxas dos anos subsequentes (param em 1856/57)? Foram vendidos ou arrendados a Francisco Melo? No ano económico de 1856/7, Francisco Melo tem na Mãe de Água um moinho de três moegas.26 A ser o moinho dos irmãos, terão sido arrendados. Pois, eles estão ainda na posse da família até depois de 1856/7. Porque os arrendaram? Provavelmente foi uma opção. A que se deve acrescentar motivos pessoais?27
Um salto de três a quatro décadas? O que nos dizem desses moinhos as Matrizes Prediais que virão ainda da década de oitenta ou o mais tardar da primeira metade da de noventa do século XIX?28 Olímpio não aparece. Porquê? Porque falecera a 9 de Setembro de 1879? Ia fazer setenta anos dali a duas semanas.29 Fizera testamento quatro anos antes, em que deixara tudo aos filhos e aos netos. Porém, nada aí se diz de moinhos.30 Porquê? Não sei. Pelo contrário, ‘Manuel Pedro de Melo e Silva e Augusto, filho,’ aparecem, mas estão riscados. Que ligação haveria entre esse Augusto a Manuel Pedro? Filho ou sobrinho neto, filho de Cordelina Augusta da Silva, filha falecida (em 1875) do igualmente falecido irmão Olímpio (falecido em 1879)? Será esse Augusto o Augusto Faria dono (a seguir a Manuel Pedro) da quinta que encosta pelo Sul ao moinho?31 Sobrinho neto, filho ou filho adoptivo, parte ou metade dos moinhos eram dele. Sendo ainda uma criança, tratando-se do sobrinho neto, os pais casaram em 1870, havendo a mãe falecido em 1875, José Leonardo Tavares vai gerir a parte dos moinhos do filho? Será que também gere em nome de Manuel Pedro? José Leonardo Tavares estava dentro da vida dos moinhos, herdara a terça do foro do moinho da Areia, e herdara os moinhos do pai.32 Em 1886, Manuel Pedro ainda era vivo, e ‘José Leonardo Tavares e outro’ (não identificado) pagam à Câmara a taxa daquele ano.33 Esse outro poderá ser ou não Manuel Pedro, que, por qualquer motivo, incluindo doença, cansaço, vendera, arrendara ou deixara os moinhos ao cuidado de José Leonardo que, entretanto, voltara a casar em 1875? Manuel Pedro fizera testamento em 1890, aí também não referira moinhos.34 Porquê? Já os teria vendido? Não sei. Faleceria em Agosto de 1894.35 De setenta e nove anos.36 Nas Matrizes, respeitantes àqueles moinhos, em 1905, figura só o nome de José Leonardo.37 Viria a falecer em Abril de 1911. Aos 65 anos. Em 1913, já pertencem a Viriato Manuel Pereira, de Ponta Delgada. Quem é Viriato? Era comerciante. Natural da Lomba da Maia. Genro de José Leonardo. Casara com Beatriz, filha do segundo casamento de José Leonardo.38 Em 1919, na altura da grande cheia, o moinho já é de Manuel de Andrade Almeida. Homem da Matriz, ligado ao Moinho Novo?39 Porém, apesar dos danos significativos que sofreu, a História desses moinhos, aqui conhecidos por moinhos da Cova ou moinhos do João Vieira Velho, o último a trabalhar com eles, não acabou em 1919. Se foi moinho de ‘rodízio’ (roda ou penado horizontal no cabouco) desde (sensivelmente) 1852 até 1950 foi também, iniciativa de João Vieira Velho, azenha (roda vertical exterior) até parar, o mais tardar em inícios da década de sessenta do século XX. A partir daí, deu guarida a famílias pobres, foi trocado e vendido. Se houver ocasião, quero falar disso.
Por: Mário Moura

Mãe de Água – Cidade da Ribeira Grande

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