O Lar Augusto César Ferreira Cabido conta com quase 145 anos de história ao serviço dos locais e continua a ser uma grande referência no apoio à população idosa na Ribeira Grande. Ao ‘Correio dos Açores’, a gerontóloga Francisca Silveira explica como a instituição cumpre a missão de “proporcionar um envelhecimento digno, activo e com qualidade de vida”, detalhando o funcionamento da lista única de admissões. A profissional aborda ainda o impacto das actividades que promovem a autonomia dos utentes e o sucesso do projecto Novos Idosos, que “promove o envelhecimento no lugar onde a pessoa sempre viveu”. A responsável destaca ainda a importância de envolver a comunidade para combater o idadismo, garantindo que todas as saídas e dinâmicas são rigorosamente validadas pela equipa de saúde para que os utentes usufruam das actividades “com conforto, segurança e dignidade”.
Correio dos Açores – Poderia falar um pouco sobre a história do lar? Como surgiu o projecto?
Francisca Silveira (Gerontóloga da Instituição) – O Lar Augusto César Ferreira Cabido tem uma história com quase 145 anos de serviço à comunidade, sendo a primeira e única IPSS dedicada ao apoio à população idosa no concelho da Ribeira Grande. A sua origem remonta ao testamento do benemérito Augusto César Ferreira Cabido, datado de 23 de Outubro de 1880, no qual expressou a vontade de criar um asilo destinado a acolher pessoas idosas mais vulneráveis, com preferência pelos naturais da Ribeira Grande. Após o seu falecimento, em 1881, esse desejo foi concretizado e a instituição iniciou actividade a 11 de Janeiro de 1885, acolhendo desde logo 12 residentes. Ao longo das décadas, a instituição foi evoluindo e adaptando-se às necessidades da sociedade, passando de Hospício a Asilo de Mendicidade e, mais tarde, em 1996, a Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), adoptando a actual designação de Lar Augusto César Ferreira Cabido.
Hoje, mantendo vivo o espírito solidário do seu fundador, continua a cumprir a sua missão de prestar cuidados e apoio à população idosa, sendo uma referência no concelho da Ribeira Grande.
Qual tem sido a missão do lar ao longo destes quase 145 anos de actividade? Como tem sido o feedback da comunidade?
Ao longo de 145 anos, o Lar Augusto César Ferreira Cabido tem procurado cumprir a missão para a qual foi criado: cuidar e apoiar as pessoas idosas, acompanhando, ao mesmo tempo, a evolução da sociedade e das suas necessidades. Naturalmente, ao longo deste percurso, a instituição foi-se adaptando às diferentes realidades e às novas formas de encarar o envelhecimento, procurando responder de forma cada vez mais humanizada e centrada na pessoa.
No actual ciclo directivo, temos trabalhado com um foco muito claro na nossa missão: proporcionar um envelhecimento digno, activo e com qualidade de vida, valorizando cada utente na sua individualidade, numa abordagem biopsicossocial, e promovendo a sua participação na família, na comunidade e na sociedade. Para isso, temos apostado num acompanhamento mais consistente e estruturado, na continuidade das actividades e dos estímulos, no reforço dos vínculos afectivos, sociais e cognitivos, na criação de rotinas seguras e emocionalmente estáveis e na promoção de uma participação activa, permitindo alcançar benefícios significativos e duradouros para os nossos utentes.
Paralelamente, temos procurado aproximar cada vez mais a instituição da comunidade. Acreditamos que uma instituição desta natureza deve estar aberta ao exterior e fazer parte da vida da comunidade, promovendo encontros, partilhas e iniciativas que aproximem gerações e contribuam para combater o idadismo, ainda tão presente na nossa sociedade. Ao longo do ano, dinamizamos e participamos em diversas actividades abertas à comunidade, como a Festa da Flor, o Cantar às Estrelas, as celebrações do Espírito Santo, entre outras iniciativas que valorizam as tradições locais e incentivam a participação activa dos nossos utentes. O feedback que temos recebido tem sido muito positivo. Sentimos que a comunidade reconhece o trabalho desenvolvido, participa cada vez mais nas nossas iniciativas e vê o Lar como um espaço de proximidade, acolhimento e partilha, de portas abertas a todos aqueles que desejem fazer parte deste caminho.
Quais são os critérios prioritários e as condições para a admissão? Existe muita lista de espera actualmente?
O processo de admissão em lar inicia-se com o preenchimento da ficha de inscrição, seguindo-se uma visita domiciliária realizada pela assistente social e por um elemento da equipa de enfermagem. Nesta visita é recolhida informação que permite elaborar um relatório sociofamiliar e proceder à avaliação global da pessoa idosa. Para esse efeito, são aplicados instrumentos de avaliação das dimensões cognitiva, funcional, psicológica e social. Após esta avaliação, a candidatura é integrada na lista de espera. A prioridade de admissão é definida de acordo com o grau de autonomia, a situação social e as necessidades de cuidados da pessoa idosa.
Actualmente, existe uma lista única de espera para admissão em lar na ilha, o que permite que, no momento da inscrição, a pessoa se candidate a todas as respostas sociais disponíveis na rede. Sempre que surge uma vaga, é realizada uma reunião entre as instituições e a Segurança Social, na qual são analisadas as candidaturas, tendo em conta o perfil da vaga e os critérios de prioridade estabelecidos, de forma a identificar a pessoa que melhor responde às condições dessa admissão.
Assim, o tempo de espera varia significativamente de caso para caso, dependendo sobretudo da situação clínica, do grau de dependência e da urgência das necessidades da pessoa idosa.
A instituição integrou o programa Novos Idosos. Como tem sido a experiência de estender a vossa missão também ao apoio no domicílio?
Sim, desde Setembro de 2024 que a nossa instituição abraçou o projecto Novos Idosos. Sem dúvida que é uma iniciativa muito importante, que representa um apoio significativo para os idosos que dele fazem parte. Assenta num acompanhamento personalizado e numa abordagem biopsicossocial, olhando para cada pessoa de forma global e respeitando as suas necessidades, capacidades e contexto de vida.
Apesar de, neste momento, acompanharmos um número reduzido de idosos, uma vez que não foram abertas novas candidaturas ao projecto, aqueles que integram esta resposta beneficiam de um acompanhamento próximo e de qualidade, que faz uma diferença muito positiva no seu dia a dia.
Acreditamos que, sempre que existem condições para tal, é fundamental promover o envelhecimento no lugar onde a pessoa sempre viveu. Permanecer em casa, no seu ambiente, junto das suas rotinas, das suas memórias e da sua comunidade contribui para preservar a autonomia, reforçar o sentimento de pertença e promover uma melhor qualidade de vida. É precisamente essa filosofia que o Novos Idosos procura valorizar, demonstrando que, com o acompanhamento adequado, é possível apoiar a pessoa idosa sem a afastar do seu contexto familiar e social.
Quais as principais actividades que o lar faz com os mais velhos? Existe alguma em particular que eles adoram?
Na nossa instituição desenvolvemos um plano anual de actividades diversificado, pensado para promover o bem-estar, a autonomia e a qualidade de vida dos nossos utentes. Ao longo de todo o ano realizamos actividades de estimulação cognitiva e intelectual, actividades físicas e motoras, expressão plástica, ateliers temáticos, momentos de convívio e celebrações alusivas às diferentes épocas festivas, sempre com o objectivo de proporcionar experiências significativas e enriquecedoras.
Entre todas as iniciativas, os passeios e as actividades de Verão ocupam um lugar muito especial. É, sem dúvida, a época preferida dos nossos utentes, uma vez que organizamos visitas culturais, passeios a merendários, piqueniques e lanches ao ar livre, aproveitando o bom tempo. Estes momentos são muito aguardados, pois permitem-lhes sair da rotina, conviver, conhecer novos locais e criar memórias. Para muitos, representam também a oportunidade de visitar espaços que nunca tiveram oportunidade de conhecer ao longo da vida.
Para além dos passeios, as acções desenvolvidas em parceria com entidades externas são igualmente das mais apreciadas. Destacamos a colaboração com o Serviço de Mediação e Interpretação do Museu Carlos Machado, através da qual participámos no projecto “O Requinte e a Delicadeza de uma Chavelha”. Ao longo de várias sessões de trabalho, os nossos utentes criaram uma chavelha que foi posteriormente exposta na Ribeira Grande e em Ponta Delgada.
Mais recentemente, integrámos o “Quartos do Espírito Santo: Memória, Comunidade e Património”. Neste âmbito, os nossos utentes participaram na construção de um quarto do Espírito Santo, numa estrutura em madeira com um metro cúbico, que estará em exposição no Museu Carlos Machado, de 14 a 31 de Julho, e posteriormente no Parque Atlântico, de 31 de Julho a 19 de Agosto.
A participação nestes projectos é extremamente valorizada pelos nossos utentes. Para além de estimularem a criatividade e a aprendizagem de novas técnicas, estas iniciativas promovem o contacto com diferentes pessoas e instituições, reforçam o sentimento de pertença à comunidade e proporcionam o orgulho de verem o seu trabalho reconhecido e exposto ao público. São experiências que deixam memórias felizes e contribuem, de forma muito significativa, para o seu bem-estar e realização pessoal.
Procuramos também partilhar regularmente estas actividades nas nossas redes sociais. Fazemo-lo, por um lado, para que os familiares que, por motivos de distância ou outros constrangimentos, não conseguem visitar os seus entes queridos com a frequência desejada possam acompanhar um pouco do seu dia a dia e vê-los a participar em momentos de alegria e convívio. Por outro lado, acreditamos que é importante dar a conhecer à comunidade o trabalho que desenvolvemos diariamente. Quando se trabalha com dedicação, carinho e genuína preocupação pelo bem-estar dos nossos utentes, é motivo de orgulho mostrar o impacto positivo dessas experiências e valorizar o envelhecimento activo e participado.
Como avaliam quais os utentes que têm condições de saúde para participar nesses passeios mais longos ou piqueniques fora do lar?
A segurança e o bem-estar dos nossos utentes são sempre a nossa principal prioridade. Por esse motivo, todos os passeios e actividades no exterior são previamente planeados e cada um é avaliado pela equipa de enfermagem, de forma a confirmar que naquele dia, reúne as condições de saúde necessárias para participar.
Após essa avaliação, toda a equipa é informada sobre os utentes que irão participar, bem como sobre os horários, o percurso e quaisquer cuidados específicos que possam ser necessários durante a actividade.
Sempre que participam pessoas com menor autonomia ou que necessitam de um acompanhamento mais próximo, reforçamos a equipa com colaboradores de ajudantes de lar, garantindo que recebem toda a assistência de que necessitam. O nosso objectivo é que todos possam usufruir destas experiências com conforto, segurança e dignidade, independentemente das suas limitações.
Diogo Simões Pires
(Contínua em próxima edição)
