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“O envelhecimento não deve ser vivido à margem da sociedade, onde a idade nunca seja um motivo de exclusão, mas sim um motivo de respeito e valorização”

Nesta segunda parte da entrevista, Francisca Silveira, gerontóloga da instituição, destaca a importância de integrar as tradições locais no quotidiano dos residentes e defende uma abordagem personalizada e multidisciplinar perante o envelhecimento demográfico. Para a especialista, cuidar vai muito além das necessidades físicas, exigindo a valorização emocional, o combate ao idadismo e o reforço dos laços com a comunidade.

Correio dos Açores – Como são integradas as festividades, a música e as tradições locais da Ribeira Grande na rotina?
Francisca Silveira (Gerontóloga) – As tradições, a música e as festividades locais fazem parte da identidade dos nossos utentes e, por isso, procuramos integrá-las na rotina da instituição sempre que possível. Quando as condições o permitem, levamo-los a participar nas iniciativas promovidas pela comunidade. Quando isso não é possível, fazemos questão de trazer essas tradições até ao lar, para que ninguém deixe de as viver.
Ao longo do ano marcamos presença em diversas actividades culturais da Ribeira Grande. Nas Festas de São Pedro, por exemplo, participamos numa na Biblioteca Daniel de Sá dedicada às alampadas, assistimos à passagem das Cavalhadas junto à instituição e recebemos também o desfile da Feira Quinhentista, permitindo que os nossos idosos vivam estes momentos sem terem de sair do lar.
As tradições do Espírito Santo ocupam igualmente um lugar muito especial. Celebramos as Domingas, rezamos o terço e organizamos uma grande festa com missa, coroação, império, animação, sopas, massa sovada, arroz-doce e todos os elementos que fazem parte desta tradição tão enraizada na nossa cultura. Este ano tivemos ainda a honra de receber a Coroa da Rua, pelo que a festa do Espírito Santo do próximo ano será realizada por nós, um momento que terá, certamente, um significado muito especial para os nossos utentes. A recepção da Coroa foi assinalada com uma celebração à altura da tradição, incluindo um cortejo desde a rua até ao lar, acompanhado de animação e convívio. Aqueles que tinham autonomia e interesse para participar viveram este momento com enorme entusiasmo e emoção.
Sempre que organizamos estas celebrações, procuramos realizá-las ao fim de semana, de forma a facilitar a participação de todos. Esta opção permite que os nossos colaboradores estejam presentes e vivam estes momentos em conjunto com os utentes, mas também que as famílias, que são sempre convidadas, possam participar activamente. Acreditamos que estes momentos ganham um significado ainda maior quando são partilhados entre residentes, familiares, colaboradores e comunidade, fortalecendo os laços afectivos e promovendo um verdadeiro espírito de união e pertença.
Participamos também na Festa da Flor, envolvendo os residentes na preparação e no desfile. Este ano contamos com a participação de cerca de 30, acompanhados pelos assistentes do lar e alguns familiares, todos devidamente trajados de acordo com o tema da festa e com as condições de acessibilidade necessárias para que pudessem desfrutar plenamente da experiência.
Ao longo do ano celebramos igualmente outras datas marcantes, como o Natal, com uma festa que reúne utentes, colaboradores e familiares, incluindo almoço de convívio, celebração religiosa, animação musical e entrega de presentes a todos. O Carnaval é também vivido com grande entusiasmo, através de uma tarde temática onde nós participamos, num ambiente de alegria, música e partilha.
Mais do que assinalar datas festivas, procuramos preservar as tradições que fazem parte da história e da identidade dos mais velhos. Reviver estas celebrações permite-lhes manter vivas as suas memórias, reforçar o sentimento de pertença à comunidade e continuar a sentir-se ligados às raízes e aos costumes que marcaram as suas vidas.

Ao longo do vosso dia-a-dia, que é naturalmente exigente, quais são as maiores recompensas ou orgulhos para a vossa equipa?
Essa é, talvez, uma das perguntas mais difíceis de responder, porque aquilo que nos move não se resume em palavras.
Na nossa instituição trabalhamos, acima de tudo, com o coração. Cada actividade, cada passeio, cada celebração e cada pequeno momento do dia é pensado em função dos nossos utentes: se vão gostar, se lhes fará bem, se lhes proporcionará um dia diferente e mais feliz. É esse o princípio que orienta o nosso trabalho diariamente.
Naturalmente, é um dia-a-dia muito exigente. Organizar actividades, preparar festividades, articular equipas e garantir que tudo decorre com qualidade exige muito empenho, dedicação e um enorme trabalho de bastidores. Muitas vezes vivemos dias de verdadeira correria para que tudo esteja preparado ao pormenor. No entanto, são os próprios utentes que, sem o saberem, nos fazem abrandar e recordar aquilo que realmente importa.
Basta um simples “Obrigada por este dia”, um “Senta-te e descansa, está tudo óptimo” ou um “Anda cá para te dar um beijinho”, para que tudo faça sentido. São palavras simples, mas carregadas de significado. Nesses momentos percebemos que todo o esforço vale a pena e que estamos a cumprir a nossa missão.
As maiores recompensas são precisamente essas: um sorriso genuíno, um abraço apertado, um beijo inesperado, um olhar de gratidão ou uma lágrima de emoção. São gestos que dificilmente se conseguem explicar, mas que enchem o nosso coração e nos dão a certeza de que estamos no caminho certo. Trabalhamos todos os dias para proporcionar bem-estar, dignidade e felicidade aos nossos residentes, independentemente das suas limitações, e não existe reconhecimento maior do que sentir que conseguimos fazer a diferença nas suas vidas.
Também o carinho e o reconhecimento das famílias e da comunidade representam um enorme motivo de orgulho para toda a equipa. Quando uma família confia na nossa instituição para cuidar de quem mais ama, entrega-nos muito mais do que um utente, entrega-nos uma parte da sua história, da sua vida e da sua confiança. É uma responsabilidade enorme, que assumimos com profundo respeito, dedicação e sentido de missão.
Mais do que uma instituição, procuramos ser uma verdadeira casa, onde todos se sintam seguros, valorizados, respeitados e, acima de tudo, felizes. Esse é o maior orgulho da nossa equipa e a razão pela qual continuamos, todos os dias, a dar o melhor de nós.

Com o envelhecimento demográfico que a Região enfrenta, quais são os maiores desafios que o lar antecipa para os próximos anos e que projectos gostariam de ver nascer?
O envelhecimento demográfico é, sem dúvida, um dos maiores desafios que a nossa Região enfrenta e exige que todos olhemos para esta realidade de uma forma diferente. Hoje, envelhecer não significa apenas viver mais anos; significa garantir que esses anos são vividos com qualidade, dignidade, autonomia e participação na comunidade.
Aqui acreditamos que o futuro passa por uma intervenção cada vez mais personalizada e multidisciplinar. É fundamental olhar para cada pessoa na sua individualidade, respeitando a sua história de vida, os seus interesses, as suas capacidades e as suas necessidades. Cuidar não é apenas responder às necessidades físicas, mas também promover o bem-estar emocional, estimular a mente, incentivar o movimento, fortalecer as relações sociais e criar oportunidades para que cada um continue a sentir-se útil, valorizado e integrado.
Enquanto gerontóloga, acredito que a Gerontologia tem um papel essencial neste caminho. É uma área que olha para a pessoa de forma global, integrando as dimensões física, cognitiva, emocional e social do envelhecimento. Mais do que intervir quando surgem as dificuldades, procura preveni-las, promovendo um envelhecimento activo e saudável. É um pouco como preparar uma caminhada, sabe? Sabemos que o caminho vai existir e que haverá subidas e descidas e que vamos ficar cansados, mas podemos garantir que se leva o calçado certo, que se faz as pausas necessárias e que se tem sempre alguém que, se necessário, nos auxilia no percurso. Na Gerontologia é precisamente isso que procuramos fazer, não podemos impedir que os anos passem, mas podemos ajudar cada pessoa a percorrer esta etapa com mais segurança, autonomia, bem-estar e qualidade de vida.
Gostaríamos de continuar a desenvolver projectos que aproximem ainda mais os nossos utentes da comunidade, reforçando as parcerias com escolas, instituições culturais e associações locais, promovendo o contacto entre gerações e combatendo o isolamento social. Acreditamos que é através destas ligações que também contribuímos para combater o idadismo, desconstruindo estereótipos associados ao envelhecimento e mostrando que a idade não define o valor, as capacidades ou a vontade de participar activamente na sociedade.
Acima de tudo, esperamos que a sociedade continue a olhar para os idosos como pessoas com história, com sonhos, com capacidades e com muito para oferecer. O envelhecimento não deve ser encarado como uma limitação, mas como uma etapa da vida que merece ser vivida com respeito, propósito e felicidade. É esse o compromisso que assumimos todos os dias na nossa instituição: promover um envelhecimento activo, digno e participado, onde cada pessoa é valorizada pelo que é e por tudo aquilo que continua a poder ser e a oferecer à comunidade.

Para terminar: que mensagem gostariam de deixar a toda a comunidade?
Gostaríamos de deixar um convite a toda a comunidade: que olhe para os idosos com tempo, com respeito e com o carinho que merecem. Cada pessoa que hoje vive numa instituição tem uma história, uma família, uma profissão, conquistas, dificuldades e memórias que ajudaram a construir a sociedade que conhecemos. Continuam a ter sonhos, vontade de aprender, de conviver, de sorrir e de criar memórias.
Enquanto instituição, acreditamos que envelhecer não significa deixar de viver, não significa o fim. Significa apenas viver uma nova etapa, que deve ser acompanhada com dignidade, propósito e felicidade. É essa a missão que assumimos todos os dias, de proporcionar aos nossos utentes oportunidades para continuarem a participar, a aprender, a celebrar as nossas tradições, a criar laços e a sentir que continuam a fazer parte da comunidade.
Gostaríamos também de agradecer a todas as famílias pela confiança que depositam em nós, aos nossos colaboradores pelo profissionalismo, dedicação e carinho com que desempenham diariamente o seu trabalho e a todas as entidades parceiras que caminham connosco e tornam possível concretizar tantos projectos e tantas experiências enriquecedoras.
Se esta entrevista puder deixar apenas uma mensagem, que seja esta: o envelhecimento não deve ser vivido à margem da sociedade.
Cabe-nos a todos construir uma comunidade mais inclusiva, onde a idade nunca seja um motivo de exclusão, mas sim um motivo de respeito e valorização. Porque uma sociedade que cuida dos seus idosos é, acima de tudo, uma sociedade que respeita o seu passado, valoriza o seu presente e acredita no seu futuro.
Diogo Simões Pires

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