O Expolab – Centro Ciência Viva organiza hoje um festival de ciência anual. O evento terá lugar, este ano, no Jardim António Borges e é aberto a todos os que queiram participar, independentemente da sua faixa etária. Ao Correio dos Açores Vera Gouveia, biólogo que faz parte da equipa do Expolab que organiza o evento, conta como surgiu, que actividades têm programadas, quais são as principais dificuldades e assume: “o maior desafio é encontrar o equilíbrio entre o rigor científico e uma comunicação simples, envolvente e acessível”
Correio dos Açores – Como é que surgiu o conceito do festival? Qual o principal objectivo?
Vera Gouveia (Bióloga) – O conceito do festival surgiu da vontade de levar a ciência para fora dos espaços tradicionais e aproximá-la das pessoas, num ambiente descontraído e familiar.
O formato de festival permite também reunir diferentes áreas científicas e várias entidades num único espaço, oferecendo ao público a possibilidade de explorar e participar. No fundo, nasceu da ideia de transformar uma tarde no jardim numa experiência de descoberta, mostrando que a ciência é acessível e está em todo o lado.
O principal objectivo é aproximar a ciência da comunidade de uma forma prática, divertida e acessível, incentivando crianças e adultos a observar, experimentar, questionar e descobrir o mundo que os rodeia. A iniciativa transforma o jardim António Borges num espaço de descoberta e experimentação, onde diferentes entidades ligadas à ciência, à educação, ao ambiente e à tecnologia (Apiário das Margaridas, OASA, OVGA, OMIC, OAA, SPEA) apresentam actividades práticas e interactivas, contando com o apoio da Vice-Presidência do Governo, Câmara Municipal de Ponta Delgada e da Ciência Viva – ANCCT.
Qual é o maior desafio em criar um evento que consiga atrair desde o público mais pequeno até ao adulto sem formação científica?
O maior desafio é encontrar o equilíbrio entre o rigor científico e uma comunicação simples, envolvente e acessível. As actividades têm de despertar a curiosidade das crianças e dos jovens, sem parecerem demasiado infantis para o público adulto, e devem permitir a participação de pessoas com diferentes conhecimentos e experiências.
Para isso, é importante criar propostas práticas, intuitivas e com vários níveis de aprofundamento, nas quais cada participante possa aprender ao seu próprio ritmo. O objectivo é que ninguém se sinta excluído ou intimidado pela ciência, mostrando que esta faz parte do quotidiano e pode ser descoberta de forma descontraída por pessoas de todas as idades.
Como é que a gincana é construída para envolver adultos e crianças ao mesmo tempo, em vez de os pais ficarem só a assistir?
A gincana foi pensada precisamente para que os adultos não fiquem apenas a assistir. Os desafios incentivam a participação em equipa, juntando crianças e adultos na procura de pistas, na realização de pequenas experiências e na resolução de questões.
Tentámos criar actividades com diferentes níveis de dificuldade, para que todos possam contribuir. Muitas vezes, as crianças têm uma capacidade de observação e uma curiosidade muito próprias, enquanto os adultos ajudam a interpretar a informação ou a organizar o raciocínio. No fundo, o mais importante é que aprendam e descubram em conjunto.
Como é que os monitores conseguem explicar o mesmo tema (ex: microrganismos ou física) de forma interessante tanto para uma criança de 6 anos como para os pais?
O segredo está em utilizar uma linguagem sem alterar o rigor científico. Os monitores começam por apresentar o tema de uma forma simples e visual, recorrendo a objectos, experiências, comparações com situações do dia a dia e perguntas que despertem a curiosidade.
Por exemplo, com uma criança de seis anos, podemos explicar os microrganismos como seres vivos tão pequenos que precisamos de um microscópio para os observar. Depois, com os adultos, podemos aprofundar o tema, falando sobre o papel que desempenham na saúde, nos alimentos ou nos ecossistemas.
A explicação vai sendo construída por níveis, de acordo com as perguntas e o interesse de cada participante. Assim, todos partem da mesma experiência, mas cada pessoa pode retirar dela conhecimentos diferentes.
Que actividades estão planeadas para este dia?
Ao longo da tarde, os participantes serão desafiados a realizar uma gincana científica, pensada para envolver toda a família na realização de pequenas experiências, na procura de pistas e na resposta a algumas questões. Estão previstas actividades sobre plantas endémicas, vulcanismo, insectos, microrganismos, aves, astronomia, física e robótica.
A ideia é que cada pessoa possa circular pelo jardim, experimentar diferentes actividades e descobrir que a ciência está presente tanto na natureza como na tecnologia. Será uma tarde muito prática, divertida e acessível.
Quais são as actividades que mais costumam chamar a atenção das pessoas?
As actividades que mais chamam a atenção são, normalmente, aquelas em que as pessoas podem participar directamente e observar algo que não vêem no dia a dia. A tecnologia costuma chamar muito a atenção dos mais novos, enquanto, as actividades sobre astros, microrganismos, atrai os participantes mais curiosos.
Também têm muito sucesso as experiências com resultados visuais e imediatos, bem como os desafios que envolvem a descoberta de plantas, insectos, rochas ou aves no próprio jardim.
No fundo, o que mais cativa o público é a possibilidade de tocar, experimentar, observar e chegar às respostas por si próprio, em vez de apenas ouvir uma explicação.
De que forma este evento pode servir de inspiração ou recurso pedagógico para os professores aplicarem nas salas de aula no próximo ano lectivo?
Este evento pode ser uma fonte de ideias práticas para os professores, porque mostra que é possível trabalhar vários conteúdos científicos de forma simples, experimental e ligada ao quotidiano.
Muitas das actividades podem ser adaptadas à sala de aula ou ao recreio, recorrendo a materiais acessíveis. Por exemplo, podem ser desenvolvidas pequenas experiências de física, observações ao microscópio, desafios de robótica ou trabalhos de identificação de plantas, insectos e rochas.
A própria gincana pode inspirar a criação de actividades, onde os alunos observam, colocam hipóteses, testam ideias e registam conclusões. Além disso, permite cruzar diferentes disciplinas, como Ciências Naturais, Matemática, Português, Tecnologias e Educação Visual, entre outras.
O que é que gostariam que as famílias e os participantes levassem para casa depois de passarem uma tarde no jardim?
Gostaríamos, acima de tudo, que as famílias levassem para casa mais curiosidade e vontade de continuar a descobrir. Que percebessem que a ciência não está apenas nos laboratórios ou nos livros, mas também nas plantas, nos insectos, nas rochas, no céu e em tudo aquilo que nos rodeia.
Esperamos também que levem boas memórias de um momento vivido em família, no qual adultos e crianças aprenderam, experimentaram e se divertiram em conjunto.
Mesmo que não se recordem de todas as explicações, gostaríamos que ficassem com o hábito de observar melhor, fazer perguntas e procurar respostas. Para nós, esse despertar da curiosidade é uma das aprendizagens mais importantes que o evento pode proporcionar.
Porquê a escolha do Jardim António Borges? Como é que o próprio espaço natural ajudar a explicar estes conceitos de ciência?
A escolha do Jardim António Borges, como outros jardins já utilizados para realizar este o Festival de Ciência no Jardim, como é o caso do Parque Terra Nostra e o Jardim da Universidade dos Açores, está muito ligada à riqueza e à diversidade do espaço. No caso do Jardim António Borges, ao realizar-se num espaço verde e público, o festival procura também valorizar este jardim botânico enquanto local de aprendizagem, despertar a curiosidade científica e sensibilizar para a importância do conhecimento e da protecção da natureza.
O próprio jardim funciona como um laboratório ao ar livre. Podemos explorar temas como a biodiversidade, a fotossíntese, os ecossistemas, os microrganismos, os sons das aves ou até algumas propriedades das rochas, utilizando exemplos que estão mesmo à nossa frente, permitindo observar a ciência directamente, em vez de falarmos apenas sobre ela, ou seja, não é preciso entrar num laboratório para fazer perguntas, observar fenómenos e aprender ciência: muitas vezes, basta olhar com mais atenção para aquilo que nos rodeia.
Frederico Figueiredo
