Há quem diga que governar é resolver problemas. Outros defendem que governar é antecipá-los.
O atual executivo nacional parece ter descoberto uma terceira via: viver de crise em crise, esperando que a seguinte faça esquecer a anterior. Por vezes, uma consegue sobrepor-se a outra, quando ambas se encavalitam na abertura dos telejornais.
E se fosse com os outros?
Esta deveria ser uma pergunta obrigatória para qualquer primeiro-ministro. Para qualquer ministro. Para qualquer sujeito com responsabilidades.
Mas não é. Pelo contrário, é olimpicamente ignorada elo governo de turno, porque a resposta é simples. E dura, como a realidade.
Num espaço de poucos dias, o país assistiu a três episódios que dificilmente poderiam ser mais diferentes entre si. Primeiro, o tanque no Alentejo. Depois, o atrelado desviado com uma assinatura que não aparece. Finalmente, os exames nacionais, que não se endireitam.
Em comum, uma sucessão de explicações tardias, pedidos de desculpa, garantias de confiança política e a inevitável sensação de que ninguém consegue controlar verdadeiramente a narrativa. Num caso, um problema político de, eventualmente, excesso de ambição a andar para a frente.
Noutro, um desarranjo pessoal, de contornos mal explicados, mas muito parecido com a habitual informalidade típica dos portugueses de tasca.
Aquele que, tantas vezes, se confunde com crimes menores. Com o peso da responsabilidade do ministro, os pretensos crimes de menores não terão nada.
O caso de Luís Neves é talvez o mais delicado.
O antigo diretor nacional da Polícia Judiciária chegou ao Governo com um capital de credibilidade construído ao longo de décadas.
A sua imagem pública assentava na competência, na discrição e na independência.
Porém, as recentes notícias relacionadas com a utilização de um atrelado ao cuidado da polícia, encontrado na posse de um empresário amigo investigado, e as dúvidas suscitadas sobre essa relação, vieram abrir uma frente política inesperada.
Mesmo que as investigações venham a afastar qualquer responsabilidade criminal, há perguntas que, em política, não desaparecem apenas porque não constituem crime.
A confiança pública vive tanto da legalidade como da perceção de transparência.
Do outro lado do ringue está Fernando Alexandre.
O ministro da Educação viu-se confrontado com atrasos na divulgação e tratamento dos exames nacionais, criando ansiedade entre milhares de alunos e famílias que aguardavam pelos resultados para o acesso ao ensino superior. O ministro pediu desculpa, assumiu o problema e prometeu medidas para evitar a repetição da situação.
O primeiro-ministro respondeu renovando-lhe a confiança. É uma opção legítima. Mas também é verdade que os estudantes não concorrem ao ensino superior com votos de confiança política. Concorrem com calendários, prazos e resultados. E Fernando Alexandre está umbilicalmente ligado a eles.
O curioso é que a discussão acabou por deixar de ser sobre os problemas para passar a ser sobre a permanência dos ministros.
Uns exigem demissões ao primeiro contratempo.
Outros respondem blindando os seus governantes perante qualquer dificuldade.
Pelo caminho, fica por discutir aquilo que realmente importa: porque aconteceram estes erros e o que será feito para impedir que se repitam.
Há uma velha máxima militar que diz que um tanque parado é apenas um alvo fácil. Em política, existe uma versão semelhante: um governo que passa demasiado tempo a reagir aos acontecimentos acaba por ser conduzido por eles.
O tanque será piscina ou só um disparate. O caso do atrelado acabará por ser esclarecido, política ou judicialmente.
Os exames serão concluídos e os alunos seguirão o seu caminho. Já a credibilidade é diferente. Constrói-se lentamente, decisão após decisão, mas pode começar a desfazer-se quando os cidadãos deixam de acreditar que quem governa controla verdadeiramente os acontecimentos.
E essa é uma prova que nenhum ministro deveria querer reprovar.
Por: Fernando Marta