A Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, na Horta, acolheu esta semana, como referimos atempadamente, a apresentação pública do Estudo Multidisciplinar para o Conhecimento da alga invasora Rugulopteryx okamurae nos Açores, uma iniciativa promovida pela Direcção Regional das Políticas Marítimas, em colaboração com a Universidade dos Açores.
O estudo, desenvolvido por uma equipa multidisciplinar de investigadores do OKEANOS – Instituto de Investigação em Ciências do Mar, do CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, do IITAA – Instituto de Investigação em Tecnologias Agrárias e do Ambiente e do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, conforme foi avançado pelos especialistas, representa um passo fundamental para aprofundar o conhecimento científico sobre esta espécie invasora e apoiar a definição de estratégias de gestão adequadas à realidade do arquipélago.
A proliferação desta alga invasora Rugulopteryx okamurae no arquipélago representa um desafio ecológico de grande escala, devido à sua rápida disseminação, nas zonas costeiras submersas das ilhas, entre 10 e 30 metros em profundidade. Esta bioinvasão ameaça a biodiversidade marinha, afecta as actividades recreativas e desportivas aquáticas, reduz a atractividade marítimo-turística (em especial o mergulho e o lazer costeiro) e gera impactos socioeconómicos negativos, pela deposição de grandes volumes de biomassa algal em áreas costeiras.
Em nota, é referido que ao longo da sessão foram apresentados os resultados do projecto que revelam que a Rugulopteryx okamurae se continua a expandir rapidamente no arquipélago, tendo sido detectada, desde o primeiro registo em São Miguel, em 2019, em praticamente todas as ilhas dos grupos Oriental e Central, existindo já indícios da sua chegada ao Grupo Ocidental. Em diversas zonas costeiras, a espécie forma extensos mantos que cobrem totalmente o fundo marinho até cerca de 40 metros de profundidade, substituindo macroalgas nativas e provocando uma redução significativa da biodiversidade dos habitats bentónicos.
Os investigadores demonstraram ainda que a espécie apresenta uma elevada capacidade de adaptação às condições ambientais dos Açores e um crescimento particularmente acentuado durante a primavera. No Verão, a fragmentação e desprendimento dos talos originam grandes arrojamentos nas zonas costeiras, cuja monitorização foi reforçada através da combinação de trabalho de campo, imagens de satélite e ciência-cidadã. Esta abordagem revelou potencial para a criação de sistemas de alerta precoce que permitam antecipar episódios de acumulação da alga nas praias açorianas.
Para além da caracterização da invasão, o estudo identificou oportunidades para transformar esta espécie invasora num recurso com valor acrescentado. Entre as aplicações analisadas destacam-se a produção de biocarvão para utilização como corretor de solos ácidos e biofertilizante, a avaliação do seu potencial para reduzir as emissões de metano na alimentação de ruminantes e a extracção de compostos bioativos com propriedades antioxidantes, antibacterianas e anti-inflamatórias, com potencial interesse para as indústrias farmacêutica, cosmética e biotecnológica.
Os investigadores alertaram, contudo, que o aproveitamento da biomassa poderá ser condicionado pela presença de resíduos plásticos em alguns arrojamentos, particularmente nas praias de Porto Pim e Porto do Alcaide (cidade da Horta, ilha do Faial), evidenciando a necessidade de integrar esta problemática nas futuras estratégias de recolha e valorização da alga.
As conclusões do projecto apontam ainda para a impossibilidade, nas condições actuais, de erradicar a espécie dos Açores, reforçando que a resposta deverá centrar-se na monitorização contínua, na detecção precoce de novos focos, na mitigação dos impactos ecológicos e na valorização sustentável da biomassa, através de uma estratégia coordenada entre a comunidade científica, as entidades públicas e os utilizadores do mar.
A sessão constituiu igualmente um espaço de partilha e debate entre investigadores, técnicos e decisores, promovendo a discussão em torno dos desafios associados à gestão desta espécie marinha invasora. A iniciativa reuniu investigadores de diferentes pólos da Universidade dos Açores, técnicos da administração pública regional e das autarquias locais, autoridades marítimas, representantes da sociedade civil e equipas científicas nacionais que têm desenvolvido investigação sobre Rugulopteryx okamurae em Portugal continental. Este debate alargado procurou reforçar a articulação entre a comunidade científica e as entidades responsáveis pela gestão do território, contribuindo para a definição de estratégias coordenadas de monitorização, mitigação e resposta à expansão desta espécie invasora.
Os resultados produzidos constituem uma base científica essencial para apoiar a tomada de decisão e a implementação de medidas de monitorização, mitigação e gestão da Rugulopteryx okamurae nos dos Açores, como referido na nota divulgada, após a apresentação.
Contratado pelo Governo Regional dos Açores, através da Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática e gerido pela Direcção Regional de Políticas Marítimas.
O projecto foi desenvolvido por investigadores de vários institutos e centros de investigação dos três pólos da Universidade dos Açores, nomeadamente do OKEANOS – Instituto de Investigação em Ciências do Mar, do CIBIO-Açores – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, do IITAA – Instituto de Investigação em Tecnologias Agrárias e do Ambiente e do cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais.
