O lugar da Caloura, outrora designado por Vale dos Cabaços, fica localizado na freguesia de Água de Pau, concelho da Lagoa.
Ocupa uma extensa fajã lávica e dispõe de um pequeno porto relativamente acessível e bem abrigado que servia Água de Pau. A morfologia da costa da Caloura permitia a aproximação furtiva de embarcações indesejadas (piratas) que infernizava a vida das comunidades religiosas que inicialmente se instalaram neste local.
Para a sua defesa foram construídos três pequenos fortes: N. Srª. da Conceição, N. Srª. da Vitória e o do Convento da Caloura. Dos dois primeiros restam vestígios significativos e o último está em bom estado de conservação, tendo sido recentemente intervencionado (mal) com o reboco das suas muralhas e canhoneiras originais em silharia e pintadas de branco. A localização das três construções permitia o apoio mútuo dos seus fogos.
Forte de N. Senhora da Conceição, da Caloura, de Água de Pau
Localizado à ilharga do varadouro da Caloura, tinha como missão impedir a aproximação e desembarque neste local.
Desconhece-se quando e por quem foi mandado construir e a sua tipologia inicial.
É referido por Gaspar Frutuoso nas Saudades da Terra, Livro IV, como forte de Água de Pau, pelo que a sua construção é provavelmente da segunda metade do século XVI.
Uma planta de 1864 representa-o com forma poligonal irregular, com duas canhoneiras, quartel e paiol. No entanto, o Major Joaquim Guilherme da Costa no seu relatório de 1834 afirmava que tinha três canhoneiras e alojamento para 9 praças.
Foi vendido em hasta pública ao padre Manuel Inácio Vieira. A sua cortina ainda existe, podendo ver-se perfeitamente as suas canhoneiras entaipadas. A sua guarita serve de arrumo para artigos de limpeza do restaurante onde nos dias de hoje o forte se integra.
Forte de N. Senhora da Vitória
Localiza-se ao fundo da Rua do Castelo, implantado numa alta falésia, presentemente em desagregação devido à erosão do mar.
Desconhece-se quando e por quem foi mandado construir e a sua tipologia inicial.
Tinha por missão bater navios em aproximação ao porto da Caloura, pelo que tinha que possuir artilharia de grosso calibre. Aliás, o Sargento-Mor engenheiro Borba Gato, em 1797, relatava que tinha cinco canhoneiras e cinco peças de ferro desmontadas, pelo que sugeria, dada a sua localização, que fosse somente utilizado como posto de vigia.
Não se conhece qualquer representação iconográfica deste forte.
Restam ainda alguns panos de cortina, algumas canhoneiras e merlões e uma guarita. A parte restante ruiu com a falésia.
Forte do Convento da Caloura
Localizado a Nascente da ermida do convento, na continuação da parede que acompanha a estrada.
Segundo a inscrição num painel de azulejos existente numa das paredes do forte este foi mandado construir pelo filho primogénito do Capitão-Mor da Ribeira Grande, Manuel de Sousa Estrela, que entretanto tinha professado no convento da Caloura, provavelmente em meados do século XVIII.
Tinha por missão bater de flanco o porto da Caloura e de frente o itinerário que vai do porto na direcção do convento. Possui uma só cortina com três canhoneiras e tinha um paiol.
Com este artigo, dá-se por concluída uma breve síntese sobre os sistemas defensivos fortificados que defendiam a costa da ilha de S. Miguel entre os séculos XV e XX. Só foram abordadas as construções antigas e modernas constituídas em sistema, ou seja, duas ou mais construções que se apoiavam mutuamente na defesa de uma área sensível. A fortificação isolada, como por exemplo, os fortes de Santa Cruz (Lagoa), de S. Brás (Porto Formoso), da Mãe de Deus (Povoação), de S. Amaro e Conceição (Mosteiros), da N. Srª. da Graça (Ribeira Quente), etc., poderão integrar um outro trabalho, se for considerado de interesse.
De qualquer modo gostaria de realçar que o objectivo primeiro destes artigos é um alerta para a situação do património militar construído nos Açores em geral, e em S. Miguel, em particular.
Quanto à sua importância para a segurança dos Açores, vou recordar as afirmações e o apelo feito por um profundo conhecedor da fortificação açoriana, o dr. Manuel Coelho Batista de Lima, proferidas no I Congresso de Monumentos Militares Portugueses, realizado em 1982 em Vila Viçosa: É desses fortes que defenderam outrora os Açores e a terra portuguesa, obrando por vezes prodígios à custa de sacrifícios incríveis para salvar o solo pátrio da violência dos inimigos que atacavam as pacíficas populações como lobos esfaimados (…). Conclui, exortando (…) para que essas pedras venerandas sejam respeitadas e essas fortalezas que outrora salvaram a fazenda e a vida a tantas centenas e milhares de concidadãos nossos (…) rada e integradas. (…).
José M. Salgado Martins, Cor. Ref.
