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“Um dos nossos desafios é desmistificar o porquê de estarmos a apostar numa cultura que não é a nossa”, explicam os Meio Q´É Samba

Os Meio Q´É Samba são um projecto musical composto por quatro açorianos e um continental, oriundos do mundo das tunas, com a missão de levar a cultura do samba a várias ilhas dos Açores. O Correio dos Açores falou com Hugo Arruda, Jorge Veríssimo e Diogo Botelho, três dos fundadores da banda, que recordaram o nascimento da banda, abordaram os desafios do crescimento e os planos para o futuro.

Correio dos Açores- Como surgiu o projecto Meio Q’É Samba?
Hugo Arruda – Os Meio Q´É Samba são um projecto de uma roda de samba, composto por cinco elementos: Hugo Arruda, Jorge Veríssimo, Diogo Botelho, Pedro Gomes e Tiago Silva. Somos quatro açorianos, três de São Miguel, um de São Jorge e um continental. O projecto surgiu a 12 de Abril de 2024, com uma actuação no Bar Provisório. O grupo em si surgiu um pouco antes, ainda sem os elementos todos, onde tocávamos música portuguesa. Depois foi-nos feito o desafio, por parte do Provisório, para fazermos uma roda de samba. No princípio não tínhamos reportório nenhum, nem tocávamos música brasileira, mas aceitámos o desafio. Começámos a ver as músicas, a ensaiar e conseguimos montar uma mini-actuação para a estreia.

Todos os elementos têm formação ou percurso musical?
Jorge Veríssimo – Sim. Nós conhecemo-nos todos na universidade. Somos todos oriundos do mundo das Tunas. Tínhamos o mesmo “bichinho” pela música, portanto, seria mais fácil de, na eventualidade de criarmos um grupo, saber perfeitamente quem é que poderia estar interessado em fazer parte de um projecto destes. Apesar de já nem todos estarem ligados aos mesmos grupos ou estarem mais desligados da universidade, o grupo está unido. Fomos todos criados quase como família e é assim que funciona este grupo. Para nós, é importante ter sempre esta união, pois ajuda a que a vida da banda corra melhor.

Como mencionaram, existiu um grupo musical anterior. Como é que esse grupo nasceu e a importância que teve para os Meio Q´É Samba?
Diogo Botelho – Quem nos juntou pela primeira vez foi o Sr. Luís dos Anjos. Ele falou com alguns músicos que já conhecia das Tunas e juntou um grupo, que até tinha mais dois elementos que depois se afastaram por razões pessoais. Fizemos uma ou duas actuações, o que nos despertou a fome de continuar a tocar e ver o que é que conseguíamos fazer. Chamámos o Pedro e surgiu esse projecto de música portuguesa. Quando já tínhamos um reportório de música portuguesa mais ou menos montado, surge o desafio de criarmos uma roda de samba e nunca mais olhámos para trás.

Começaram com quatro elementos, adicionando o Tiago posteriormente. Porque motivo sentiram necessidade de adicionarem mais um elemento?
DB – Cantar duas horas consecutivas não é fácil, principalmente quando tocávamos quatro vezes num fim de semana. Já estávamos a falar sobre acrescentar um membro, para ajudar o Hugo na parte da percussão e para dar um apoio na voz. Depois dos convites para o carnaval de 2026, concordámos todos em trazer um quinto elemento e o Tiago foi um dos primeiros nomes que nos veio à cabeça. Tinha que ser alguém que já estava dentro do mundo da música e que já nos conhecesse, para facilitar na integração e manter o grupo unido. Se algum dia viermos acrescentar mais algum elemento, será certamente dentro dessas medidas.

E estão a pensar em trazer mais alguém para o grupo?
HB – O samba tem uma particularidade: funciona muito à base de instrumentos. Em vez de ter uma bateria, por exemplo, há seis instrumentos de percussão. Há mais instrumentos, mas cada um faz um pouco menos. As rodas de samba vivem de muita gente. Os cinco elementos continuam a ser pouco, mas temos conseguido fazer as nossas actuações e tem corrido bem. Há a possibilidade de ir buscar mais um ou dois elementos, principalmente para ajudar na percussão e nas vozes.
É difícil conciliar a agenda da banda com a vida profissional de cada um?
JV – Nós tentamos fazer tudo com o máximo de profissionalismo possível, no entanto, ninguém aqui é profissional da música ao ponto de conseguir viver dela. Todos temos os nossos trabalhos, sendo que alguns trabalham por turnos, portanto é necessário conjugar os horários de uns com os horários de outros. Esse é um dos maiores desafios actualmente. Infelizmente não conseguimos aceitar todos os convites, muito por esse motivo. Quanto maior o número de pessoas no grupo, mais difícil se torna conseguir juntar as disponibilidades de todos.

Já tocaram em várias ilhas da Região. Como foi a recepção do público nas actuações fora de São Miguel? Essas experiências abriram portas para novos convites?
HA – A nossa primeira actuação fora de São Miguel foi à Graciosa, a convite do Grafil Bar. Depois fomos a Santa Maria, a convite da Associação Maré de Agosto e a São Jorge, a convite do Município de Velas. Fomos sempre muito bem recebidos. Na Graciosa recebemos novamente um convite, o que é bom sinal. Também em Santa Maria já houve contactos para lá voltarmos no futuro. Em São Jorge tivemos pessoas que ficaram com os nossos cartões e os nossos contactos. Até queriam que nós fossemos lá no fim de semana a seguir para um aniversário, mas infelizmente já tínhamos actuações marcadas. Felizmente o Verão está bastante preenchido.

Quais são, actualmente, os principais desafios para o crescimento da banda?
JV – Penso que uma das maiores dificuldades tem sido arranjar um espaço para podermos ensaiar, guardar os instrumentos e algumas lembranças. Os instrumentos de percussão numa roda de samba, são instrumentos grandes, pesados e não muito fáceis de transportar. Precisamos de um espaço que nos dê margem de progressão para a banda, com possibilidade de ensaiar com microfones. Temos conseguido ensaiar pela boa vontade dos nossos amigos e de pessoas que gostam de nós e do projecto, que nos vão deixando usar os espaços deles. Sendo isto um grupo privado e não sendo uma associação, não há apoios que possamos recorrer.
Além disso, há outro desafio. Temos várias pessoas que, estando no seu perfeito direito de o fazer, nos perguntam o porquê de estarmos a apostar numa cultura que não é nossa. Nós tentamos desmistificar um bocadinho isso. Sim, é verdade que este projecto é só relativo a samba e música brasileira no geral, no entanto, todos os membros do grupo vêm de backgrounds completamente diferentes e continuam a ter projectos dentro da cultura portuguesa e açoriana, como filarmónicas, folclores, fados ou mesmo as tunas. Enquanto podemos, estamos no máximo de projectos e coisas diferentes. Desmistificar esse tipo de opiniões é um dos desafios.

Os Meio Q´É Samba são uma banda de covers de samba e de música brasileira. Pretendem fazer algum original nesse estilo de música?
DB – Já tivemos conversas sobre isso. Acho que no nosso primeiro aniversário, o Pedro chegou com uma ideia para um original. Acho que chegamos a dedicar um ou dois ensaios para isso. A letra da música está feita e bonita, mas escrever um original e toda a estrutura de uma música tipicamente brasileira, é muito contra a natura. Nós temos muito contacto com o samba, mas a realidade é que crescemos na música portuguesa e na música açoriana. Houve tentativas, mas reparámos que se calhar não era o uso mais produtivo do ensaio, porque o tempo que utilizámos para escrever 20 segundos do original, tínhamos facilmente treinado três novas músicas. Estávamos numa fase em que queríamos muito expandir o nosso reportório. Quem sabe no futuro focamo-nos nele outra vez.

Para terminar, há alguma novidade para o futuro? Algum projecto ou actuação pensada?
JV – Agora vamos à Graciosa novamente, o que é bom sinal. Quando voltamos a um sítio e a uma ilha onde já tocamos, é sinal que deixámos boa imagem.
Temos também alguns projectos que gostaríamos muito de fazer, como um evento próprio, com uma actuação própria, num espaço escolhido por nós e com um som escolhido por nós. Já pensámos em fazer na praia ou num mercado, que é muito típico no Brasil. Apesar dessa ideia, a nossa prioridade é actuar e responder a todos os convites que nos fazem. Essas ideias ficam um bocadinho para segundo plano agora no Verão.
HA – Além disso, gostávamos de ir ao Brasil. Receber um convite para ir ao Brasil seria o ex-líbris da nossa existência. Há intenções de fazer alguns contactos com algumas casas açorianas no Brasil.
Vasco Blayer

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