É uma honra e uma emoção estar hoje aqui, no início das festas de Nossa Senhora de Lourdes, tão venerada pelos homens do mar e sobretudo pelos baleeiros, num dia em que brilhantemente se celebra 187 anos de elevação das Capelas a Vila; em cerimónia em que os filhos da terra, personalidades e instituições, são distinguidos pela sua autarquia, reconhecendo, assim, o valor, a ação e o prestígio conquistados em prol da Comunidade e dos Açores.
Sou neto, sobrinho e primo de Baleeiros das Lajes do Pico. Também sou devoto da Senhora de Lourdes, e meu avô Manuel Moniz da Papuda, em tempos áureos, também veio balear para as Capelas.
Este contexto, mais a alegria de rever na sua terra natal, o Padre António Rego – um dos meus mestres do jornalismo audiovisual em Portugal – permite-me usufruir de um contentamento redobrado, na cerimónia em que se inaugura, com rasgo e superior alcance, a “Praceta Belaurora”.
Permita-me saudar a Senhora Presidente da Junta de Freguesia de Capelas, Dra. Sílvia Rainha, e toda a sua dinâmica equipa, pela inteligência e atitude política e cultural reveladas ao atribuir a esta Praceta – lugar de encontros e de festa – o nome de um grupo cimeiro da expressão musical açoriana, reconhecido em Portugal e no estrangeiro.
É assim que se defende com argumentos sólidos o nosso património imaterial, o nosso cancioneiro, a nossa identidade.
Conheço e acompanho o Grupo de Cantares Belaurora, desde que surgiu em público, em 1985, dando expressão ao “Curso Elementar de Música” ministrado por Carlos Sousa e companheiros no âmbito da “Educação Permanente”. O “Belaurora” fez parte do meu percurso profissional e a sua qualidade rapidamente se transformou num distintivo de referência. Já em 1990 promovi a sua ida ao Pico onde participou na Semana dos Baleeiros com grande sucesso ao lado de Mara Abrantes e do Grupo Coral das Lajes do Pico, fundado e dirigido por outro ex-aluno do Padre Edmundo Oliveira, do seminário de Angra, Manuel Emílio Porto, grande arranjador para música polifónica do cancioneiro popular açoriano. A matriz é a mesma e profunda. Nessa altura, Mara Abrantes cantou com o Belaurora o eterno “Luar do Sertão”. Mais tarde, em 2009, não hesitei em convidar o grupo “Belaurora” para assinalar no Casino Parque Hotel da Madeira, o 10º aniversário do programa Atlântida, criado e apresentado por Maria Aurora. Foi uma apresentação fantástica.
A obra notável de mais de quatro décadas, espelhada em vários documentos, como a Fotobiografia agora lançada, ao serviço da música e do nosso património imaterial, que o “Belaurora”, tem edificado de forma criteriosa e conceptual, dá-nos o prazer e a oportunidade de rememorar no tempo, e descobrir verdadeiros achados que enquadram e justificam em pleno o tempo de hoje; um tempo que nos remete às expressões melódicas que exploram a simplicidade da nossa Viola da Terra desde o povoamento no século XV; desde que aqui chegámos; essa viola que até converte a tristeza em alegria; dois corações centrais que simbolizam, a saudade, a gratidão, a ternura, o afeto, o amor, ou como diz o Padre Ernesto Ferreira, a expressão dos sentimentos do povo, a exteriorização da sua índole amorável, do seu génio afetuoso e bom.
Essa viola “da terra”, símbolo de todas as partidas das nossas viagens, como tão bem se explica em toda a expressão de vários quadros de Domingos Rebelo, entre os quais, os “Emigrantes”, ou como o povo diz, os “seus corações, estão ligados por um “cordão umbilical” que se une numa lágrima, a lágrima da Saudade. Esta lágrima da Saudade é também referida como símbolo do “Ás de Oiros”, representando a busca de fortuna aquando da emigração. O “Belaurora” acrescentou outros instrumentos tradicionais, com predominância dos cordofones, tão apreciados pelo nosso povo.
O “Belaurora” tem preservado e acrescentado o legado deixado por consagrados pesquisadores da nossa música tradicional, ou por escritos, livros, ou através da oralidade na ressonância viva dos mais antigos. É impossível não lembrar a antologia sonora do Folclore Musical nas Ilhas dos Açores, de Artur Santos; os “Balhos Micaelenses” de Manuel José Tavares Canário; os “Cantares Açorianos” do Pe. José Luiz Fraga; os Balhos, “Rodas e Cantorias” de Júlio Andrade; o “Folclore da Ilha do Pico” de João Homem Machado; “Cantigas do Povo dos Açores” do Tenente Francisco José Dias; aos quais é possível juntar de diferente forma, nomes tão sonantes como Teófilo de Braga; Tomaz Borba, Luís da Silva Ribeiro, Armando Cortes – Rodrigues; Francisco Lacerda, João Manuel Bettencourt da Câmara, José Leite de Vasconcelos, José Machado Serpa, Emílio Porto, ou mesmo a simplicidade vivida de Herculano Silva.
O Tenente Francisco José Dias, sublinha também a importância dos “jograis” – esses poetas líricos e cantores que foram os grandes obreiros das modas e das coreografias (marcação do balho) que o povo começou a usar.
A nossa canção popular é inconfundível: as circunstâncias do isolamento e do clima mais as naturais influências flamengas, africanas, espanholas e outras, fizeram com que ao longo de séculos, criássemos um património musical que se identifica na nossa posição atlântica.
Depois, há os nossos sentimentos. A verdade. A terra e o mar. O amor.
A canção popular nasceu do amor e do trabalho; do amor ao trabalho.
A mãe, acalentando o filho criou uma canção, a de embalar, e no arranjo da casa, criou outra.
O Homem trazendo os bois, inspirou-se num canto dolente. Trauteou canções cavando a terra.
E a viola, o chamariz. A viola da terra de dois corações. Com todos os corações: eram balhos em casa dos mordomos, do Imperador do Espírito Santo, nas Matanças de Porcos; ao Menino Jesus, aos Reis, às Estrelas
A seguir ao amanho da terra, a ceia: um saboroso caldo de couves com pão de milho migado. O homem do campo de galochas nos pés já lavados assentava-se à soleira e ei-lo a dedilhar os pontos do Pezinho, Bela Aurora, Sapateia, Balho Furado… Balhos onde se encontra a alma do povo, aberta a tudo o que lhe dê satisfação, vida expressiva e o incentivo para o trabalho.
É este, afinal, o segredo do “Belaurora” que ao longo de 41 anos soube preencher uma carreira notável. Primeiro, de boas – vontades, generosidade e sonho, para logo depois ser de afirmação, consolidação e internacionalização consistente, de admiração reconhecida, se transformar no mais puro, genuíno e representativo emblema da “Música Tradicional Açoriana”; uma obra plasmada em dezenas de espectáculos e gravações discográficas, cujos nomes só confirmam que nada é feito por acaso e obedece a uma estratégia e a um conceito que só valorize a essência musical das ilhas dos Açores.
Um percurso admirável, sem tibiezas, sem hesitações, sem desvios. Dez discos de estúdio: Do Velho se faz Novo (1987), Cantos d´Outrora (1990; França 1994), Entre Cantos e Marés (1995), , Cantorias (1999), Lágrimas de Saudade (1999), Quinze Anos de Cantigas (2000), Achados o Tempo (2003), O Cantar que nos embala (2004), Da Maior e da Mais Alta (2010), Festa do Menino- Momentos de Natal (2021). Um DVD: Belaurora – A Voz dum Povo (2006) e representado em onze antologias, três das quais em França: “Voyage musical, Le Portugal e les iles”; “Terres Portugueses” e “Les Açores- The Azores”. Um altíssimo representante da “World Music” açoriana.
Muitas digressões nas ilhas, Açores e Madeira, em Portugal Continental, de Norte a Sul; e estrangeiro: Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha- Canárias, actuações sempre em palcos de grandes eventos, a título próprio ou em representação dos Açores, designadamente em programas de televisão da RTP Internacional. Neste contexto merece atenção a actuação em 1996 em Paris no Thêatre de La Ville. O “Belaurora” foi a 5ª presença portuguesa a pisar aquele palco de grande prestígio internacional, depois de Amália Rodrigues, Zeca Afonso, Trovante e Madredeus. Mais, os convites que ficaram por cumprir, por falta de apoios e disponibilidades financeiras, como Centro Cultural de Belém, Casa da Música no Porto, Santa Catarina – Sul do Brasil ou Macau.
Recordo o ano de 1993, quando Vitorino ganhou o prestigiadíssimo prémio Zeca Afonso, instituído pela Câmara Municipal da Amadora, com o álbum “Eu que me comovo por tudo e por nada” e o escritor António Lobo Antunes, autor de alguns dos poemas interpretados por Vitorino, foi também abrangido pela distinção. Entre os finalistas figuravam nomes como Júlio Pereira, Amélia Muge, e os agrupamentos Victor Jara, GNR, Madredeus e claro o “Belaurora” das Capelas – São Miguel – Açores, o que levou um dia o grande compositor/ cantor José Mário Branco a dizer: O melhor grupo de cantares dos Açores que se dedica à recolha, pesquisa, estudo e divulgação da música tradicional da região onde o lirismo português atinge o seu apogeu.
E em toda a subliminar abordagem à obra discográfica do Belaurora, perpassa a figura de Miguel Bretanha, o pai de Carlos Sousa; a personalidade que preenche a memória, o imaginário, o enriquecimento sábio e transmissível, que garante a tradição, a herança e a hierarquia familiar.
E depois esta é a terra da Folia. Capelas, é Folia do Maranhão: É, João Luís Mariano; é Jaime “Chumeca”; é António Duarte “Louro”; é Dinis Inácio, é Alfredo “Marou” é José Melão, é José Reguinho”.
É Carlos Sousa quem confessa, em discurso directo, como desabafo de uma vida:
“O trabalho que desenvolvi com este grupo foi, de facto, uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. Sem esta oportunidade, ficariam talvez sonhos por realizar, coisas por contar, mundos por conhecer. E, sobretudo, um tesouro imenso por descobrir: aquele que o nosso povo foi construindo ao longo dos séculos do seu viver nestas ilhas, pejando-as da cultura que ele criou, foi transmitindo de geração em geração, e nos deixou por herança”. E uma dedicatória especial para os 48 indomáveis guerreiros que com ele, empreenderam este belo e enorme desafio de cantar os Açores com a Voz do seu Povo.
Neste trajecto de quatro décadas acrescentaria de forma particular, três nomes fundamentais: Gilberto Bernardo, o grande ilustrador das capas de muitos Cds, como verdadeiros vitrais de Catedral de um quotidiano rural, quase sagrado, da roda do tempo, do ciclo das festas e autor de temas tão bonitos como a “Nova Chamarrita”:
Já tenho o dia marcado / E às tantas da madrugada / Lá no sítio combinado / Vou beijar a minha amada.
Ai, eu só quero / é cantar a chamarrita / E cantá-la / foi o que me trouxe aqui / Pois ela é / a modinha mais bonita / E a primeira / cantiga que aprendi… Emiliano Toste, conselheiro, músico, cantor lírico, e sonoplasta, editor em Portugal e no estrangeiro da obra do Belaurora; e José Francisco Costa – o companheiro que vem da infância e que um dia escreveu o memorável e emblemático “Velho Pezinho” primeiro celebrizado pelo “Duo Ouro Negro” depois pelo “Belaurora” e que o mundo pensa ser do cancioneiro popular açoriano:
…Não há festas, nem touradas /Romarias, coroações / Andam as almas cansadas /por outeiros, por canadas…/
Vamos dançar sapateia outro bailinho / O meu amor, lira ingrata, não voltou /
Foi por aí devagar, devagarinho / Outro pezinho no lugar do seu ficou…
Lapidares as palavras de uma grande personalidade da igreja, da comunicação social, das Capelas e do mundo, o Padre António Rego:
Poucos não açorianos serão dignos de descodificar por inteiro este cacho de sons que transportam uma história, uma experiência do oceano intercalada de lava, com gente viva lá dentro a viver, a amar e a festejar à sua maneira…
…Ouço o Belaurora desde o seu início… Vi o seu director e a sua alma, Carlos Sousa, crescer para os sons, trabalhar o desenho rigoroso das melodias, inventar acordes, saltar da guitarra para o violino, marcar o ritmo, disciplinar os pianos, explorar a eloquência dos fortes, enternecer-se no lirismo da saudade, imprimir a alegria às modas, tratar a dolência quase chorosa de algumas composições e potenciar a festa escondida na alma de muitos cantares da nossa terra.
As Capelas têm a sorte de ter o “Belaurora”, e o “Belaurora” de ter o Carlos Sousa, que bebendo na família, se projeta na família, se prolonga na família e que um dia depois de muitos anos de canseiras, de crer e querer, escreveu para o seu compadre da América:
José Francisco, chegou o tempo, finalmente, de dar à estampa as estórias que foste, em tempo, e fora de tempo, escrevinhando. São estórias do teu e do nosso tempo para que, em tempo, se vá reflectindo o tempo que foi, o tempo que é, o tempo que será. O passado foi aurora do presente; o presente sê-lo-á do futuro: a boa e bela aurora do Tempo que virá.
E a partir de hoje, o grupo de cantares Belaurora ganha o novo Tempo, o tempo da eternidade.
As Capelas, hoje, são Belaurora. E o Belaurora acrescenta Capelas ao mundo, cumprindo-se assim a máxima de Miguel Torga: “O Universal é o Local sem Paredes”.
Parabéns, Dra. Sílvia Rainha, por ter aberto as paredes deste local, e criado numa ilha a Praceta com o nome mais bonito e mais profundo, mais enraizado, em qualquer país do Mundo, preservando um património de gerações, e propondo para as Capelas, daqui para a frente, todos os dias, um amanhecer bonito, um nascer de sol famoso e brilhante, um raiar do dia puro e de esperança:
A Bela Aurora chorava;
Ela no pranto dizia:
Já não tenho o meu amor,
Minha doce companhia.
A Bela Aurora na serra
Não sei como não tem medo:
Faz a cama, dorme só
Debaixo do arvoredo.
Aurora, meu bem, Aurora,
Aurora detrás dos montes:
Uma hora te não veja
Meus olhos são duas fontes.
Aurora, querida Aurora,
Aurora no seu jonjal:
Minh’alma morre p’la tua
E a tua não sei por qual.
Que aos domingos de manhã possamos ouvir em fundo neste espaço e na voz da Anita Medeiros, a mais bela versão que conheço da Bela Aurora, como símbolo da memória, da esperança, da família e da Gente.
A “Praceta Belaurora “é um local de festa, com História e muitas histórias. Que não seja apenas um nome toponímico, um endereço para cartas e carteiros, mas um local de culto, de identidade e promoção turística e cultural, na terra de Nossa Senhora da Apresentação, de Nossa Senhora de Lourdes, na terra dos nossos Baleeiros.
Parabéns, Belaurora!
Parabéns, Capelas!
Vila de Capelas, Praceta Belaurora, 23 de julho de 2026
Por: Sidónio Bettencourt