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A ousadia do Ousadia FC

NO FINAL DO PASSADO MÊS DE JUNHO, CAUSOU ESPANTO O PROTOCOLO de parceira estratégica entre a SAD do Clube Desportivo Santa Clara e o Ousadia Futebol Club, com sede em Barcelona, Espanha.
O comunicado resultante do acordo estabelecido fala de “uma iniciativa que reforça a estratégia de internacionalização do Clube e a aposta no desenvolvimento de jovens talentos”.
Mais à frente, refere ser intenção “identificar e desenvolver jogadores, através de um intercâmbio de conhecimento técnico, realização de acções de formação, “scouting camps” e outras iniciativas desportivas que promovam o crescimento de ambas as estruturas.
Sobre o Ousadia FC foi dado a conhecer ser actualmente “um dos projetos emergentes do futebol espanhol, destacando-se também pela sua forte presença digital, sendo o sétimo clube de Espanha com maior número de seguidores nas redes sociais, fator que reforça a dimensão e o alcance desta parceria”, acrescentando que o protocolo “permitirá aproximar os Açores e a Catalunha através do futebol, criando novas oportunidades de desenvolvimento para atletas, treinadores e profissionais das duas instituições, ao mesmo tempo que contribui para reforçar a projeção internacional da marca Santa Clara.”
O primeiro resultado do acordo está na vinda de dois jovens atletas do clube, ambos de nacionalidade brasileira. Lucas Branco e Bisneto está a treinar na equipa de sub 23, numa avaliação do treinador João Nicolau se se justifica a transferência.

MAS QUEM É O OUSADIA FUTEBOL CLUBE? Nasceu em Vila Cruzeiro, a norte do Rio de Janeiro. Edivando, conhecido por Queixinho, era um jovem brasileiro com o sonho de ser jogador profissional de futebol. Este carioca, depois de tentativas frustradas na adolescência, decidiu realizar vídeos para a internet. Foi a oportunidade de realizar o sonho.
Um ano depois da produção de vídeos, Queixinho acumulava mais de um milhão de seguidores nas redes sociais. Surgiu-lhe um convite para jogar futebol na Albânia. O seu quotidiano no clube europeu era documentado nas redes. Apresentou as dificuldades em clubes sem dimensão e mal estruturados: “Nosso banheiro não tinha sifão, nem água quente. Os invernos são rigorosos. Comíamos resto de carne com um pouco de arroz. Foi uma fase da minha vida que vi o que realmente era o futebol. Para ser jogador teria de passar por aquilo? Então optei por outra via”, relatou o promotor a uma plataforma digital brasileira.
Decidiu formar um clube. Como sozinho não era fácil, contactou com pessoas que já trabalhavam principalmente na parte burocrática. E foi junto da BCN Academy que fundou o Ousadia FC, filiado, no primeiro ano na federação da Catalunha como Ibero Americano de Futbol.
Dois meses antes do início da IV Divisão da Catalunha, equivalente à 11.ª Divisão, nasceu o Ousadia FC. Para poder participar na Taça de Espanha terá de subir cinco Divisões.
A IV Divisão da Catalunha é semiprofissional e, por isso, não há pagamento de salários. A selecção de jogadores foi realizada através das redes sociais. O clube passou a ter maior êxito nas redes sociais. Conta com mais seguidores do que nove equipas da I Liga de Espanha.
Queixinho disse ter sido difícil captar jogadores brasileiros. Agora, tem sido mais fácil. “Uma das condições era a de terem possibilidades de se manterem em Espanha ou que já morassem no país, porque facilitaria. Não fizemos nenhuma selecção. Quem conseguiu vir, veio. Mais de 800 pessoas entraram em contacto connosco, mas sé 25 a 30 o e que reuniam as condições”.
Encontrar campos para treinar e jogar não foi difícil. Pagam para utilizá-los semanalmente.
A estrutura do Ousadia FC foi gradualmente aumentando. Hoje conta com sete funcionários, um treinador chileno, um preparador físico panamenho, dois brasileiros que trabalham nas redes sociais, um motorista, um vice presidente que trabalha em conjunto com Queixinho na administração do clube.
Está escrutinado o parceiro da SAD do CD Santa Clara!

O DR. MELO BENTO ESCREVEU ESTA SEMANA NA SUA HABITUAL COLUNA no jornal Açoriano Oriental sobre o financiamento das equipas açorianas que participam nas competições nacionais. Leio sempre os seus artigos porque versam assuntos interessantes, principalmente quando conta histórias que se passaram há vários anos. Nutro pelo dr. Melo Bento respeito e consideração.
…Contudo, na coluna de quarta-feira não foi feliz porque não se documentou ou então fez uso de comentários em roda de amigos que também ignoram a realidade. Aliás, bastava ler os artigos que semanalmente escrevo neste diário e no Açoriano Oriental para ficar elucidado. Sei que não o fazem porque o desporto local nada lhes diz. A não ser em ocasiões que mais valiam estarem calados.
O desporto açoriano só interessa a articulistas e a políticos indocumentados para criticá-lo, geralmente cometendo injustiças porque estão fora de jogo. Não por centímetros, mas por muitos metros. Aí é que “não se percebe bem” porque fazem-no sem conhecimento de causa. Erram sem necessidade e passam para a opinião pública informações incorrectas.
Que são para o dr. Melo Bento quantias incríveis do orçamento açoriano? Ou “estamos dando milhões para que estranhos nos representem sem qualquer contrapartida, pois não acredito que ninguém, os venha ver jogar”. Está profundamente enganado. Se fosse aos campos constatava o contrário. Agora, com os absurdos preços das passagens aéreas (o dr. deveria abordar este tema), certamente que não virão.
Será o um milhão de Euros para a equipa de futebol do Santa Clara promover os Açores numa participação no campeonato da I Liga, quando a SAD faz entrar nos cofres anualmente 5 milhões de Euros em impostos, com a média mensal para a segurança social de 413 mil?
Desconhece que só na época passada a SAD teve 33 moradias alugadas, possibilitando aos proprietários receitas de 491 mil Euros. Há contratos com empresas e particulares para serviços de limpeza e de “catering”. Desconhece que em aluguer de instalações para treinos foram pagos 34 290 mil Euros. Desconhece, mas, se ler este apontamento, fica a saber que só em transportes aéreos foi pago 714 200€. Que em transportes terrestres (são dois autocarros da empresa Auto Viação Micaelense diariamente afectos às equipas e, nesta época, mais um autocarro de uma empresa privada de Vila Franca do Campo) a SAD despendeu 608 mil Euros na época de 2025/26.
O dr Melo Bento faça a soma e veja quanto a Região arrecada? O Santa Clara, após a saída da Ryanair, é a entidade que mais promove os Açores, em especial a ilha de São Miguel durante 10 meses. Por 100 mil Euros/mês.

REFERE À AUSÊNCIA DE UM ÚNICO JOGADOR AÇORIANO nas equipas principais. O senhor não acompanhou a evolução. Não há comparação entre o tempo do seu Micaelense FC, que não conseguiu impedir o desaparecimento não agora, mas há 25 anos, quando não existia a massificação nas televisões do SL Benfica, do Sporting CP e do FC Porto, que secam todos os outros clubes, levando a que milhões sigam-os em detrimento das colectividades das suas terras.
Todas as principais equipas açorianas têm atletas dos Açores nos plantéis. A excepção foi o Santa Clara A nesta e na época passada, mas há dois na calha. Na estrutura há açorianos desta ilha. Aliás, nesta temporada, nas equipas de Sub-19, de Sub-23 e B, dos 19 elementos das equipas técnicas, só um é do exterior e outro está há pouco tempo por cá. Três residem na ilha há mais de 15 anos. Se não me falha a memória, pelos estatutos da FLA, têm direito a passaporte. Mais: em todas as equipas referidas há vários açorianos, alguns de outras ilhas.
As restantes formações que estão nos campeonatos nacionais dos desportos colectivos possuem atletas açorianos. Está estipulado. Se o plantel for formado apenas por atletas da Região, recebem uma majoração de 100%, que atinge os 30 mil Euros. Vão perdendo o prémio consoante o número de jogadores de fora. Se tiverem mais de quatro não são alvo de qualquer valor. Escreveu açorianos mesmo das comunidades emigrantes. Olhe, se não tiver quatro anos de formação em clubes dos Açores não contam como indígenas.
O Governo paga as viagens aéreas e uma diária de 60€ (para dominada, alimentação e transferes) por elemento da comitiva limitada a 18 ou menos consoante a modalidade. E tem havido cortes anuais.
Deixo-lhe mais um número sobre os cortes no desporto. O Campeonato de Futebol dos Açores teve um investimento em 20218/19 de 662,695€. O da época passada, com a redução do custo das passagens inter ilhas e de a prova ter desde há cinco anos uma só fase, custou 248 797€. Foram menos 413 918 mil Euros. Tenho documentado.
Os campos estão (quase) vazios nos Açores e em muitos locais do Continente. Nem sempre. Pudera! Se só se fala dos mesmos, como as crianças, os jovens e os seniores podem ser dos clubes das suas terras.

OS CLUBES DESEMPENHAM UM PAPEL VITAL na construção da identidade colectiva das comunidades. Tal como destaca Pierre Bourdieu, eminente sociólogo francês, as práticas culturais, como é o caso do desporto, ajudam a consolidar o “habitus”. São um pilar agregador de socialização, que reforça a coesão identitária e de partilha social da comunidade, oferecendo, ao mesmo tempo, uma arena de auto estima colectiva.
São, como acontece apenas em Guimarães, na Madeira, com o Maritimo, e mais recentemente em Braga, uma inegável simbiose emocional e identitária com a sua cidade, o seu concelho e a sua Região, Esta singularidade incorpora um espírito indomável de resiliência,
Pena que os açorianos, especialmente os micaelenses, voltem as costas aos seus símbolos. Porquê?

José Silva

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