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“A comercialização de ameijoas não é sustentável e o stock está em colapso”, alerta Adriana Luz

Desde 2023 que Adriana Luz é a bióloga responsável pela produção de ameijoas na Fajã de Santo Cristo. Contudo, os problemas que existem hoje são os mesmos que existiam há mais de 10 anos. Ao Correio dos Açores explica como se pode mudar esta situação, como é feito o abastecimento local, como se pode combater a apanha ilegal e afirma: “o reconhecimento e protecção do local não capitalizam verbas para a sua manutenção”.

Correio dos Açores – Há quanto tempo é responsável pelas amêijoas na Fajã de Santo Cristo?
Adriana Luz (Bióloga da Associação de Produtores de Amêijoa da Fajã do Santo Cristo) – Comecei a trabalhar cá em 2023. Antes de mim, já estiveram cá outros biólogos, uma vez que é a Direcção Regional das Pescas que financia a Associação. A nossa é particular porque temos um biólogo e somos a linha da frente na obtenção de dados para a DRP.

Como está a produção de amêijoas este ano?
O recurso está encerrado desde o início do ano. Isto é feito para aumentar o recurso, que está fechado há oito meses, mas, na minha opinião, ainda vai precisar de mais de um ano para recuperar. E talvez um ano não seja suficiente.

Como é feito o abastecimento local?
As amêijoas são vendidas em lota, e os restaurantes depois compram lá. Já chegamos, inclusive, a vender amêijoas para São Miguel, online.
Claro que é muito bom o facto de o mercado ser liberalizado, mas, se não conseguimos abastecer, actualmente, a nossa ilha, como é que vamos vender para fora?

Teme que os restaurantes locais fiquem sem amêijoa para servir?
Sim, e as últimas que foram vendidas em lota foi no fim do ano. Pode haver algum restaurante que ainda tenha congeladas, mas o que acontece é que uma factura de 10 quilos serve para vender 100.
Há muita venda ilegal de amêijoa, toda a gente sabe que é uma prática comum, inclusive já alertamos a Direcção das Pescas para este facto, e o que nos é dito é que a forma mais fácil de fiscalizar é ir fiscalizar os restaurantes. Aparentemente é muito difícil de se fiscalizar um recurso, que está numa Fajã e por onde só pode sair por duas vias.
As pessoas acham que aquele recurso lhes pertence. E nós concordamos em parte, uma vez que o recurso poderia ser para todos, levando até a uma alteração da legislação que o permitisse. Era sempre mais fácil em termos de regulamentar esta situação. Nós entregamos as recomendações só que depois não acontece nada.
No dia 15 de Agosto acaba o defeso e quando chegar a este dia, costumava a ter uma enchente de pessoas a apanhar amêijoas. Chegamos a contar mais de 50 pessoas, que apanham o que querem, o que torna insustentável. Se houvesse uma regulamentação, por ventura não aconteceria.

Quais são as diferenças entre as amêijoas da Fajã e as outras?
A espécie é a mesma que existe no continente. Há um estudo que está a decorrer, que compara nutricionalmente as nossas amêijoas com as da Ria de Aveiro e com a Ria Formosa. Mas ainda não há dados concretos, uma vez que o estudo ainda está a acontecer.
São especiais aqui nos Açores, porque a Fajã é o único sítio onde elas podem crescer.

Que estudos têm sido feitos na Fajã?
Tem sido feita uma monotorização sazonal da abundância das amêijoas. Vemos se elas estão a crescer, se existem mais reprodutores, se o recrutamento de juvenis tem vindo a aumentar ou não.
O que temos visto é que o número de reprodutores, ou seja, amêijoas com mais de quatro centímetros, as amêijoas grandes, que têm tamanho para ser comercializadas, têm vindo a diminuir, devido ao esforço de captura, especialmente devido à apanha ilegal.
Esta apanha não é controlada. Nós contamos o número de pessoas que vemos a apanhar e reportamos este número para a DRP, uma vez que a apanha lúdica não é regulamentada e por isso é ilegal. Depois fazemos uma estimativa de quanto é que cada pessoa leva ilegalmente e podemos dizer que os valores são muito superiores os que existem relativamente às quotas de apanha legal.
É esta apanha legal que abastece, na sua maioria, os restaurantes em São Jorge. Se houvesse uma maior fiscalização das facturas, e das amêijoas que não têm tamanho para serem comercializadas, este número poderia aumentar.
A nossa recomendação de fechar, para aumentar o número de reprodutores, já tinha sido entregue há muito tempo. Inclusive, no relatório que entregamos no ano anterior, já tínhamos referido que havia muito menos amêijoas.
Outra questão é a existência de um contracto com a DRP para fazer a analise microbiológica nas amêijoas, para saber se é seguro comercializar estas amêijoas. Já foram feitos alguns exames, mas como os seus resultados nunca foram divulgados, não podemos afirmar que as amêijoas podem ser comercializadas.

Que espécies coexistem comas as amêijoas na Fajã?
Existem várias espécies de peixes e caranguejos num ecossistema muito variado. Inclusive, alguns dos peixes comem as amêijoas.
Teme que a amêijoa possa desaparecer?
Desaparecer não acredito, ela vai sempre existir. Agora se a sua comercialização é sustentável, actualmente não e até consideramos que o stock está em colapso. AS amostras que soa enviadas para o IPMA, têm de ser enviadas com um determinado número de amêijoas, e quando não conseguimos capturar amêijoas de tamanho comercial para enviar para o laboratório, é preocupante. Ou então se demorarmos mais de duas horas para encontrar o número que necessitamos de amêijoas.
Tentamos ser dinâmicos e ser parte da solução em prol da sustentabilidade daquele ecossistema que é frágil. Para não falar da pressão do turismo, e circulação não controlada de veículos na Fajã que é um dos principais facilitadores da saída de amêijoa ilegal.
Tem dias agora no Verão que circulam mais de 100 vezes no trilho estas motas. Obviamente vai ser disturbador para o ambiente, aves prioritárias, etc.

Como é que se poderia estimular a produção de amêijoas para ser comercializadas?
A margem sul da lagoa é um local onde não cresce amêijoas, porque o substrato não é o adequado. E se algumas se conseguirem enterrar, são comidas pelos peixes.
Depois há o problema com as algas no fundo, que continuam lá e consideramos que seria importante haver um restauro dos fundos e das margens para facilitar a reprodução das amêijoas. Sem o ambiente adequado elas não conseguem crescer.
Temos uma diminuição do número de reprodutores, onde antigamente havia um número maior, e depois temos o substrato que não é adequado para elas crescerem. Os fundos estão cheios de algas, o que dificulta o seu crescimento e temos margens que precisavam de ser recuperadas. São temas que já foram discutidos, numa iniciativa promovida pelo grupo de co-gestão, só que depois quando houve alteração de directores, isso caiu. Já tínhamos discutido os problemas, e encontrado as soluções e depois não aconteceu nada. O documento está, neste momento, arrumado numa gaveta.
Os problemas que existem hoje, são os mesmos problemas de há mais de 15 anos. Gostaria de realçar o facto de que o reconhecimento e protecção do local não capitalizam verbas para a sua manutenção.

De que forma participam na Blue Azores?
Apesar de sermos uma Associação de Produtores de Amêijoas, também organizamos limpezas costeiras, temos uma grande preocupação com o ambiente e tentamos integrar sempre a sociedade nas nossas actividades.
Por isso fomos convidados a participar nos seus eventos, e está a ser muito produtivo porque integramos uma plataforma que nos permite concorrer a fundos em consorcio para poder melhorar a monotorização e para fazer mais actividades incluindo e para a sociedade.
Com a Blue Azores também tivemos várias formações como elaboração e gestão de projectos, formações dadas a diferentes associações nos Açores para conseguirmos concorrer oportunidades de financiamento. E daí nasceu uma plataforma colaborativa (referi) e já concorremos a um projecto em consórcio.
Também estamos a colaborar num projecto InterregMac, o ACUICONECTA, que já está a decorrer.
Frederico Figueiredo

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