Porque as tradições só sobrevivem quando há um povo que as vive. E, pelas imagens desta festa, fica bem evidente que a fé dos pauenses continua bem viva, forte e profundamente enraizada no coração de quem nunca esquece as suas origens.
Água de Pau volta a vestir-se de festa para honrar a sua Padroeira, Nossa Senhora dos Anjos.
A majestosa procissão percorre as ruas da vila perante milhares de fiéis, naturais da terra, emigrantes regressados ao berço das suas origens, visitantes, turistas e muitos forasteiros que desejam testemunhar uma das mais belas manifestações de religiosidade popular dos Açores.
As imagens e as fotografias continuarão a falar por si.
Ruas completamente repletas de gente, varandas cheias, famílias inteiras reunidas, crianças, jovens e idosos, todos unidos pela mesma fé e pelo mesmo respeito por uma tradição que atravessa gerações.
Não se trata apenas de uma procissão; é a expressão viva da alma de um povo que continua a preservar o legado dos seus antepassados.
Também a natureza parece associar-se à festa. Água de Pau apresenta-se livre das nuvens, oferecendo um céu limpo e um sol radiante que parece querer homenagear a Padroeira e a sua terra.
Durante cerca de duas horas e meia, dezasseis andores percorrem as ruas mais emblemáticas da vila.
A imagem de Nossa Senhora dos Anjos é transportada aos ombros por dezasseis homens que, em sucessivos revezamentos, levam com devoção aquela que é, há séculos, o maior símbolo espiritual da vila.
Como manda a tradição, a imagem vai recebendo, ao longo do percurso, as coroas de notas de euros e de dólares americanos e canadianos, ofertas dos emigrantes e dos moradores de cada rua.
São dez coroas que representam promessas cumpridas, gestos de gratidão, sacrifícios, fé e devoção. Não representam riqueza nem ostentação; representam a entrega humilde de quem agradece graças recebidas e deseja contribuir para a continuidade das festividades e da vida religiosa da sua terra.
Esta tradição não nasce hoje. Não é inventada para agradar aos tempos modernos nem para impressionar quem vem de fora. É um costume herdado dos antepassados, transmitido de pais para filhos e de avós para netos, mantendo-se vivo há muitas décadas.
Cada geração recebe este testemunho e assume a responsabilidade de o preservar com respeito e dignidade.
É precisamente por isso que, nos locais onde cada coroa é colocada no braço erguido da Padroeira, se concentra sempre uma multidão.
Não para ver dinheiro, mas para assistir a um momento profundamente simbólico que faz parte da identidade religiosa e cultural de Água de Pau.
Os homens envergando as tradicionais opas brancas e vermelhas, a banda filarmónica, os estandartes, os andores, o perfume das flores e o silêncio respeitoso que tantas vezes se faz ouvir ao longo do percurso criam um ambiente único de fé, emoção e comunhão.
As Festas de Nossa Senhora dos Anjos continuam, para muitos conhecedores das tradições açorianas, a ser das mais grandiosas e significativas do arquipélago. São motivo de orgulho para o povo pauense porque demonstram que uma comunidade só cresce verdadeiramente quando sabe respeitar a sua memória e honrar aqueles que lhe deixaram as suas tradições.
Naturalmente, nas redes sociais surgem algumas opiniões críticas relativamente às coroas de notas colocadas no braço da imagem da Padroeira. Como sempre acontece numa sociedade livre, todas as opiniões merecem respeito.
No entanto, importa também dizer que a esmagadora maioria dessas críticas parte de pessoas que não pertencem à vila de Água de Pau. Há igualmente algumas opiniões de pessoas da terra, embora em número muito reduzido quando comparadas com as manifestações de apoio à tradição.
Há quem considere que Deus não aprecia este tipo de manifestação e que as ofertas deveriam ser feitas de outra forma. É uma opinião legítima, como todas as outras. Mas também é legítimo que o povo de Água de Pau continue fiel à tradição que herdou dos seus antepassados.
Eu próprio respeito quem pensa de maneira diferente. Porém, não acompanho essas críticas. E, mais importante ainda, também não as acompanha a imensa maioria dos milhares de pauenses que todos os anos enchem o adro da igreja, as ruas e as praças para assistir à despedida da sua Padroeira antes de esta regressar ao templo.
Quem observa estas imagens percebe facilmente que ninguém está ali por causa das notas.
O que emociona aqueles milhares de pessoas é a presença de Nossa Senhora dos Anjos. As coroas fazem parte de um ritual antigo que simboliza promessas, gratidão e devoção. A fé daquele povo não depende das coroas, nem diminui por causa delas.
As tradições populares nem sempre precisam de ser compreendidas por quem lhes é alheio. Precisam, acima de tudo, de ser respeitadas.
Cada terra tem os seus costumes, as suas memórias e as suas formas próprias de viver a fé. Água de Pau não impõe esta tradição a ninguém, mas também não deve ser censurada por a preservar.
Quem acredita que Deus prefere outra forma de manifestação religiosa tem todo o direito de o dizer. Mas ninguém tem o direito de afirmar que a fé deste povo é menor ou menos sincera por manter uma tradição que atravessou gerações e continua a reunir milhares de pessoas numa extraordinária demonstração de devoção.
Enquanto houver um povo que respeita os seus antepassados, honra a sua Padroeira e transmite aos mais novos aquilo que recebeu das gerações anteriores, Água de Pau continuará a dar um exemplo raro de fidelidade à sua história.
Porque as tradições só sobrevivem quando há um povo que as vive. E, pelas imagens desta festa, fica bem evidente que a fé dos pauenses continua bem viva, forte e profundamente enraizada no coração de quem nunca esquece as suas origens.
Por: Roberto Medeiros