Por estes dias, comemora-se a data redonda do nascimento do antigo dirigente cubano, líder dos comunistas locais que, por meio de uma revolução, colocaram termo ao regime de Batista. A fuga deste para a República Dominicana, apetrechado pelos seus bens pessoais e materiais – um hábito que os ditadores cultivam e mantêm, como Hassad chegado a Moscovo – deu-se após a caminhada triunfal de Fidel rumo a Havana. Em Cuba, porém, como foi habitual acontecer naquela época histórica, um ditador deu lugar a outro. Para além do romantismo, do secretismo revolucionário, da ação histórica e das cumplicidades que anos de guerrilha criaram, a realidade subsequente é factual, nem sempre tão inspiradora.
Desde essa data, o país vive sob a forma de uma ditadura de partido único, com o Estado a comandar todos os aspetos da vida quotidiana do cubano comum. Há prisioneiros políticos, há o papel de vanguarda do único partido que se pode candidatar a eleições, a censura é real e qualquer tentativa de alterar o estado de coisas é sinónimo de traição. Os supostos ganhos no que concerne à saúde ou educação não passam de propaganda. Qualquer país desenvolvido, com multipartidarismo, apresenta melhores números, mesmo por comparação com outros países da América Latina. Mas mesmo que isso fosse verdade, compensaria o facto de não existir liberdade de reunião? Liberdade de expressão e informação? Com certeza que não. O ponto é o mesmo: quaisquer bons resultados numa área não podem ser usados para valorizar uma ditadura. Mas a realidade é que isso acontece. No nosso país, passamos muito tempo a ouvir seguidores dos partidos mais à esquerda – e alguns fiéis socialistas – afirmar que, à exceção de tudo o que é mau, tudo o resto é muito bom. Mas não há nada que se possa trocar pela liberdade.
Por estes dias, Paulo Raimundo, líder comunista português, participou nas comemorações da efeméride, em Havana. Segundo uma nota do seu partido, do qual quem escreve estas linhas também já fez parte, para expressar «uma posição solidária com a revolução cubana». Se este ato servisse para manifestar solidariedade com uma força política que pôs fim a uma ditadura para dar a palavra ao povo, teria uma enorme relevância. Mas não, Paulo Raimundo foi comemorar a criação de uma ditadura, sob o símbolo da revolução, que mantém a população amestrada, sem direitos civis que nos são profundamente naturais. E não se pode falar de um regime que mantém a população na mais pura indigência, depois de Fidel Castro ter chegado ao poder em 1959, como se fosse a pomba branca que devolveu a paz aos cubanos. Cuba comunista sobreviveu – e, eventualmente, prosperou – enquanto os soviéticos, vietnamitas, chineses e o bloco de leste serviu de garantia com bens essenciais e empréstimos, muitos a fundo perdido. No fundo, à procura de um sonho, Havana tornou-se dependente de subsídios para garantir a sua subsistência, a subsistência do regime político e social. E como todos os subsídios que não servem para transformar, serviram para adiar.
Os dirigentes cubanos usam o embargo e todas as suas expressões concretas, para manter viva a chama do imperialismo, tendo-o como argumento para a manutenção do poder. Talvez a viver a crise maior desde a tomada de poder em 1959, o atual presidente afirma que são necessárias transformações económicas: em palavras comuns, privatizações e abertura de setores hoje apenas disponíveis ao Estado e às empresas públicas, ao setor privado, em particular ao investimento externo. Antes de Miguel Díaz-Canel, Raúl Castro, que como nas monarquias, recebeu o poder do seu irmão, tentou alguma abertura económica, cujos resultados foram muito limitados. No fundo do poço, Cuba tenta mudar para se manter na mesma. Agora, que se estivesse vivo, Fidel faria cem anos. Uma data para lembrar que a realidade tem vida própria.
Por: Fernando Marta