A Universidade dos Açores disponibiliza, este ano lectivo, 665 vagas na 1ª fase de acesso ao Ensino Superior. O Correio dos Açores conversou com Suzana Caldeira, Vice-Reitora para a Educação e Assuntos Académicos da Universidade dos Açores, que admitiu que a construção das novas residências nos três polos da Universidade podem potenciar a vinda de estudantes para a instituição.
Correio dos Açores- Qual a expectativa da Universidade dos Açores em relação ao preenchimento das vagas para este ano letivo, sabendo que o número de candidaturas nesta primeira fase foi muito superior do que o ano passado?
Suzana Caldeira (Vice-Reitora para a Educação e Assuntos Académicos) – Foram mais de 10 mil candidaturas relativamente ao ano anterior, sendo que o ano passado foi um ano anómalo, porque teve muitas restrições devido à alteração das provas de ingresso ao ensino superior. As nossas expectativas são sempre positivas, embora realistas. O nosso desejo é de preenchermos todas as vagas que pusemos a concurso no CNA. Sabemos que a concorrência existe, mas o nosso desejo é que a Universidade dos Açores faça parte dos projetos de vida dos estudantes da região e fora da Região.
Sente que os estudantes de fora da Região tendem cada vez mais a escolher a Universidade dos Açores?
Há muitos estudantes do continente que vêm para a Universidade dos Açores. Nós temos registado uma presença continuada com algum crescimento de estudantes do continente na Universidade dos Açores. Este ano vamos ter em funcionamento três novas residências belíssimas, uma na Horta, uma na Terceira e uma em São Miguel, que complementam o alojamento que nós já oferecemos. A nossa expectativa é que também por aí tenhamos melhores condições para responder aos estudantes do continente e das outras ilhas que nos procuram.
Esperamos que estas três novas residências sejam um factor de tranquilidade para as famílias, porque para os estudantes que vinham de fora para frequentar cursos nestas três ilhas e, sobretudo, estudantes que vinham do continente, muitas vezes desistiam por causa do preço do alojamento. Às vezes ficava economicamente mais viável para as famílias a entrada numa universidade privada junto à sua residência e não a deslocação para uma universidade pública e com condições de oferta formativa a corresponder às intenções e os desejos do estudante candidato. A nossa expectativa é que, o aumento do número de camas e com as novas residências, isso seja um fator de menorização da preocupação das famílias e uma motivação para a vinda para a Universidade dos Açores.
E as novas residências vão estar em funcionamento no início do ano letivo?
A residência da Horta está finalizada. A da Terceira e a de Ponta Delgada estão em finalização. Esperamos ter, no final de agosto, todos estes locais disponíveis para acolher os estudantes.
Em relação à oferta formativa, pode falar um pouco sobre a nova licenciatura em Biotecnologias? Que necessidades a Universidade pretende responder com esta nova oferta?
A Biotecnologia é uma área que traz soluções muito inovadoras para diferentes domínios da vida, sejam elas a saúde, a agricultura, a alimentação, o ambiente, os recursos naturais ou a indústria. Estando nós num laboratório natural, que são as ilhas dos Açores, fez-nos todo o sentido avançar para esta oferta formativa, tanto mais que ela é fortemente apoiada pelo trabalho desenvolvido no Centro de Biotecnologia dos Açores, que tem uma investigação de projeção internacional. Fez-nos todo o sentido acompanhar o evoluir dos tempos com esta nova oferta formativa que conjuga a área da Biologia com a área das tecnologias, no sentido de criar esta oferta para responder a novas possibilidades de emprego para os nossos jovens. De facto, é uma área que está a ter uma grande penetração e inclusão em diferentes áreas da vida, desde a saúde à indústria e uma projecção muito grande. Fez-nos todo o sentido a oferta desta Licenciatura.
Quanto ao novo Mestrado em Comunicação de Ciência, que oportunidades identificaram com esta nova formação?
O Mestrado em Comunicação de Ciência tem como objetivo transformar o conhecimento científico e a linguagem do conhecimento cientifico, que muitas vezes é um pouco hermética, em informação clara, rigorosa, relevante, ou seja, entendível para diferentes públicos, desde estudantes de níveis do ensino não superior, coordenadores de centros de investigação, professores, para desconstruírem a linguagem do conhecimento científico e, sobretudo, para os media, para que quando falarem de investigações a diferentes públicos, conseguirem, de forma cientifica e fundamentada, ter uma linguagem que se adapte aos diferentes públicos.
Com o avanço do conhecimento científico, com a produção cientifica que se faz nos Açores e fora dos Açores, com a existência de diferentes meios de comunicação social, com o crescimento dos centros de ciência destinados a diferentes públicos, com a importância da ciência na formação e educação dos jovens, fez-nos sentido avançar para um mestrado com estas características, um mestrado que congrega diferentes áreas disciplinares, porque a ciência é composta de diferentes áreas disciplinares, para além de estratégias e procedimentos de comunicação sobre a própria ciência.
E este mestrado está interligado com a Licenciatura de Comunicação e Relações Públicas?
Quem vem da licenciatura na área da comunicação, verá aqui, de algum modo, uma continuidade. Mas é uma continuidade com diferenças, porque este mestrado conjuga as questões da comunicação, do jornalismo, dos medias digitais, da educação, da cultura e a comunicação de risco, que vai permitir aos estudantes trabalhar e conjugar áreas tão diversas como a Biologia, as ciências do mar, as ciências da saúde, a geociência, do turismo, para além da comunicação. Há aqui uma continuidade, mas uma continuidade muito ampliada, porque congrega áreas de cruzamento e de interacção. Uma coisa é o estudo das questões da comunicação, outra coisa é como se comunica a ciência para diferentes interlocutores, que é um aspeto que não foi estudado na nossa licenciatura, não é estudado ao nível dos ciclos básicos e é trabalhado neste mestrado.
Em relação à licenciatura em Ocean Sciences, que é lecionada em Inglês e oferecida pelo segundo ano consecutivo, tenho a informação de que o ano passado só foram preenchidas 2 vagas. Pode falar um pouco sobre a licenciatura e sobre as expectativas da Universidade para a ocupação das vagas este ano?
Efetivamente o ano passado só preenchemos duas vagas no curso de Ocean Sciences. Nós tentamos apostar na internacionalização da oferta formativa e, portanto, captar estudantes do nosso país e de outros países que se dediquem ao estudo do mar, ao estudo do mar profundo e às suas características. Numa região em que o mar está sempre incluído naquilo que é a estratégia de desenvolvimento da região, fazia-nos todo o sentido ter uma oferta formativa de licenciatura em Ciências do Mar para ficarmos com o ciclo completo, porque já temos de mestrado e de doutoramento.
Claro que a licenciatura em Ciências do Mar não estuda só as zonas costeiras, o mar profundo ou os ambientes marinhos. Para quem gosta desta área, estando aqui neste território, entendemos que isso seria uma formação muito apelativa. Nós temos procura de formação na área do mar, sobretudo, para os segundos e terceiros ciclos, que, curiosamente, são mais frequentados por candidatos estrangeiros do que por candidatos portugueses. A oferta pode ser oferecida em português e em inglês, está registada nas duas modalidades, mas é a primeira oferta que nós temos registada também em inglês, para acolher precisamente estudantes estrangeiros e poder funcionar para estudantes que venham de outros países e que não dominem a língua portuguesa. O ano passado, para a licenciatura, não conseguimos esse objectivo. Temos expectativa, com a divulgação que estamos a fazer em termos internacionais, de captar mais estudantes para esta licenciatura.
Este curso pode ser um reforço para que essa internacionalização da Universidade aconteça?
A nossa expectativa é que este curso possa contribuir, mas a internacionalização não vem só por este curso. O nosso objetivo é que a internacionalização ocorra como um todo na Universidade. Nós integramos uma aliança europeia de universidades, constituída por 12 universidades parceiras, a EUNICoast. Na área do ensino, integrando esta aliança europeia, temos vindo a dar passos para a construção de ofertas formativas com uma dimensão internacional. Propusemos um doutoramento para registo e acreditação pela agência, que tem a colaboração de duas universidades desta aliança. Estamos a trabalhar num outro doutoramento, num processo de reacreditação, que vai incluir também universidades desta aliança, em termos de participação em seminários e na coorientação de teses.
Estamos a trabalhar também em vários mestrados, temos um em biotecnologia para uma só saúde, um mestrado em migrações, um mestrado em desenvolvimento de software, um mestrado na área do mar, que congregam instituições de outros países europeus, de outros países desta aliança. E, portanto, a internacionalização do ensino também vem por aqui, vem pelas microcredenciais que temos oferecido, por via desta aliança, e dos cursos breves e dos workshops que têm vindo a ser desenvolvidos. Este curso na área das Ciências do Mar, sim, é um contributo para a internacionalização da universidade, mas a internacionalização da universidade não se reduz ao contributo deste curso.
A Universidade pretende criar novos cursos nos próximos anos?
Nós este ano já temos quatros novos cursos. A licenciatura em Biotecnologia, o mestrado em Comunicação de Ciência, o mestrado em Enfermagem Comunitária e temos o curso tecnológico superior profissional de Contabilidade e Fiscalidade. As instituições de ensino superior, em termos de oferta de cursos conferentes de grau, têm que ter alguma estabilidade. A acreditação de um curso junto da agência de acreditação é muito exigente, do ponto de vista dos requisitos para a submissão e muito demorada. Temos dois novos cursos em acreditação, um deles de doutoramento em parceria com instituições de ensino superior da EUNIcoast. Estamos neste momento em preparação do ano letivo. As faculdades irão avaliar a necessidade e a oportunidade da oferta de novos cursos conferentes de grau, sendo que, como referi, importa aqui alguma estabilidade para cada novo curso poder respirar e ter um conjunto de edições.
A nossa expectativa e o nosso desejo é que haja nova oferta formativa a nível de cursos de curta duração, sejam microcredenciais, sejam pós-graduações, sejam cursos breves, que são cursos mais flexíveis e muito voltados para necessidades específicas do nosso contexto. O nosso desejo é que essa oferta formativa possa assumir o formato de ensino à distância, porque a instituição tem-se vindo a equipar com recursos nessa área. Neste momento temos um laboratório multimédia e estamos também já preparados para ensino à distância. Temos um elevado número de salas preparadas também com ecrãs que permitem videoconferência de elevada qualidade e, portanto, transmissão presencial e online em simultâneo. A nossa expectativa é que haja da parte das faculdades e da parte da Universidade, uma diversificação da oferta formativa não conferente de grau.
O Corpo Docente para este ano lectivo sofreu alterações significativas em relação ao ano passado?
No período de 2022 a 2025, nós tivemos 31 concursos internos de progressão. A progressão na carreira esteve condicionada durante muito tempo, portanto, o corpo docente não conseguia evoluir na carreira académica. No mesmo período, também tivemos 38 concursos internacionais para a entrada de novos docentes. Neste momento, já temos em tramitação mais nove concursos. Naturalmente, há concursos que ocorrem por via de a vaga ter ficado disponível por aposentação, mas estamos também a trabalhar naquilo que são áreas estratégicas para o desenvolvimento da instituição e procurar aí ter recursos em conformidade com essas áreas estratégicas, como a Ciência de Dados, as questões tecnológicas e da informatização e as engenharias, que é uma área que queremos dinamizar na instituição. Para além dessas, temos outras áreas que estão a merecer uma atenção especial devido aos desenvolvimentos científicos e tecnológicos, indo ao encontro das estratégias de desenvolvimento da Região. 38 concursos internacionais é um número assinalável de concursos para a carreira docente e de investigação.
A abertura de novas ofertas formativas leva a que seja necessário um aumento do número de docentes?
Nós para podermos abrir um curso, seja ele qual for, temos que provar que temos recursos para a oferta do curso. A exigência que consta na lei para o número e formação dos professores que assegurem o curso com qualidade é diferente se for uma licenciatura, u m mestrado ou um doutoramento. Quando os cursos são registados, eles já passaram por um crivo de qualidade para se assegurar que têm boas condições de funcionamento. Claro que, quantos mais cursos nós oferecemos, mais bem-vindos são os recursos para apetrechar o nosso conjunto de investigadores e do corpo docente. Temos aqui também agora, porque a lei consolidou esta possibilidade, a participação dos investigadores na docência. Isto é muito interessante porque não só rentabiliza, potencializa e cria novas perspectivas para o corpo de investigação no desenvolvimento da sua carreira, como também permite aos alunos um contacto com outras carreiras, com outras formas de olhar para o ensino superior, para além dos seus professores, sendo que, qualquer docente do ensino superior é também um investigador, porque é um requisito de carreira.
A Universidade dos Açores pode ser uma ferramenta para combater a saída dos jovens da Região?
A mobilidade juvenil numa altura em que as pessoas estão a completar e a enriquecer a sua visão de mundo, não me parece um mau princípio. Aliás, nós incentivamos muito os nossos alunos a sair em mobilidade ERASMUS, recebemos também muitos estudantes nessa modalidade e entendemos que esse aspecto é um aspecto muito positivo neste mundo que é global, pois conhecemos outras realidades para depois as trazemos para o nosso contexto.
A Universidade dos Açores tem formado muito para os quadros da Região e tem tido um papel muito importante. É prova disso o estudo que foi feito pelo Conselho Geral sobre o impacto da Universidade dos Açores na Região. A Universidade dos Açores muito tem contribuído enquanto elevador social para a região e enquanto factor de promoção da própria Região.
Quer deixar alguma mensagem aos futuros estudantes da Universidade dos Açores que irão entrar este ano lectivo?
Desejo que todos os jovens consigam concretizar os seus projectos de desenvolvimento de carreira. A Universidade dos Açores está muito empenhada nos projectos de cada um dos nossos estudantes. O facto de sermos uma Universidade com uma dimensão relativamente contida, permite-nos uma maior proximidade a todos os estudantes e esse é sem dúvida um factor que facilita a contribuição para a promoção individual de cada um dos projectos dos jovens que nos procuram. São todos bem-vindos e ficaremos muito satisfeitos com a sua escolha. Cá estamos para contribuir para que os projectos de cada um se concretizem da melhor forma.
Vasco Blayer
