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Instituto Margarida de Chaves – uma casa onde o amparo ganha rosto

Há lugares que se inscrevem na memória coletiva e passam a fazer parte da consciência social, dado que não se limitam a ocupar um espaço na geografia de uma comunidade. O Instituto Margarida de Chaves é um desses lugares. Ao longo do tempo em que tive o gosto e a honra de participar nos seus órgãos sociais e de colaborar na dinamização de diversas atividades destinadas aos seus utentes, fui compreendendo que ali se escreve, quotidianamente, uma história feita de humanidade, resiliência e, sobretudo, de esperança.
A história do Instituto Margarida de Chaves, a antiga Cozinha Económica Micaelense e Albergue Noturno, confunde-se, em larga medida, com a história de uma obra de solidariedade com 150 anos de história, que soube reconhecer, no desamparo, não uma fatalidade, mas um apelo à responsabilidade coletiva. A instituição que tem o Senhor Santo Cristo dos Milagres como orago, nasceu e consolidou-se para acolher aqueles que, por circunstâncias da vida, se encontram mais vulneráveis e necessitados de proteção.
Ao longo das décadas, foi-se afirmando como um espaço de acolhimento, cuidado e dignificação, onde a pessoa é chamada pelo seu nome e não reduzida à condição que a vida lhe impôs. Foi neste contexto que tive o privilégio de participar nos órgãos sociais da instituição.
Aquela experiência permitiu-me conhecer, de uma forma particularmente próxima, a dimensão da responsabilidade que recai sobre quem serve uma causa social. Administrar, decidir, projetar e acompanhar são tarefas importantes, mas nenhuma delas adquire verdadeiro sentido se não tiver como horizonte a dignidade daqueles a quem a instituição se dedica.
Paralelamente, tive oportunidade de dinamizar várias atividades para os utentes. Foram momentos de convívio, de partilha e de participação que, embora pudessem parecer modestos aos olhos de quem observa de fora, assumiam frequentemente uma importância extraordinária para quem ali encontrava uma oportunidade de quebrar a solidão, recuperar uma recordação ou simplesmente sentir-se parte de uma comunidade.
Aprendi, nesses encontros, que um gesto de atenção pode valer tanto como uma intervenção de maior dimensão e que, por vezes, a mais simples conversa restitui à pessoa um pouco da consideração que as circunstâncias lhe haviam negado. Foi também ali que aprendi uma das mais profundas lições que a vida me proporcionou, ou seja, compreender o sofrimento daqueles que vivem desamparados. Conheci histórias marcadas pela adversidade, pela solidão e por caminhos difíceis, mas conheci igualmente pessoas que, apesar de tudo, conservaram uma extraordinária capacidade de resistência.
Cada rosto trazia consigo uma história e cada silêncio escondia, muitas vezes, uma dor que nem sempre as palavras conseguiam revelar. E, contudo, no Instituto Margarida de Chaves, esses homens e mulheres encontram algo essencial: um abrigo seguro.
Trata-se de um lugar onde podem ser cuidados, escutados e respeitados, onde a fragilidade não é motivo de vergonha e onde envelhecer, adoecer ou depender dos outros não significa perder a dignidade. É essa a verdadeira grandeza de uma instituição social: não apenas oferecer assistência, mas devolver sentido à existência de quem dela necessita.
O Instituto Margarida de Chaves, desde que foi criada em 1 de agosto de 1886, representa, por isso, muito mais do que uma estrutura de apoio, é uma expressão concreta da solidariedade humana e um testemunho de que uma sociedade se mede também pela forma como trata os seus membros mais vulneráveis. Ao recordar os anos de colaboração, guardo sobretudo gratidão. Gratidão pelos que me permitiram servir, com quem partilhei responsabilidades e, acima de tudo, pelos utentes que, sem o saberem, tanto me ensinaram.
Se dei alguma coisa à instituição, recebi dela uma lição incomparavelmente maior: a de que cuidar do outro é uma das formas mais nobres de dignificar a própria condição humana. O Instituto Margarida de Chaves permanece, assim, na minha memória como uma casa de acolhimento, mas também como uma escola de vida. E há ensinamentos que, uma vez recebidos, jamais se esquecem.
Parabéns ao Instituto Margarida de Chaves pelos 150 anos de vida.
Por: António Pedro Costa

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